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O lado colorido de Salt Lake City

2 abril, 2008

Alguns a conhecem como a sede da Igreja Mórmon, outros elegeram-na como um dos melhores lugares do mundo para esquiar. Descrita assim, Salt Lake City não promete muito mais do que um bom destino para “famílias de fino trato” que desejam buscar um pouco de espiritualidade ou esportes de inverno.

Mas a cidade, que tem 500 mil habitantes e está incruada no meio das Montanhas Rochosas, conta uma comunidade gay que, embora ainda tímida, é bastante atuante social e politicamente. O que pode ser ainda mais surpreendente considerando-se que é a capital do estado norte-americano de Utah, um dos mais conservadores daquele país.

Curiosa sobre essa aparente contradição e de viagem marcada para a cidade para participar de um congresso, montei minha programação paralela para conhecer um pouco sobre o lado colorido de um local em que as casas e os prédios são, predominantemente, em tons de marrom e bege.

O primeiro lugar que quis visitar foi o Utah Pride Center, que fica há algumas quadras do templo Mórmon. Foi fácil saber que eu tinha chegado – em um quarteirão cheio de casinhas daquelas que vemos nos filmes da Sessão da Tarde e havia uma que tinha hasteadas do lado de fora três bandeiras de arco-íris.

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Cafe Marmalade, no Utah Pride Center

Na parte da frente, fica o Cafe Marmalade, um simpático estabelecimento decorado num estilo vintage, que serve café da manhã, almoço e petiscos e funciona das 7 da manhã às 10 da noite (ou até a meia-noite às sextas e sábados). Quando cheguei lá, numa manhã gelada de quarta-feira, havia dois rapazes usando dois dos três computadores com acesso à internet (o uso é gratuito), mais um sentado no sofá que fica próximo ao balcão, mais para os fundos da loja, folheando um livro e tomando um café, e um casal de mulheres que deviam ter já os seus 50 anos.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a estante de livros. Eles têm uma biblioteca com cerca de 400 títulos temáticos – desde os básicos títulos “como sair do armário” até narrativas de autores japoneses. Além disso, encontrei na mesinha de canto, ao lado do sofá onde estava o garoto do café, várias edições da Curve, da Advocate, além de periódicos locais como o Queer Salt Lake.

Depois de tentar escolher um único título para ler – sem sucesso, tamanho era o meu entusiasmo – decidi perguntar ao atendente onde ficava o escritório do Utah Pride Center. Ele apontou uma porta ao lado do balcão que dava para um corredor nos fundos da casa. Subi uma escada e lá encontrei uma sala com umas cinco mesas com computadores e toda a parafernália de escritório, além de duas salas de reunião.

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Fica difícil escolher um livro entre os 400 títulos temáticos da biblioteca do UPC

Havia duas moças na sala, mas elas não me notaram até que eu soltasse um “oi!”. A que estava do lado direito logo respondeu um “oi! no que eu posso te ajudar?” Expliquei a Jennifer Nuttall, diretora do programa de adultos do centro, o propósito da minha visita e ela me conduziu até uma das salas de reunião.

“O que você quer saber?”, perguntou. A primeira curiosidade que eu gostaria de satisfazer era saber como era a convivência com os Mórmons. “Olha, tem uma coisa boa sobre os Mórmons: eles não são do tipo que vem buscar confronto direto. Não vêm fazer protestos e nem nos agridem. Talvez eles tenham mecanismos políticos de negociar o que eles acham certo, mas não existe confronto.”

Ela disse ainda que o fato de ser um local mais conservador, onde as pessoas muitas vezes não se sentiam à vontade com sua orientação sexual é o que fortalece o senso de comunidade. “Temos que saber quem são os amigos”, ri.

O Utah Pride Center é um centro de referência que funciona desde 1992 com o subsídio de patrocínios e doações. O local oferece todo o tipo de suporte para os homossexuais, desde o auto-reconhecimento como GLBT até o matrimônio e questões legais. Entre as atividades diárias estão grupos de apoio, grupos de afinidades (como as latinas lésbicas e o fórum para bissexuais), suporte para familiares, debates, palestras e iniciativas culturais. O centro também é responsável pela Parada Gay local, que reuniu 15 mil pessoas em 2007 – 3% da população local.

