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Os sapos que as sapas engolem

13 maio, 2008

 

Fato: todo mundo engole sapos na vida. Mas existem alguns que só as sapas engolem. Fiz uma lista – pequena, porque os sapos são muitos, e em ordem é aleatória, porque não consegui estabelecer qual deles enche mais o saco.


– Mas ela não tem cara de sapatão!

Uma pessoa da empresa onde eu trabalho veio me mostrar a capa da Folha de São Paulo, que noticiava que a Ana Carolina, “ícone gay”, agora ia querer ficar com homens. A colega é uma pessoa legal, de quem eu gosto bastante, e que nem desconfia que eu sou sapa.

Ela disse “você viu isso? A Ana Carolina gosta de mulher! Eu não sabia que ela era sapatão, não tem cara…” Diante da minha expressão de “em que planeta você vive?”, duas pessoas que trabalham comigo, são minhas amigas, sabem que sou gay e estavam próximas do local, vieram em meu auxílio e explicaram pra pobre alma que a cantora sempre foi assumida e que tudo bem, etc. Com a paciência que eu não tive.

 

– O “gostosão” ou a chatonilda?

Éramos quatro garotas no carro voltando de uma happy hour de sexta-feira. As três colegas de carona trabalham comigo e conhecem minha orientação, mas com duas delas – vamos chamá-las de Heloísa e Priscila – não é algo de que eu fale com tranqüilidade. Eram pessoas em quem eu confiava quando contei, mas que se mostraram extremamente preconceituosas, até se afastando de mim depois.

Bem, elas falavam de um cara que trabalha num determinado departamento e que elas acham “gostoso”. Depois, comentaram de outros caras que haviam acabado de ficar “disponíveis” porque tinham terminado seus respectivos namoros. Diante de tanta empolgação e uma leve histeria das duas, comentei que eu não ficaria com ninguém da empresa – referindo-me implicitamente a homens e mulheres. Com um tom de sarcasmo que eu detectaria mesmo se estivesse no Alasca, Heloísa lançou “ah, mas se fosse uma menina que tivesse terminado com o namorado, você ficaria”. Elas riram, riram, e perguntaram depois se eu ficaria com o tal “gostosão” ou com a “Regina”, uma mulher feia e chata que dói.

Achei totalmente descabida essa observação, porque ela foi feita na maldade. Algo do tipo “pensa bem, é melhor ser hetero e ficar com o gostosão do que ser gay e ficar com a Regina”. Esse sapo não me desceu até agora. Não respondi nada. Ainda.

 

– Os gays tinham que lutar por uma causa de verdade

Fui fazer o trabalho de faculdade na casa de uma amiga. Ela e a mãe me receberam como princesa, prepararam comidinhas especiais, fizeram suco, bolo, superbacana. A mãe é uma mulher culta, inteligente, que sempre teve cargos de destaque , pessoa fina.

Começamos a conversar sobre algum assunto que estava mobilizando a mídia nacional e ela soltou: “por exemplo, os gays podiam aproveitar aquela parada que eles fazem na paulista pra reivindicar a igualdade social, lutar pelo fim da seca no Nordeste, causas que são realmente importantes!” Em meio a milhares de pensamentos, eu só respirei profundamente e sorri. Afinal, eu estava na casa da mulher, não podia desagradá-la. Mas foi uma bola fora, principalmente de uma pessoa culta e informada como ela.

 

– Você não precisa sair por aí falando da sua vida sexual. Seja discreta, afinal, vai que é uma fase?

Um belo dia, resolvi contar ao meu psiquiatra a minha descoberta. Achei que ele ficaria feliz, afinal, tenho certeza que vários pacientes dele lutam contra a própria homossexualidade durant anos e anos, fazem tratamento, tomam remédios e às vezes passam a vida sem conseguir se aceitar.

Contei que estava pensando em contar para a minha mãe e ele me reprovou. “Marina, o que você acharia se sua mãe contasse da vida sexual dela para você? Isso é muito íntimo, você pode ser o que você quiser, mas não precisa sair por aí de mãos dadas, fazendo carícias em público. Isso seria inapropriado, assim como seria inapropriado se eu, que já sou velho, resolvesse ficar beijando minha esposa no meio da rua. E outra, isso pode ser uma fase, depois como você vai explicar que essa fase passou?” Não tive ânimo para explicar que:

1) a homossexualidade vai alééééém da vida sexual

2) que eu não pretendia contar pra minha mãe que tinha comido minha namorada de quatro, mas que gostaria que minha mãe soubesse que eu gosto de moças e que, mais cedo ou mais tarde, terei uma namoradA

3) que eu acho fofo pessoas mais velhas se beijando em público e que eu olho e penso: “tomara que comigo seja assim!”

