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Trabalho: a última porta do armário

17 abril, 2008

O ambiente de trabalho talvez seja o local mais difícil de abrir as portas do armário. Juntando na mesma panela uma sociedade preconceituosa e um mercado no qual todo mundo quer se dar bem, assumir-se pode custar a carreira – especialmente em setores como o metalúrgico e o da construção civil.

Algumas empresas, no entanto, vêm tomando iniciativas na última década visando a apoiar gays e lésbicas. IBM, Microsoft, HSBC, Petrobras e Accenture são algumas pessoas jurídicas que adotaram posturas inclusiva, como permitir a inclusão de parceiros do mesmo sexo no plano de saúde e a criação de grupos de afinidades para apoiar homossexuais.

Na Petrobras, por exemplo, desde o fim do ano passado os funcionários em uniões homoafetivas podem incluir seus parceiros assistência de saúde e seu plano de previdência. De acordo com Eduardo Medrado, coordenador de ambiência da companhia, 50 pessoas aderiram ao programa até agora. “O principal desafio para a companhia está representado pela mudança cultural que a medida sugere”, afirma ele.

A companhia atua num setor em que os homossexuais ainda são estranhos no ninho. Por isso, Medrado considera que o principal desafio está na mudança cultural da iniciativa. “Isto significa desenvolver uma cultura de respeito às diferentes orientações afetivo-sexuais de seus colaboradores, o que percebemos como um processo”, complementa.

Apesar das atitudes modernas, as companhias ainda encontram dificuldade em elas mesmas assumirem sua postura. A IBM, por exemplo, possui um programa de inclusão desde 1996 nos EUA. No Brasil, este programa chegou há cerca de cinco anos. Mesmo assim, o responsável não foi encontrado para dar entrevista. Segundo a assessoria de imprensa, a agenda do executivo estava muito complicada nos dois meses em que foi tentado o contato.

A Accenture disse que todos os executivos que poderiam falar sobre isso estavam de férias e, no HSBC, “o assunto ainda é muito novo e talvez o responsável não se sinta confortável em falar”, segundo a assessoria de imprensa. Essa postura demonstra que, apesar de implementar programas de inclusão, as empresas (no Brasil) e os próprios responsáveis pelas iniciativas ainda têm dificuldade de comentar abertamente sobre sua postura “friendly”.

E quanto mais alto o escalão dos executivos, menos essa postura aberta consegue se sustentar. Em entrevista ao site GLX, Soraya Bittencourt, ex-funcionária da Microsoft assumidamente lésbica, conta que há uma discriminação velada. ou seja, na hora de conseguir promoçÕes, homens heterossexuais tinham a preferência sobre homens gays, que geralmente eram preferidos a mulheres hetero, que conseguiam subir mais fácil do que mulheres lésbicas.

A psicóloga mexicana Marina Castañeda, autora de dois livros sobre homossexualidade, explica que o interesse das empresas em adotar políticas voltadas à diversidade visam a ganhar a atenção e a preferência do público gay. “Uma fatia importante desse mercado, especialmente os homens, possui um nível cultural mais alto, consomem mais e têm uma renda alta, sem geralmente filhos para sustentar”, comenta.

Ela lembra ainda que essas iniciativas são positivas para os gays, uma vez que em muitos países, como o México e o Brasil, os direitos civis dos gays ainda estão em fase embrionária. “Um gay que é funcionário da IBM no México tem mais direitos como membro daquela empresa do que como cidadão mexicano”, exemplifica.

As corporações têm tomado a dianteira no apoio às questões de diversidade por diversos motivos – majoritariamente aqueles ligados direta ou indiretamente a retornos financeiros. A atitude é positiva porque abre espaço para discussões na sociedade e estimula outras esferas a adotarem esse tipo de postura. Mas mostra uma face que pode ser negativa – o enfraquecimento do Estado perante as corporações no que diz respeito aos direitos humanos. Para que os gays – e outras minorias – tenham garantias plenas a seus direitos, independente do local onde trabalhem, é necessário que os governos tomem essa dianteira.
 
PARA SABER MAIS:

La nueva homossexualidad
, de Marina Castañeda
Ainda sem tradução em português, o livro trás um capítulo dedicado às mudanças do mercado em relação aos gays. Pode ser comprado na Amazon.com ou pelo site da autora, marinacastaneda.com.

