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“Mamãe, você vai virar um jacaré?”

3 janeiro, 2008

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A pergunta do título foi a primeira que Bia, então com 6 anos, lançou a sua mãe quando esta contou que iria se relacionar com uma mulher, três anos atrás. “Ela disse que na escolinha, as meninas cantavam que mulher com mulher dava jacaré”, conta Ana Cristina Oliveira Dourado, uma artesã de 33 anos que mora em Brasília.

Já o filho Fernando, que na época tinha 8 anos queria saber como ele chamaria a parceira de sua mãe e ele mesmo logo se resolveu e arranjou, ele mesmo, um apelido carinhoso: “painha” – uma mistura de “mainha” e “painho”, fazendo referências às suas origens baianas.

Ana Cristina, ou Cris, conheceu sua mulher numa sala de bate-papo, em março de 2005, e combinaram de se encontrar. “Assim que entrei no carro dela e a vi fazendo uma curva, me apaixonei! Ela dirige bem pra caramba!”

Foi ali que Cris decidiu assumir a relação. Sua principal preocupação era com a compreensão dos filhos acerca do assunto, uma vez que eles ainda eram muito novos. Dias depois desse primeiro encontro, ela fez uma reunião com eles, como mandava a tradição da família quando havia um assunto importante a ser resolvido – no quarto das crianças, com eles sentados na cama de cima do beliche para ficarem da mesma altura da mãe. “Expliquei o que estava acontecendo e disse a eles que esclareceria todas as suas dúvidas.”

A situação foi delicada, mas Bia e Fernando acabaram levando numa boa. Contaram para seus melhores amigos, que freqüentam a casa da família cientes da situação.

No entanto, nem todas as histórias de mães que se descobrem lésbicas e precisam, em algum momento, revelar isso à família, têm um tom leve como esta. É o caso de Constância Chagas*,empresária de Campina Grande (PB). Ela namora há cerca de dois anos com uma mulher e, quando iniciou essa relação, resolveu se separar do marido, com quem era casada há 18 anos. “Ele reagiu muito mal, foi até parar no hospital”, diz.

O filho, que estava com 15 anos, passava férias na casa da avó materna e recebeu a notícia do pai. “Fui pra a casa da minha mãe decidida a contar tudo para Carlos*, mas meu ex-marido já tinha falado de uma maneira desamorosa e sem respeito”, lembra.

Quando Constância chegou à casa de sua mãe, Carlos estava bêbado, havia tomado vinho e estava bastante revoltado. “Então, sentei, coloquei a cabeça dele no meu colo e conversamso como pessoas que se amam e se respeitam.” De acordo com Constância, Carlos estava dividido entre amor e perdas. “Tudo poderia ter sido mais suave se o pai dele não fosse tão ressentido. Ele tento fazer com que Carlos me odiasse o tempo todo. No final, meu ex-marido se transformou de um homem bom em uma pessoa cheia de ódio e vingança.”

Constância acredita que Carlos compreendeu a necessidade da separação, mas ainda sente-se traído pela homossexualidade da mãe. “Ele já chegou a pedir para eu me conter e fazer de conta que não sou assim, e para eu me casar com outro homem.”

Em direção à abertura
Para a terapeuta Ângela Elizete Herrera, membro-titular da Associação Paulista de Terapia Familiar e sócia da empresa Vínculovida, os filhos podem ter reações diversas que vão desde revolta, agressividade e sentimento de traição até vergonha e medo do que vai acontecer, de enfrentar o desconhecido.

“Para os filhos, os pais são idealizados a partir de modelos que eles (os filhos) se identificam”, comenta ela. Paulo Souza, coordenador do site Netfamília, reforça a observação e acrescenta que é impossível estabelecer uma previsão a respeito de sofrimentos e dificuldades. “As reações dependem de configurações pessoais, familiares e sociais nas quais o indivíduo está inserido.”