4) que eu demorei pelo menos dez anos pra sair do armário pra mim. Não, isso não é uma fase, doutor

Só balancei afirmativamente a cabeça e tratei de acelerar os assuntos pra terminar a consulta logo.

 

– O “direito” de encoxar as lésbicas

Eu e uma amiga dançávamos em um dos palcos da Virada Cultural de São Paulo. O local estava animado, mas não lotado, e todo mundo estava curtindo numa boa. Até que chegou um bêbado idiota e começou a mexer com duas garotas que estavam juntas. As meninas tentavam se afastar, mas lá ia ele e toda a sua inconveniência atrás delas. Com seus 20 anos e praticamente sendo encoxadas por um estranho que estava completamente embriagado, as moças ficaram com medo e se abraçaram, esperando que uma luz de sanidade acendesse no troglodita, mas a única coisa que acendeu foi o fogo do desgranhento.

Ele se aproximou ainda mais das garotas. Meu sangue italiano, que já estava quente neste momento, ferveu e eu tive uma única reação: pegar o desgranhento pelo braço e mandar ele ir embora. Claro que como todo o bêbado chato, ele ainda quis discutir comigo, dizendo que o evento era público. “O evento é público, as meninas, não, idiota”, respondi eu. Ele perguntou quem eu achava que era. “Sou policial e vou chamar meus colegas se você não sair fora.”

Nisso, minha amiga me chamava e tentava me acalmar, mas a única coisa que eu queria era encher o FDP de porrada. Aí ele soltou a velha pérola “você precisa de uma rola, sua encalhada!”. Como eu percebi que seria idiotice continuar batendo boca com ele – que era tudo o que ele queria – eu comecei a dançar frenéticamente fazendo careta pra ele, como uma louca mesmo. Aí ele resolveu ir embora.

As meninas vieram me agradecer. Mas acho que eu fiz mais por mim do que por elas – me senti desrespeitada como pessoa, como cidadã e como mulher com aquela demonstração explícita de quão machista e preconceituosa ainda é nossa sociedade. Enfrentar o bêbado idiota foi uma maneira de, em uma microesfera, reivindicar meus direitos.

 

– Vai me dizer que depois dessa gozada, você continua gostando de mulher? (também com essas palavras)

Conheci o Juan num evento, numa época em que já havia ficado com algumas garotas. Passamos uma noite juntos, depois, mesmo morando em países diferentes, mantivemos contato – ele me ligava quase todo dia. Ele se mostrou um rapaz bastante inteligente, aberto, sociável e fiquei meio apaixonadinha. Resolvi passar as férias com ele em seu país, mas como conhecia pouco a pessoa, tentei descobrir o máximo possível da pessoa à distância. Perguntei a ele, por e-mail, o que ele acharia se um amigo dissesse a ele que é gay. Ele me respondeu que acharia normal, daria total apoio e não o julgaria.

Cheguei lá, a coisa foi meio estranha. Tivemos alguns desentendimentos e eu descobri que ele estava com uma outra pessoa – ele me jurava que não tinha ninguém. Fiquei muuuuito brava e, meio que em uma tentativa de agressão, disse a ele que eu ficava com mulheres também. Ele ficou visivelmente chocado, mas tentou manter a compostura. Até que naquela noite, quando finalmente tivemos uma noite boa, ele soltou a frase acima. Olhei fixamente para o teto por alguns segundos, levantei e fui ao banheiro fazer o número 2.

Depois desse episódio, um amigo brasileiro me deu de presente o livro “As Mentiras que Os Homens Contam”.


– Agora que você é lésbica, será que podemos transar a três?

Tive alguns PAs na minha vida – aqueles amigos para transar nos momentos zero relacionamentos e uma necessidade crescente no meio das pernas. Um deles era o Guilhermo e, durante alguns anos, sempre que estávamos disponíveis, acabávamos marcando encontros, ficando, transando, etc. Era um “namoro sem compromisso para momentos de lazer”, digamos.

