Skip to content

De mala e cuia

28 fevereiro, 2008

A comediante Ellen DeGeneres conheceu a atriz Anne Heche numa das enormes e chiquíssimas festas de Hollywood. Anne foi para a casa de Ellen na mesma noite, as duas passaram 17 horas transando e, no dia seguinte, Ellen disse a Anne que a amava. Casaram-se e ficaram juntas durante três anos e meio, até 2000.

O relato está no documentário “Como Ellen DeGeneres saiu do armário” (“The Real Ellen Story”, 1997) e mostra a rapidez nos relacionamentos lésbicos, encarada como “normal” por quem está familiarizado com eles – existe até a piadinha que diz que uma lésbica sempre leva um caminhão de mudança no segundo encontro. E foi quase o que aconteceu no namoro de Renata, 32 anos, engenheira de Vitória (ES).

Antes de completar o primeiro mês de relacionamento com sua atual namorada, as duas já pensavam em viver juntas. “Acho essa intensidade maravilhosa. Já fui casada com um homem de quem não sentia ciúmes, sempre fui muito travada, segurava meus sentimentos e desejos. Com ela é tudo diferente”, afirma.

Essa intensidade, uma quase necessidade de estar perto o dia inteiro, todos os dias, tem várias explicações. A primeira é que mulheres – principalmente nas sociedades machistas, como a latino-americana – são incentivadas desde pequenas a criar laços de dependência (inclusive afetiva) com outras pessoas. Outra explicação seria biológica e estaria relacionada ao desejo de maternidade. As mulheres também confundem os tipos de relacionamentos. “Os homens não namoram suas amantes, mas é muito comum que as mulheres se envolvam de cara”, explica a terapeuta e escritora mexicana Marina Castañeda, autora de O Machismo Invisível, A Experiência Homossexual, e La Nueva Homossexualidad (ainda sem tradução para o português).

A terapeuta alerta para uma tendência de fusão que as mulheres têm. “Elas passam a viver como se fossem uma única pessoa, fazem tudo juntas, falam igual e chegam a compartilhar roupas e acessórios”, relata. Outra confusão que pode acontecer é uma inversão de papéis. Segundo Castañeda, em muitos casais lésbicos, uma das mulheres assume o papel de mãe e outra, o papel de filha. Para ela, nenhuma dessas tendências são positivas, pois acarretam na perda da individualidade das duas, o que leva o relacionamento a ficar sufocante.

Mada, 18 anos, estudante de Brasília (DF), passou pela experiência de se sentir sem ar. Ela conheceu uma garota em uma boate GLS que, no segundo encontro, já falava em namorar. “Uma boate não é um lugar para se procurar relacionamento sério, o problema é que ela não sabia disso”, opina ela. “Achei que estava rápido demais, mas me deixei levar, porque quando a gente está na empolgação inicial, não repara em nada”.

O relacionamento de Mada também terminou porque as duas não tinham muito a ver. Castañeda diz que isso é comum porque o envolvimento entre mulheres, muitas vezes, é prematuro. “Elas são educadas a pensar que o sexo pelo sexo é uma coisa feia e tendem a embalar tudo em amor. No momento em que a atração acaba, não sobra mais nada”, comenta.

Não se trata aqui de traçar um estereótipo, uma regra, mesmo porque existem relacionamentos que começam com a loucura da paixão e duram muito tempo. Basta lembrar que Ellen e Anne ficaram juntas por três anos e meio – improvável se considerarmos as circunstâncias em que tudo começou. E existem aqueles que começam devagar e desaceleram tanto que deixam de existir. Mas é importante fazer uma reflexão a respeito das relações para que não se deixe levar apenas pelo entusiasmo e não se perca de si mesma.

Para saber mais

Livro
A Experiência Homossexual
Marina Castañeda
Editora A Girafa

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: