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Dois

4 maio, 2008

 

“Boas coisas vêm em pares”. (Provérbio chinês)

As coisas boas parecem caminhar juntas; unidas como se apenas aos pares pudessem ganhar o sentido perdido da unidade. Não seria difícil perceber isso convivendo com tantas pessoas especiais, mas me chamou atenção o modo como aquilo se mostrou para mim naquela tarde. Uma chuva calma penetrava o céu claro numa cena simplesmente encantadora. Eu olhava da minha janela para a rua, porém não foi ela quem capturou os meus sentidos e sim aquilo em que havia se tornado um amontoado de blocos de construção – um divã de bichanos.

Nunca em toda minha vida vi uma paisagem de amor tão singela. Era como se um manto de beleza rara cobrisse meus olhos para as demais coisas, porque o amor não dá espaço às visões imperfeitas, ainda que inexistisse a perfeição naquele lugar.

Um felino acarinhava o outro com uma devoção tão intensa que me fez desejar aquela simplicidade amorosa a qual, às vezes, esquecemo-nos de vivenciar. A um canto não muito distante, um outro gato observava tudo com o fascínio de quem participa sem precisar se mover. O bichano carinhoso se dirigiu então até ele, que já não estava tão só, e ofertou-lhe pacientemente o mesmo banho revigorante que dispensara ao seu outro par. O que aquilo queria dizer?

Como um sopro de vento ao pé do ouvido, eu senti sua voz quente murmurar, em resposta, algo que me fez estremecer.

– Amor, isso diz: há que se ser leve até o último vôo, e livre como os raios do sol que ultrapassam o horizonte para iluminar todo o universo além dele.

Nada permaneceria mais marcado em mim do que aquelas palavras de fogo, pronunciadas pela boca de quem amava. E a resposta só poderia ser aquela, pois somos assim: leveza e liberdade. Somos isso e um pouco mais, embora nem sempre nos lembremos dessa poderosa capacidade.

Das coisas que me deixam sonhando acordada, essas são as que me fazem flutuar sobre nuvens imaginárias de um paraíso devastador. Eu me flagro entre o tempo presente e volvo o passado que não volta, mas nunca deixará de estar lá.

***

– Ei, estou ocupada aqui… – reclamei assim que a porta de vidro se abriu.

– Ainda não, mas vai ficar. – Marcela sorriu, fechando lentamente o mundo às suas costas.

– Sabia que havia me esquecido de trancar a porta do meu quarto, – comentei mais comigo mesma do que com ela.

– Foi a primeira coisa que eu fiz quando entrei… – Marce me respondeu num tom desafiador enquanto avançava em direção à água. – Hora de você fazer o que faz de melhor.

– O quê?

– Amar.

– Pensei que você não me pediria mais nada hoje…

– Meia noite e um, Aranel. Estamos em outro dia já…

Havia me prometido não mais ceder as investidas da Marce, mas estávamos em um outro dia de um outro tempo e algumas regras antigas já não se aplicavam mais, porque nós próprias éramos a personificação da metamorfose. Criamos certas normas apenas para termos o prazer imensurável de quebrá-las depois; rompendo-as quando não mais persistem razões para que continuem a existir.

O tempo passa, a capacidade inesgotável de amar permanece e haverá quem questione:

– Por que as coisas que começam tão bem, às vezes, encerram-se tão mal?

Essa indagação nem Woody Allen respondeu. Mas, se “todos dizem eu te amo” mesmo, por que nos preocuparmos agora? Prefira a simplicidade das lambidas felinas ao cair da tarde; prefira o toque aveludado de uma língua quente pairando sobre o seu corpo numa guerra que só se encerra com o começo de uma batalha maior. Prefira sentir aquele sabor se misturando ao seu, pois só assim poderá atingir a fragrância única que possuímos quando amamos.

E então, você colherá o mais doce ensinamento: a profundidade dos elos não pode afastar a simplicidade das almas em sua rica dualidade. Somos tantos “eus” quantos “eus” podemos amar no outro. Eis a pitada que faz toda a diferença na hora da entrega. Somos um prisma de infinitas possibilidades que se une ao outro em um enigma muito maior. Somos um, somos dois e tudo o mais depois dele – apenas não apreendemos todos os sentidos quando somos estado, prazer e sensações. Melhor assim.

Já que muitas histórias estão a principiar, é confortante perceber que “as coisas boas vêm aos pares”. Se não tivermos a certeza de que tudo será bom, ficaremos com a convicção de que um dos lados certamente far-se-á. E, só por ele, já terá valido tudo.

***

Para sugerir temas e trocar idéias, pode escrever também para aranelhaldatir@hotmail.com que terei prazer em responder. =)

9 Comentários leave one →
  1. Té Pazzarotto permalink*
    4 maio, 2008 10:23 am

    “Somos tantos “eus” quantos “eus” podemos amar no outro. Eis a pitada que faz toda a diferença na hora da entrega. Somos um prisma de infinitas possibilidades que se une ao outro em um enigma muito maior. Somos um, somos dois e tudo o mais depois dele – apenas não apreendemos todos os sentidos quando somos estado, prazer e sensações.”

    amei! O}-`–-

  2. Aranel permalink
    4 maio, 2008 2:03 pm

    Que bom, Té! =]]]]

    Beijinhos…

  3. 4 maio, 2008 5:34 pm

    Caramba… que delicia de texto…
    isso eh mto real….

    adorei msm!

  4. 4 maio, 2008 5:56 pm

    Meninas,

    Fiz um selinho e linkei o “NPD” lá no Uva. Aliás, um link mais que merecido!

    Abraços.

  5. Aranel permalink
    4 maio, 2008 7:52 pm

    Tatiana, fico muito feliz em saber que gostou!

    Beijos.

  6. Aranel permalink
    4 maio, 2008 7:59 pm

    BF,

    recebemos essa notícia com imensa alegria! É mais que regozijante fazer parte de um rol tão seleto!

    Fortes abraços e saiba que o espaço aqui também é do “UNV”! =]]]

  7. Marina Meirelles permalink
    5 maio, 2008 12:58 am

    Dois temas para loooongas conversas:

    – As coisas boas parecem caminhar juntas

    – Por que as coisas que começam tão bem, às vezes, encerram-se tão mal?

    Loved it. Sensível, sutil, as usual. Bjos!!

  8. Marina Meirelles permalink
    5 maio, 2008 12:59 am

    BF, q fofura a sua!
    E que grande honra!!!

    Bjos!

  9. Bruninha permalink
    28 agosto, 2008 2:58 pm

    Nossa tudo de bom esse texto…
    è musica para os ouvidos…
    colirio para os olhos…
    tudo de bom mesmo…

    Adorei!!!

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