Um belo dia, mesmo quando eu estava fora de qualquer relacionamento, neguei um convite dele. Ele não entendeu nada, daí resolvi revelar, achando que ele encararia com naturalidade (ah, ingenuidade!) “Amor, agora eu só fico com meninas, não me leve a mal, não é nada pessoal”.

Ele ficou meio mudo, depois disse que tudo bem, que ele achava supernormal, que continuaríamos amigos. Depois de mais algumas palavras, ele lançou: “escuta, será que você não conhece nenhuma amiga que tope transar com a gente? Tenho essa fantasia, sabe?”

Resposta: “Filho, eu sou lésbica, isso significa que quero transar com mulheres, SÓ mulheres, sem ninguém no meio.” Ele disse que entendia e que me admirava e que queria continuar meu amigo.

Nunca mais nos falamos.

 

– Mulher só fica com mulher quando não conheceu um homem de verdade / porque não me conheceu (e variações)

Quantas vezes você já ouviu isso?
Para quem pensa assim, ai vai: eu já transei com homens deliciosos, gostosos, lindos, tesudos e cheirosos. Tive orgasmos incríveis com eles, daqueles de subir pelas paredes e de ficar tão mole que não conseguia nem falar depois. Falo isso com orgulho porque não vou cuspir no prato que comi (ou que me comeram, enfim…) Mas ficar com mulheres é mais legal. Ponto.

E você, bonitão, que acha que eu sou lésbica porque ainda não te conheci, esqueça. A questão é bem mais complexa que isso. Homens são legais. Mas mulheres são mais – na minha opinião.


* Todos os nomes citados nesse descarrego mental foram trocados porque existe o mínimo de decência dentro deste ser insano que vos escreve

***

E você, qual foi o maior sapo que você já engoliu?

20 Comentários leave one →
  1. missgray permalink
    13 maio, 2008 12:54 pm

    Oi, Marina!
    Este último sapo citado é, infelizmente, um clássico.
    Enfim, cada coisa que a gente ouve digno de um “troféu jó-í-nha”, vou te contar, viu?!

    Beijão!

  2. Thaís permalink
    13 maio, 2008 2:48 pm

    hahaha!
    tu escreve muito massa! 😀
    adorei.

    é, já engoli alguns DINOSSAUROS.

    Marina, mulé, que saudade de você, ox.

  3. Marina Meirelles permalink
    13 maio, 2008 4:44 pm

    Oi, Miss,

    Pois é, nem me fale, viu…
    Como disse a Thaís, uns dinossauros, aff maria!!

    Bjos!!

  4. Marina Meirelles permalink
    13 maio, 2008 4:45 pm

    Thaaaaiiiissss!! Que saudade enoooorme de voce, mulé!!!

    Xeeeroooo!!!

  5. Té Pazzarotto permalink*
    13 maio, 2008 9:30 pm

    “Achei totalmente descabida essa observação, porque ela foi feita na maldade. Algo do tipo “pensa bem, é melhor ser hetero e ficar com o gostosão do que ser gay e ficar com a Regina”.

    Aparecer lá com a Thaís, que tal?
    (risada maléfica!!!; me dá o tel das duas… ¬¬)

    “por exemplo, os gays podiam aproveitar aquela parada que eles fazem na paulista pra reivindicar a igualdade social, lutar pelo fim da seca no Nordeste, causas que são realmente importantes!”

    E no dia do trabalho poderiam haver protestos contra o desmatamento… ¬¬
    ps: pra completar, que tal no Natal a gente ganhar ovos de páscoa?

    “Marina, o que você acharia se sua mãe contasse da vida sexual dela para você? Isso é muito íntimo, você pode ser o que você quiser, mas não precisa sair por aí de mãos dadas, fazendo carícias em público. Isso seria inapropriado, assim como seria inapropriado se eu, que já sou velho, resolvesse ficar beijando minha esposa no meio da rua”

    Eu denunciava! Trocava de psiquiatra…
    ps: tem certeza que ele é formado? ¬¬

    Seria engraçado o movimento contrário:
    “Ela é hetero pq ainda não ficou com uma mulher de verdade…” hahahahahahaha

    =)