Cris corrobora as observações dos terapeutas. “Eu diria que tudo depende do como os filhos foram criados e aconselho contar a verdade, pois nada compensa mais do quer que você é.”

O primeiro passo para os pais que estão na fase de assumir-se homossexuais perante os filhos é orientar-se com amigos ou com uma rede de pessoas que já viveram esta situação. “Procure descobrir se está situação não está deixando você, muito inseguro ou com medo de perder o afeto dos seus filhos e avalie como está o seu próprio preconceito com relação à homossexualidade”, diz Ângela.

Ela comenta ainda que reações como a de Carlos são naturais. Os filhos sentem como se fosse uma traição por conta do preconceito social. A partir do momento em que ele passa a ser filho de um homossexual, ele é visto como ‘anormal’ pela sociedade, uma vez que vive num padrão que não corresponde ao “ideal”.

Por isso, é indicado que, dependendo do caso, os filhos também procurem ajuda. “Carlos está considerando a possibilidade de ir a um terapeuta, o que eu acho ótimo.”, comenta Constância.

As piadinhas na escola
Há cerca de dois anos, a professora de Bia pediu uma reunião com Cris. Ela lembra que a professora estava nervosa e, de cara, já começou a justificar que não sabia o que tinha acontecido, mas que as crianças vêem muita coisa na televisão.

“Então, ela, que ainda desconhecia minha situação , mostrou a agenda escolar da Bia, com uma desenho de duas mulheres se beijando.” Cris explicou para a professora a situação. As duas conversaram longamente e a professora confessou que sua irmã também era homossexual.

Os pais dos coleguinhas de Fernando e Bia, que hoje têm 11 e 9 anos, participam das festinhas de aniversário junto com seus filhos, cientes da situação. “Os professores também sabem e todos encaram isso com muita naturalidade.”

Mesmo assim, a escola é um terreno perigoso para esse tipo de assunto, bem como qualquer outro tema que ainda esteja impregnado de preconceito da sociedade. Por isso, é importante que os pais estejam seguros de si, eles precisam transmitir essa segurança aos filhos.

É indicado que os pais procurem a escola e ajude a professora ou diretora da escola para trabalhar tal situação juntos aos alunos, com a finalidade de minimizar ou eliminar situações de preconceito.

Histórias de descobertas
Cris considera que sempre foi lésbica, desde que nasceu. Mas foi só com 25 anos, quando ficou com a primeira mulher, que assumiu para ela mesma. “Essa mulher me paquerou no banheiro de um shopping de Salvador, onde eu morava na época, e me entregou um cartão profissional”, lembra.

Ela ficou três meses olhando para o cartão até que resolveu ligar e se encontrar com essa mulher. “Tivemos uma ‘amizade colorida’, porque ela queria algo sério e eu achava que era um grande passo para mim na época”, comenta. “Mas reconheci quanto tempo eu tinha perdido na vida.”

Cris não contou para ninguém porque todas as suas amigas eram hétero e casadas. “Foi só quando conheci minha atual mulher que resolvi abrir para todos.” Para ela, a separação não foi tão dolorosa porque já não compartilhava a vida com seu marido há muitos anos e ele era bastante ausente. Eles se mantinham casados por conta das crianças, mas já nem dormiam mais na mesma cama.

Já Constância sofreu bastante, não só por todas as dificuldades que as atitudes do ex-marido impuseram, como pelo fato de ela gostar dele como pessoa. “Ele era um homem muito bom e gostava muito de mim, mas eu simplesmente não gostava de homens.” Ela conseguiu assumir depois de fazer três anos de terapia.

“Decidi procurar um profissional quando não agüentei mais transar com lágrimas nos olhos”, diz. “Meu ex-marido acha que foi a terapeuta que me convenceu a ser homossexual.”

