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Minha parte eu quero em respeito

8 março, 2008

Em homenagem ao dia internacional da mulher, a emissora de rádio BandNews apresentou ontem um especial, entrevistando especialistas a respeito de temas sobre e para o público feminino. No entanto, por trás da homenagem, havia um ranço do preconceito contra as mulheres. Uma das entrevistadas – não lembro seu nome agora – afirmava que existem muitas mulheres no cargo de direção das empresas, mas que muitas delas desistiam das pressões das grandes corporações porque queriam dedicar mais tempo à família e aos filhos e acabavam indo para empresas menores, onde podiam dividir melhor seu tempo.

Realmente, algumas mulheres devem ter essa vontade de dividir seu tempo entre trabalho e família, sentem falta do convívio com os filhos. Mas por que diabos essas tarefas não podem ser divididas com os homens? Quando se entrevista homens, ninguém pergunta se ele divide a tarefa de educar e cuidar dos filhos com sua mulher, porque espera-se que ela esteja, primordialmente, tomando conta das atividades que dizem respeito ao lar.

Acredito que muitas mulheres acabam optando por empresas menores e tendo que dividir seu tempo simplesmente porque os maridos não fazem isso. Eles não foram educados e não são cobrados por isso como elas são – não justifica a situação, mas explica. Logo, a colocação da especialista entrevistada foi bastante preconceituosa e limitada.

O dia internacional da mulher foi criado não só para celebrar as conquistas das mulheres na sociedade – como a participação da vida social, política, econômica e acadêmica em vários países -, mas também para lembrar que ainda existe um longo caminho a ser percorrido em direção à igualdade entre homens e mulheres. No entanto, as pessoas celebram, muitas vezes, apenas a primeira parte (quando elas sabem porque existe a data). Os homens dão flores para as mulheres com as quais convivem. As empresas fazem programações especiais e dão presentes às funcionárias. Em todas as mídias existem homenagens de fabricantes, agências de publicidade, prestadoras de serviço – principalmente aquelas que trabalham com o público feminino.

North Country

North Country, filme com a lindíssima Charlize que mostra uma trabalhadora de uma mina que é estuprada porque os seus colegas acham que tudo bem, que ela ta la pra isso mesmo…

Pouca gente, no entanto, se lembra da segunda parte. Dos direitos que ainda devem ser conquistados e das condições que devem ser melhoradas. As mulheres chegaram ao mercado de trabalho, mas continuam ganhando menos que os homens para exercer a mesma função. De acordo com a Fundação Seade, essa diferença é de 5%, em média, no Estado de São Paulo. A instituição também menciona a discriminação ocupacional – ou seja, o difícil acesso das mulheres a posições mais altas e de maior remuneração. A Organização Internacional do Trabalho estabelece que apenas 3% dos altos cargos nas corporações são ocupados por mulheres. A igualdade só deve acontecer daqui a 470 anos, segundo prognóstico da OIT.

No ano passado, na mesma data, a diretora executiva do Unicef, Ann M. Veneman, afirmou que “apesar dos progressos, continuamos a viver em um mundo onde milhões de meninas continuam excluídas da escola, exploradas no trabalho precoce, são traficadas, estão especialmente vulneráveis ao HIV/aids e são alvo da violência sexual”.
Além disso, vivemos num mundo em que:

– há mulheres que apanham de seus maridos e têm vergonha ou medo de denunciar. Quando elas resolvem fazê-lo, são ridicularizadas por policiais mal-preparados.

– muitas mulheres engolem as traições de seus maridos porque se sentem culpadas ou acham que isso é natural ou têm vergonha de contar isso para outras pessoas ou são cheias de medo de se impor e pedir o divórcio.

– existem países, como o Marrocos, a Índia ou mesmo o Brasil, em muitas cidades, em que as mulheres devem ficar trancafiadas dentro de casa. Aquelas que desafiam essas regras sofrem represálias.

– as garotas não podem simplesmente sair pra dançar que sempre tem um mala no pé delas, achando que elas têm obrigação de ficar com alguém naquela noite.

– meninas são estupradas e abusadas, muitas vezes dentro de suas próprias casas, e mantêm esse segredo por medo, vergonha ou culpa

– em alguns países da África, mulheres têm seus clitóris cortados para evitar que sintam prazer (para isso, os homens sabem onde fica o clitóris)

– mulheres são contaminadas pelo HIV por seus maridos, que têm relações sem proteção fora do casamento (duplo desrespeito)

– mulheres são obrigadas a não trabalhar porque seus maridos querem que elas fiquem em casa

– existem academias de ginástica só para mulheres porque os idiotas dos maridos não querem que elas vão para as academias convencionais por ciúmes dos professores e colegas da sala de musculação (esses maridos não conhecem a teoria do convento e da penitenciária feminina…)

Por essas e por outras, poupem-me dos parabéns no dia de hoje. Quero minha parte em respeito.

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