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A sombra do ciúme

14 fevereiro, 2008

Kinha fecha a cara, não importa quem esteja por perto. Sol libera toda a sua ira em forma de palavras. Carol já saiu de uma sessão de cinema no meio e deixou o namorado sozinho. Marcela respira fundo e só vai lavar a roupa suja em casa. Cada pessoa manifesta o ciúme de uma forma, mas ele é um componente quase que obrigatório nos relacionamentos, de maneira mais ou menos intensa. 

“Sinto ciúme quando acho que não estão me dando a devida atenção ou quando fico insegura dentro da relação”, afirma Kinha, 24 anos, que admite que direciona o sentimento a familiares, amigos, namoradas e, às vezes, até ficantes. Já Sol, 29 anos, não gosta quando a namorada sai de casa sem ela, se usa roupas “menos comportadas” ou se demora para atender o telefone quando ela liga. “Perdi as contas de quantas vezes briguei por causa de ciúme”, diz.

Ana Maria Fonseca Zampieri, pesquisadora, professora e doutora em psicologia clínica pela PUC-SP, autora do livro Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade, da Editora Ágora, conceitua o ciúme como a manifestação do medo de perder alguém ou um espaço importante na vida dessa pessoa e explica que se trata de um sentimento construído, que não faz parte da natureza humana.

“Os homens tinham muito medo de criar filhos de outros homens, o que acabaria com sua linhagem. As mulheres, por sua vez, tinham no homem a figura do provedor de sua prole e, portanto, não podiam arriscar que ele partisse para manter outra família.” Este tipo de padrão, segundo a pesquisadora, é perpetuado também nas relações lésbicas. Afinal, os parâmetros de relações que todos – gays ou não – têm são baseados nos relacionamentos heterossexuais, portanto é o que aprendemos e repetimos.

Ciúme em dobro?
Os casais lésbicos têm fama de serem mais ciúmentos do que outros tipos de casais. Um dos motivos é que as mulheres tendem a demonstrar mais seus sentimentos – elas são “liberadas” desde pequena a fazer isso, ao contrário dos rapazes, que “não podem chorar”. Além disso, é esperado da mulher que ela seja a pessoa que cuida do casamento, que fica de olho no homem. “De novo, esse comportamento é aprendido e se repete, mesmo nas relações homossexuais”, comenta Ana Zampieri.

As relações entre mulheres têm ainda um fator agravante que é a própria dificuldade de se expor e a impossibilidade de se assumir totalmente, muitas vezes. “Como o relacionamento não é legitimado, não há uma consolidação desta família pelo patrimônio como há no casal heterossexual, e isso pode causar insegurança”, diz a psicóloga.

Ela também alerta para uma questão que tem surgido com a maternidade em casais lésbicos. “Quando uma delas deseja ser mãe e engravidar, elas precisam de uma terceira pessoa para que a gravidez ocorra. Isso pode gerar ciúme também, mesmo que seja feita uma inseminação artificial.”

Ela cita como exemplo um dos capítulos do filme “Desejo Proibido” (If These Walls Could Talk – 2) em que duas mulheres passam por essa situação e uma delas, a que não vai ser fecundada, é convidada a apertar a seringa na sua parceira, como uma simbologia de que houve participação das duas na concepção. “Foi uma maneira que encontrou-se de evitar esse desconforto e a sensação de exclusão, que também gera o ciúme.”

Não-ciúme
Apesar de ser um sentimento que pode destruir a relação, tem gente que dá falta quando ele não se apresenta. Marcela, 24 anos, terminou um relacionamento porque demonstrava ciúme. “Minha ex namorada achava que eu não a amava. Como iria demonstrar algo que não sentia?”

Como a ex de Marcela, muitas pessoas associam o ciúme à prova de amor ou demonstração de cuidado. Não é à toa: a própria palavra “ciúme” tem raízes no termo “zelumen”, do latim, que também deu origem à palavra “zelo”. “O ciúme é fundamental pra mim, desde que não gere conflitos e nem seja doentio”, acredita Kelly, 23 anos.

Quando o ciúme desperta no outro a atenção e a valorização, ele pode ser positivo. Por exemplo, depois de muitos anos de casadas, duas mulheres podem não ver mais graça uma na outra. Mas se elas saem e notam que a outra desperta a atenção de outras pessoas, isso pode ser um componente de revalorização da relação.

No entanto, para se manter num nível saudável, esse sentimento não pode passar daí. “Se começa a existir uma fantasia de coisas que podem acontecer, isso é patológico, porque não está se trabalhando com a realidade e sim com a imaginação”, comenta Ana Zampieri.

Foi o que aconteceu com a ex-namorada de Sibele, 29 anos. “Ela é linda e sempre chamou a atenção, principalmente de homens. Eu sentia orgulho de namorar uma pessoa bonita, mas ela não era assim. Sempre quando eu encontrava alguma amiga minha, ela ficava brava achando que era um caso meu e a noite acabava em briga.” É quando o ciúme lança sua flecha preta, como diz a música de Caetano Veloso.
 

Curtas
“Tento sempre verificar se o ciúme tem algum fundamento. Se não for algo criado pela minha fértil imaginação, converso com a outra pessoa.” – Marcela, ciúme controlado ao máximo

“Invento qualquer motivo para disfarçar o meu ciúme, dou um jeito de ficar parecendo outro motivo, e se não colar, digo que é zelo.” – Carol, 38 anos, ciúme “7.0 na Escala Richter”

“Eu era adolescente e minha professora de educação física do colégio era casada com um dentista lindo de morrer. Em uma festa solene no clube da cidade, uma garota deu mole para o cara. A professora, que era toda elegante, atravessou o salão com passos largos, chegou na mesa da garota, meteu a mão na cara dela, virou a mesa, derramou bebida na garota, pintou o sete. Cena de ciúmes, na minha cidade, ficou conhecida pelo nome desta senhora depois disso.” – Carol

“Tenho um amigo que tem um ciúme doente mesmo. Ele disse uma vez que preferia que a filha fosse lésbica ou freira, porque nunca quer imaginar outro homem com ela. A namorada dele sofre muito com o ciúme dele, do tipo ceninhas pesadas, censura de roupas, amigos, lugares.” – Kelly, considera-se longe das “ciumentas anônimas”

Para saber mais

Livros
Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade
Ana Maria Fonseca Zampieri
Editora Ágora

Ensaios sobre o Amor e a Solidão
Flavio Gikovate
MG Editores

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