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A Rosa

27 abril, 2008

 

Quando algo especial invade as nossas vidas, é difícil esquecer o instante em que aquilo aconteceu. De certo modo, vemo-nos aprisionados entre os momentos de descobertas que nunca se encerram e dificilmente saberemos como terminarão ou, até mesmo, como findarão as situações que advierem dessas novas descobertas. Pelo menos, não no começo da “partida”.

Possuímos uma capacidade tão poderosa de nos guiarmos pelos sentidos que podemos facilmente sucumbir frente às provocações do mundo. Aquele olhar diferente, aquela palavra dita com firmeza no tempo preciso em que não estamos tão consistentes a respeito do que temos ou sentimos. Tudo isso pode desencadear um processo absolutamente incontrolável de mudança.

Foi em uma manhã brandamente ensolarada; daquelas em que o sol se levanta preguiçoso e bonito, como se tivesse uma missão, que uma grande mudança se iniciou. Acordei determinada a provocar uma coisa e não receberia menos do que aquela pessoa poderia me dar. Eu ainda sentia a frase martelando insistentemente em minha cabeça:

– Aranel, eu não sei o que você tanto vê nas rosas… Depois de alguns dias elas murcham mesmo… ainda bem que nunca recebi.

Manuela, por vezes, assombrava-me com aquela “sensibilidade romântica” que lembrava a de um terrorista próximo a um parque de diversões. No lugar onde eu enxergava apenas beleza e simplicidade, ela demonstrava ver uma ponte entre o exageradamente inútil e uma tradição demodê (para ela) de ofertar rosas a quem se quer bem. Mas, como nem tudo que se demonstra reflete a realidade da alma, foi melhor acreditar na intuição…

Manu viajaria depois do almoço e, provavelmente, não nos veríamos por um longo período de tempo. Ela andava entristecida com o relacionamento que tinha e eu preocupada com o coração dela. Decidi-me por uma visita inesperada, com direito a uma passagem na floricultura de Roberta – um dos meus lugares favoritos.

Lembro-me de Berta me olhando sorridente enquanto eu passeava entre centenas e centenas de rosas à procura de apenas uma: a perfeita. Eu a encontrei e sabia que só poderia ser uma única rosa vermelha nua – livre de embrulho e presa em significações.

O irmão de Manu me recebeu com um abraço carinhoso e indicou o caminho do quarto. A porta estava aberta e eu a vi de costas com os cabelos caídos sobre a face de maneira encantadoramente desarrumada. Manuela parecia compenetrada demais escrevendo alguma coisa que, mais tarde, eu descobriria ser para mim. Sentindo a minha presença, ela voltou a face para o alto, fitando-me com visível incredulidade. Olhou para o que eu possuía na mão esquerda e eu pude ver ali; foi ali que ela se traiu e se entregou, porque aquele olhar diria mais que um emaranhado de mil palavras soltas.

– Aranel…

– Não fale…

Tudo mais, depois dali… pele, sentidos e sensações.

É verdade (repito): somos guiados pelo que sentimos e – sem querer, sem planejar – nós podemos ser tragados pelas provocações do mundo.

Tentados pelo perigo, somos libertados pelo descaso de alguns e aprisionados pela atenção dos outros. E seja com uma rosa, com uma palavra, ou com uma dor; a marca que se estabelece em fogo, no meio de tudo isso, não se apaga com o reacender da antiga chama que nos aquecia.

 

***

Para sugerir temas e trocar idéias, pode escrever também para aranelhaldatir@hotmail.com que terei prazer em responder. =)

Foto por: Anvica

13 Comentários leave one →
  1. Betta permalink
    27 abril, 2008 1:48 am

    Está ouvindo os aplausos?
    E os suspiros?

  2. 27 abril, 2008 10:30 am

    Mais um ótimo texto seu! e também recheado desse seu estilo…
    Eu adoro dar e receber flores… mas não gosto muito de rosas. Eu e minha namorada temos uma história com flores amarelas, e sempre tentamos relembrar isso nos nossos momentos especiais.
    Um abraço,
    Renata
    http://www.oraculodelesbos.blogspot.com

  3. 27 abril, 2008 11:01 am

    Ô Betta, muito (muito) obrigada! Você é um doce. Beijos. =]

  4. 27 abril, 2008 11:07 am

    Renata, que felicidade a minha por você ter gostado! =]]] As flores em geral tem um papel especial em minha vida também (eu adoro dar e receber rs). Tenho certeza de que a sua “história de flores” com o seu amor deve ser lindíssima. Realmente, essas coisas merecem uma lembrança mais que especial. =]]]

    Grandes Beijos, Aranel.

  5. 27 abril, 2008 5:49 pm

    UAU!!!
    Por acaso vc é romântica, Aranel?

    Beijão!

  6. Meline permalink
    28 abril, 2008 2:34 pm

    Aranel,

    Vc transmite doçura e uma sensibilidade incrível, adora ler os seus textos são maravilhosos, parabéns.

    Beijos!!!!

  7. Marina Meirelles permalink
    29 abril, 2008 7:50 am

    E o que tava escrito afinal?

  8. Greenie permalink
    1 maio, 2008 1:17 am

    Bom…
    Eu guardo até hoje algumas pétalas das rosas que algumas pessoas amadas me deram.

    E é isso mesmo, Marina! Aranel, o que tava escrito, hein, hein?

  9. 2 maio, 2008 2:02 am

    Miss Gray,

    a minha namorada acha =]]] ainda bem, já que a opinião dela possui um valor imensurável para mim.

    Beijos.

  10. 2 maio, 2008 2:06 am

    Meline,

    puxa! Fico muito feliz que os textos façam com que você se sinta bem, querida! Muito Obrigada mesmo pelo carinho!

    Grandes Beijos e saiba que é um prazer ter você por aqui comentando. =]]]]

  11. 2 maio, 2008 2:08 am

    Marina,

    que malvada…

    ahhhh… segredo. Talvez revele em algum texto futuro rs.

    Aguarda as cenas dos próximos capítulos…

    Beijocas. =]]]]

  12. 2 maio, 2008 2:15 am

    Greenie,

    também faço a mesma coisa rs… tenho “pétalas de séculos”* guardadas em livros. Uma das que mais amo foi presente do papai. =]

    Quer dizer que você e Marina se uniram no coro? Malvadas rs. Pode deixar que um dia conto de uma forma diferente.

    Beijos e beijos. =]]]]]

    * e viva a hipérbole rs.

  13. Marina Meirelles permalink
    2 maio, 2008 4:26 am

    AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH, que malvadeza essa nos deixar na curiosidade, po!!

    Mas td bem, td bem… 😉

    Bjs!

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