Constância acredita que a culpa incutida pelas religiões que ela seguiu – passou de católica a uma fervorosa Testemunha de Jeová – dificultaram o processo de “sair do armário”. “Nessas condições, tive paixões secretas e sofridas por ‘irmãs de fé’. Confesso que não compreendia nada do que sentia e chamava isso de ‘amizade cristã’, sem nenhum senso de malícia.” Nessa luta contra o “mal”, forçou-se a gostar do sexo oposto e casou-se. “Somente depois q fiz terapia é compreendi os meus sentimentos conturbados.”

Seu ex-marido casou-se novamente dois meses depois da separação. Hoje, ela o vê com tristeza, mas reconhece que não pode fazer muito para reparar o passado. “Eu não poderia mais continuar enganando a mim mesma, a ele e ao meu filho. Sou mais feliz assim. Todos somos mais felizes assim.”

Dicas
– Assumir é certamente mais indicado do que o segredo. As crianças devem receber explicações na medida de sua curiosidade e não um relato da vida conjugal.
– Avalie sua própria posição acerca de sua condição, se existe medo, insegurança ou até preconceitos. Esses sentimentos só vão atrapalhar na hora de se posicionar perante a família.
– Procure associações e grupos de pessoas que estejam passando pela mesma situação, tanto para os pais quanto para os filhos.
– Procure um profissional para ajudar a família a lidar com a nova configuração.
– Esteja aberta a tirar dúvidas de seus filhos e de ouvir o que eles têm a dizer.
– Não sucumba a pressões psicológicas dos filhos, você continua sendo a mãe e eles continuam precisando de limites e regras.
– A reação do parceiro é importante nesse momento. Se for negativa, ela pode atrapalhar bastante um processo que, por si, já é complicado. Isso vai depender do grau de amadurecimento emocional de ambos, das circunstâncias da separação e da condução do processo.
– Mantenha um canal de comunicação aberto com todos para um melhor enfrentamento das dificuldades.
– Se o parceiro iniciar uma “campanha” contra você, não entre na dele. Isso com certeza só será prejudicial aos filhos.

Filmes
Minha Mãe Gosta de Mulheres (Espanha, 2002)
Dirigido por Daniela Ferrermàn
Nesta comédia, Sofia apresenta sua namorada às suas três filhas, já adultas. As moças acham difícili aceitar a aparente “reversão” da mãe, especialmente porque a namorada é uma tcheca muito mais jovem do que Sofia.

Desejo Proibido (If These Walls Could Talk 2, 2000)
Dirigido por Jane Anderson, Martha Coolidge e Anne Heche
Três histórias que têm em comum a temática lésbica. Na terceira história, dirigida pela belíssima Anne Heche, duas mulheres querem ter um filho e se deparam com as dificuldades – desde decidir quem seria o doador até a dúvida de dar à luz uma criança em um mundo cheio de preconceitos.

Sites

Mãe Homo
www.maehomo.cjb.net

Pai Gay
http://www.paigay.blogspot.com/

Inova
http://www.inovaglttb.blogspot.com/

Families Like Mine (Famílias como a Minha – em inglês)
http://www.familieslikemine.com/

Proud parenting (Algo como “ser pai com orgulho”, sendo “pai” referente a pai e mãe – em inglês)
www.proudparenting.org

Livros
“The lesbian parenting book: A guide to creating families and raising children” (tradução ao pé da letra: “O livro das mães lésbicas: um guia para criar famílias e educar crianças”). Em inglês.
Autoras: Merilee Clunis e G. Dorsey Green

“Families Like Mine: Children of Gay Parents Tell It Like It Is” (tradução ao pé da letra: “Famílias como a minha: filhos de pais gays contam como é”). Em inglês.
Autora: Abigail Garner

* Nomes trocados a pedido da entrevistada, para manter sua privacidade

O desenho que ilustra a página foi feito por Bia, 9 anos, filha da entrevistada Ana Cristina, especialmente para esta reportagem.

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