  6. 13 maio, 2008 9:34 pm

    Oi Marina,
    adorei este seu texto e o outro sobre a foto no livro de culinária…
    Já engoli inúmeros sapos também…. e como compartilho do mesmo sangue italiano que você fala fica mesmo difícil de se segurar às vezes…
    Fiquei chocada mesmo foi com seu psiquiatra… que falta de profissionalismo a dele!
    Um abraço,
    Renata.
    http://www.oraculodelesbos.blogspot.com

  7. missgray permalink
    13 maio, 2008 10:20 pm

    Também achei estranho esse seu psiquiatra.
    Pergunta pra ele se ele não é enrustido. Ops, incubado!
    Que frase tudow, Té: “Ela é hetero pq ainda não ficou com uma mulher de verdade….”
    kkkkkkkkkkkkkkkk

  8. Margo permalink
    14 maio, 2008 12:54 am

    Nossa, muito bom esse texto! Adorei, Marina. =)
    Cara, esse psiquiatra teve uma atitude tão inadequada e anti-profissional… Péssimo saber que existem vários psis por aí assim. ¬¬
    Well… Keep up the good work, girls! ;D

  9. 14 maio, 2008 1:39 am

    PERFEITO!

    PERFEITO!

    AMEI, Marina! Depois quero saber a resposta para o sapo “Gostosão ou chatonilda”, pois esse nem eu engoli!

    Mas a sua ironia foi brilhantemente inteligente, além da sensibilidade intensa, sincera e vívida como você!

    Um grande beijo após um grande texto,

    Aranel. =]]]

  10. Marina Meirelles permalink
    14 maio, 2008 5:42 pm

    Té,

    Ele nao só é formado, como tem agenda cheia. Tipo lotada…

    :-/

  11. Marina Meirelles permalink
    14 maio, 2008 5:43 pm

    Pois é, Margo e Renata… os sapos vêm das pessoas que menos esperamos… Infelizmente!

  12. Marina Meirelles permalink
    14 maio, 2008 5:43 pm

    nel, darling,

    vindo de voce, é mais do que um elogio!

    baci!

  13. Té Pazzarotto permalink*
    14 maio, 2008 6:06 pm

    Denuncia ele, tata….

  14. Marina Meirelles permalink
    14 maio, 2008 6:46 pm

    pois é, é o que eu vou fazer mesmo.

    bj!

  15. Jasmim permalink
    16 maio, 2008 4:44 pm

    Além dos sapos clássicos que voce nos apresentou, ainda tem os pequenos girinos diários.
    Você nunca vai ter uma familia normal…e ai eu pergunto, qual o conceito de normalidade deles;..
    Voce nao pode ficar com caminhoneiras….e pq nao…e se a Butch me chamar atenção, minha amiga fica com um gorducho esquisito e ninguem diz nada a respeito..rsrs
    Excelente blog…fiquei encantada.
    Bom fim de semana

  16. Marina Meirelles permalink
    16 maio, 2008 5:35 pm

    Pois é

    Sapos – em qualquer fase de sua vida – são bem indigestos, Jasmim.

    Só com muito amor no coração, viu? rsrs

    Bjo e obrigada pela visita! Venha sempre, come um biscoitinho 😉

  17. Greenie permalink
    20 maio, 2008 2:51 am

    “Você não precisa sair por aí falando da sua vida sexual. Seja discreta, afinal, vai que é uma fase?”

    Essa história de “ser ou não ser” fase me rendeu um sapão bem recente, por sinal.

    Enfim.
    Ótimo texto, Marina. :*

  18. patricia permalink
    12 setembro, 2011 11:53 pm

    oi…gostei dos seus textos…o maior sapo que já engoli foi meu ex chefe depois de uma tentativa de uma boa ação a favor dos funcionários ,ele me solta a classica frase:”de boa intenção o inferno esta cheio”,deu vontade de falar:então te vejo lá…mas enfim,tenho amigas lesbicas e nossa como elas entendem as mulheres,o mundo seria um lugar melhor se não existissem rótulos..você escreve super bem viu, ja pensou em escrever um livro?..bjs

    • 13 setembro, 2011 3:59 pm

      Depende se você está falando especificamente desse texto, pois este foi escrito pela Marina que não participa mais do blog =)

  19. sara permalink
    6 janeiro, 2013 11:36 pm

    adorei seu texto;;

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