Sai de lá carregando dezenas de folhetos – até de uma empresa especializada em organizar cerimônias matrimoniais para gays (quem sabe, um dia?) – e caminhei uns 20 minutos até o prédio onde funciona o Equality Utah.

Quem me atendeu foi Lauren, que explicou que, se o Utah Pride tem atividades mais voltadas para o lado sócio-comportamental, esta instituição é bastante focada nas questões políticas. Suas principais preocupações são a educação e o apoio a políticos GLBT ou que tenham uma agenda voltada às necessidades da comunidade.

Lauren me explicou que a instituição tem trabalhado fortemente na conscientização da comunidade a respeito da importância do voto (uma vez que nos EUA o voto não é obrigatório) e de um posicionamento crítico em relação ao trabalho dos políticos. Além disso, a própria instituição tem como uma de suas missões cobrar os políticos sobre temas importantes para a comunidade e fazer pressão contra leis que sejam negativas.

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Participante da Parada Gay de Salt Lake City, em 2007 (foto do site oneutah.org)

Fundado em 2001, o Equality Center, assim como o Utah Pride Center, tem um programa de afiliação e de patrocínio que garante os recursos financeiros necessários.

No fim da conversa com Lauren, perguntei de baladas gays. Ela citou a Paper Moon e a Mo`Diggity`s, os bares da cidade dedicados ao público gay feminino e sobre os quais eu já havia lido. Questionei então se ela ia em algum deles. “Não, sou casada e feliz, então não saio muito.” Ops, deve ter soado como uma cantada, pensei. “Não, o que eu quero dizer com isso é se você recomenda algum.”

Ela pensou um pouco e disse que talvez o Mo`Diggity`s, que, segundo ela, era mais limpo e tinha um pessoal mais aberto. “No Paper Moon, tem os clubinhos já e as garotas fazem muito drama.” Devo ter feito uma cara de desânimo e ela logo lançou a avaliação final: “olha, se você quer dançar, a Paper Moon é legal de sexta. Mas se for só para tomar uma cerveja, definitivamente a Mo`Diggity`s.”

Aquela seria minha última noite em Salt Lake City e os dois locais ficavam a 2 quilômetros do meu hotel – uma distância que eu poderia cobrir caminhando, não fosse a temperatura abaixo de zero daquele fim de inverno. Além disso, quase não há taxis circulando na cidade – principalmente depois das dez -, o que seria um problema na hora da volta. Principalmente estando sozinha.

Resolvi tomar uma Bud no pub que ficava na esquina do hotel. Mas se for a Salt Lake, a dica está dada: Mo`Diggity`s pra beber, Paper Moon pra dançar e Café Marmalade pra alimentar o corpo e as idéias.

PS: Existem outras diversas instituições voltadas à comunidade GLTB de Salt Lake City, como os motoqueiros gays e a LDS Reconciliation, que visa a acolher os Mórmons gays. Se tiver curiosidade, o site do Equality Utah conta com uma lista.

4 Comentários leave one →
  1. Té Pazzarotto permalink
    3 abril, 2008 12:02 am

    uma super viagem, heim tata?!

  2. Aranel permalink
    6 abril, 2008 3:22 pm

    Malas devidamente feitas! Estou de partida! Excelentes dicas, Marina, e belas imagens também =)))

  3. Priscilla permalink
    9 janeiro, 2009 2:41 pm

    Olá, gostaria de saber mais sobre Salt Lake, gostaria de morar lá, mas sem nenhuma razão espiritual muito menos racional… mas enfim, vc que viajou o que poderia me dizer do lugar? que tipo de empresas tem la?
    Grande abraço…

  4. 20 agosto, 2009 2:46 pm

    seria bem legal Marina se você contasse, sobre os pontos turisticos de lá, dizem que é bem legal! tipo… as atrações turisticas do lago salgado!

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