Blog: Direitos homoafetivos
A advogada Alessandra Campos debate temas relacionados à disciplina e oferece esclarecimentos aos internautas. http://direitoshomoafetivos.blogspot.com/ 

Reportagens sobre Soraya Bittencourt
http://www.glx.com.br/glx.php?artid=62

http://epocanegocios.globo.com/Revista/Epocanegocios/0,,EDG80377-8379-10-3,00-HISTORIAS+DE+UMA+BRASILEIRA+ATREVIDA.html

 

12 Comentários leave one →
  1. Kellen permalink
    17 abril, 2008 11:07 am

    Ih Aranel,é verdade….é tão dificil um emprego aqui no Brasil que aceita e trata em iguais condições os homossexuais.
    Bom,onde eu trabalho existem muitossss gays…e o gestor é um gay! Entao é gostoso de trabalhar! ^^

  2. Bruna permalink
    17 abril, 2008 6:39 pm

    matéria muito boa! 😀 lendo o final, lembrei de algo complementar. em 2004, o hoje editor da superinteressante, sergio gwercman, fez uma capa sensacional sobre casamento gay, a melhor abordagem do tema que eu li até hoje (e ganhou prêmio da associação glbt de sp). tá aqui:

    http://super.abril.com.br/superarquivo/2004/conteudo_125201.shtml

    em dado ponto da matéria, ao discutir a união civil, a reflexão é a seguinte: nenhum político daria apoio a essa lei porque, depois, como ele se explicaria ao eleitorado? na justiça, porém, muitos gays conseguem fazer valer seus direitos, já que a função primordial do direito é garantir tratamento igual a todos. assim, a esfera judicial supriria a ausência de um estado que, para manter as aparências, insiste em manter a desigualdade de tratamento a casais gays em questões como benefícios, heranças e guarda de crianças.

    mesmo sendo democrático (ou justamente por que é), é difícil que um estado conservador e católico como o brasileiro não se comporte dessa maneira que você denomina “ausente”, já que depende de votos obrigatórios para se manter. não sei se devemos esperar dele uma iniciativa (bem, eu já não acredito no estado há tempos). o mercado e os tribunais têm mais chance de sair na dianteira…

  3. 17 abril, 2008 9:34 pm

    Olá!!
    Amei o blog!
    Lindo, intenso e delicado ao mesmo tempo!
    Vou linkar o quanto antes!
    Adorei a brincadeira e vou continuar!!
    Só que amanhã.
    Acabei de receber meu PC reformatado. Tenho que começar do zero! Sabe como é, né?
    Meu processador babou!
    Enfim….ces’t la vie!
    Muitos beijos!

  4. Julia permalink
    18 abril, 2008 12:28 pm

    “nenhum político daria apoio a essa lei porque, depois, como ele se explicaria ao eleitorado?”. Pera lá! Tudo bem, pode ser meio utópico da minha parte, mas eu acho que o ‘eleitorado’ deveria ver de forma positiva um político ‘moderno’ o suficiente pra bancar uma iniciativa dessas. Se a nova geração, o pessoal dos 30 pra baixo, não valorizar esse tipo de postura, realmente será impossível conseguirmos alguma evolução contra o preconceito…
    Além disso, o Estado não pode ser católico. O Estado é laico e não pode (ou não deveria) seguir as leis religiosas para fazer as suas próprias…
    Só para causar…

  5. Bruna permalink
    18 abril, 2008 3:35 pm

    oi, julia, também espero (e como!) que um dia o eleitor escolha políticos assim! e voto por isso. enquanto isso, só para ficar em sp, temos um que elege deputados federais como maluf, enéas, valdemar da costa neto, devanir ribeiro e vota no alckmin. o estado brasileiro, apesar de declaradamente laico, é regido por leis feitas por políticos que são, em sua maioria, católicos. e muito conservadores. saindo de sp, tente imaginar os atuais presidentes da república, da câmara e do senado aprovando o casamento gay. cola? 😉 talvez não hoje, mas… “you may say i’m a dreamer, but i’m not the only one”.

  6. Julia permalink
    18 abril, 2008 6:01 pm

    Hehe
    Concordo com tudo isso Bruna. Mas quis provocar. Afinal, minha opinião é que nós jamais podemos agir como se achássemos normal.
    Não aceitar jamais.

    beijos

  7. 19 abril, 2008 3:31 pm

    Meninas, alguém que já morreu escreveu uma máxima sobre o povo e seus governantes: “O Governo é o reflexo do Povo”.

    Será que deveremos pertencer a qualquer grupo minoritário para querermos governantes diferentes? Mais, digamos, conscientes das diferenças existentes no povo que eles governarão?

    Beijão!

  8. Té Pazzarotto permalink
    20 abril, 2008 8:37 am

    Como disse no meu texto…

    Penso já ser um avanço empresas como a Petrobras terem políticas direcionadas ao público gay. Quanto ao receio em falar sobre elas, acho que uma outra postura seria excelente para “nós”, mas entendo a forma mais reservada como tratam o tema. Num país onde o próprio homossexual tem muito receio em assumir sua orientação, não é de se estranhar que empresas “friendly” também o tenham.

    Adorei, Tata =)

  9. Milene permalink
    20 abril, 2008 7:19 pm

    A Caixa Econômica Federal tb é totalmente anti-homofobia, além dos benefícios de praxe, existe um sistema de ouvidoria interna para que possamos denunciar abusos desta natureza.

  10. Marina Meirelles permalink
    20 abril, 2008 8:09 pm

    Oi, Milena,

    Obrigada pela informação!
    Sempre bom saber de iniciativas nesse sentido.
    Grande beijo!

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