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É crime!

24 abril, 2008

Por que é importante criminalizar a homofobia

 

“Este é um depoimento real.

Peguei um ônibus vazio na noite de quinta-feira no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, rumo a Ipanema.

 Na praia de Copacabana subiu outro passageiro. O trajeto foi cumprido apenas por nós dois, mais o motorista, durante todo o tempo.

Assim como havia perguntado para mim, o motorista perguntou para o outro passageiro para onde ele iria. Ele afirmou ser cambista e estar indo trabalhar em frente a uma casa de shows. Não sei exatamente como, mas o assunto “evoluiu” para Rio de Janeiro e “viados”.

– Tá cheio disso aí agora, né, irmão? Pouca vergonha cada vez mais escancarada, tudo passando Aids, tuberculose – disse o passageiro.
– Pois é, eu sou da baixada e lá não tinha isso não. Agora tem, ainda mais no Carnaval – respondeu o motorista.
– Tem em todo lugar. Viado e sapatão. Bando de vagabundo. Eu tomo minhas cachaça e como minhas puta; minha vida é assim, não é que nem a desses aí no meio da rua não. Não incomodo ninguém.
– Isso é que tá certo.

Foram 20 longuíssimos minutos, concentrada em não deixar o sangue subir e torcendo para não ser abordada.

Ao fim da jornada, pedi para saltar na Farme de Amoedo, um reconhecido point gay do Rio de Janeiro. O passageiro então dirigiu mais um comentário ao motorista:

– Esse lugar aí que você tá parando é onde eles se reúnem, bando de vagabundo, tudo sem vergonha se pegando na rua.

Já na escada para saltar, não consegui me conter:

– Nós somos gente boa, tá, não é assim não – falei, com a voz trêmula.
– Não, filha, não tenho nada contra não, deixa vagabundo fazer o que quiser.

Fora do ônibus, as mãos suando frio e o coração acelerado. Sei que podia ter falado uma centena de coisas melhores do que “somos gente boa”, mas foi o que a tensão e o medo me permitiram naquele momento.

Sem leis do nosso lado, um episódio assim é sinônimo de desamparo e absoluta apreensão. Senti, pela primeira vez, um medo real de ser fisicamente agredida por conseqüência da minha orientação sexual. E, honestamente, o pavor maior é pensar em pessoas assim soltas por aí, continuando a propagar suas opiniões absurdas e alimentando preconceito, ódio e intolerância, sem qualquer instrumento legal que possa ao menos refreá-las. Cada palavra dita me atingiu como um soco, embora não diretamente direcionada a mim. E, obrigada a manter silêncio, acabei também me agredindo. Caso houvesse entrado em discussão, sabe-se lá o que poderia ter me acontecido. A única certeza é que, sem leis, a justiça jamais teria sido feita.”

______

Fonte:
Gay e OK

10 Comentários leave one →
  1. Julia permalink
    24 abril, 2008 10:10 pm

    Eu vivo esperando o dia que isso vai acontecer comigo – e tenho medo da minha reação também. Acredito que o bom senso (e o impulso da auto-proteção) falarão mais alto. Mas me entristece muito saber que “bom senso” é se esconder e torcer para não ser notada… Como se tivéssemos feito algo errado em algum momento.

  2. Té Pazzarotto permalink*
    24 abril, 2008 10:28 pm

    Devo dizer que eu não tenho muito bom senso, então…

  3. 24 abril, 2008 11:27 pm

    Uma das piores coisas pra mim é a sensação que fica depois com a gente, esse sentimento ruim de ter ficado calada, isso me corrói.
    Nessas horas eu sinto uma raiva tremenda de ter que passar por isso, por que é tão difícil aceitar a ‘diferença’ dos outros?

    Abraço,
    Renata
    http://www.oraculodelesbos.blogspot.com

  4. Marina Meirelles permalink
    25 abril, 2008 12:47 am

    Cara, se eu já sou destemperada no trânsito, imagine se eu for agredida pela orientação sexual? Nao quero pensar…

  5. 25 abril, 2008 4:39 am

    Doloroso, cortante e cruel. O relato do preconceito é o retrato frio de uma sociedade injusta e desumana. Apenas uma palavra: MUDANÇA!

    Sem maiores comentários… =////////

  6. 25 abril, 2008 2:26 pm

    Será que estas leis tentarão “resolver” os espinhos ligados à homofobia de maneira homeopática? “Primeiro, a agressão física. Depois, a agressão psicológica”.

    Só sei que só de entrar naqueles sites que as meninas postaram os links, lá no Fórum, o meu sangue já ferveu.

  7. gayeok permalink
    27 abril, 2008 11:04 am

    Agora estou fazendo boxe chinês. Qualquer coisa, pelo menos, tenho chance de me defender! Triste isso, mas é verdade…

  8. 29 abril, 2008 6:01 pm

    Ish, apesar de eu ser radicalmente contra o que esses dois caras falaram, sou a favor da liberdade de expressao. Acho que eles tem direito de falar o que quiserem. Mas se eu escutasse isso nao ficaria quieta. E eu sou hetero.
    A reacao do sujeito eh tipica. Assim que a moca abriu a boca, ele se encolheu e disse que nao tinha nada contra. Falam por falar, porque a homofobia cria uma suposta comunidade, e isso rende assunto. Mas quando conhecem um gay ou lesbica e veem que nao tem nada de “vagabundo” nisso, se calam. Por isso vejo que a melhor forma de combater a homofobia eh se assumir e nao deixar absurdos como esses passar em branco. http://www.escrevalolaescreva.blogspot.com

  9. Té Pazzarotto permalink*
    29 abril, 2008 7:57 pm

    Oi lola, acho que ninguém aqui é contra a liberdade de expressão…
    Entretanto é de conhecimento de todos (penso eu…)que ninguém sai por aí falando o que quer. Não por falta de vontade, mas porque a lei prevê certas falas como crime:

    “art 5º da Constituição Federal
    X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;”

    Ou seja, mesmo a homofobia não sendo crime, o que os dois indivíduos aí de cima fizeram é considerado crime contra a honra e gera danos morais…

    =)

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