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Uma conversa com dra. Julieta

15 maio, 2008

Subi as estreitas escadas do sobrado e cheguei à porta da sala da dra. Julieta, que já me aguardava ali com um sorriso enorme e os cabelos vermelhos contrastando com a roupa branca. Como sempre.

– E aí, como você está?
– Tô bem, cheia de novidades!
– Opa, então entra!

Me deu um abraço e um beijo e me convidou a entrar. Coloquei minha mochila em uma das cadeiras na frente da mesa e me sentei na outra. Ela sentou-se na sua cadeira, examinou a ficha e deu um sorriso.

Antes de continuar, vale um adendo. A dra. Julieta é daquelas médicas que você sonha em conhecer a vida toda. Honesta, compreensiva e nada preconceituosa. Eu a descobri por indicação de uma amiga, porque estava cansada de ir a médicos que não me entendiam em vários aspectos. Bingo! Recomendo…

– E ai, o que me conta?, perguntou ela, olhando por cima dos óculos de aro vermelho.

Eu sabia bem o que ia responder, mas não sabia como…

– Olha, doutora, muita coisa mudou… (pausa de uns cinco segundos) Eu… me descobri lésbica.

Falei isso com empregando a seriedade de quem anuncia um novo plano econômico e não com a naturalidade que eu gostaria de ter naquele momento. Ela não deu um suspiro, não mostrou surpresa, não sorriu, nem fechou a cara. Ela simplesmente continuou a consulta com a naturalidade que eu gostaria de ter naquele momento.

– Bom, vou fazer um discurso aqui, o mesmo discurso que eu faço para qualquer uma de minhas pacientes. Em qualquer relação, seja ela homossexual ou heterossexual, você precisa se prevenir. Pois em qualquer deles há troca de fluidos. Certo?

– Olha, doutora, eu andei pesquisando sobre o assunto, mas a real é que eu não achei muita coisa apropriada. Falam do Magipac, mas dizem que é incômodo e escapa. Da camisinha feminina, que é chata e difícil de usar… Falaram até de luvas cirúrgicas, mas só de pensar em sacar uma luva cirúrgica da gaveta me dá preguiça de qualquer coisa.

– Você usou alguma dessas coisas?

– Não me animei, honestamente.

– Então vamos lá. A luva cirúrgica eu acho que realmente não é o caso. No mundo ideal, é claro que ela tem seu papel, mas ela remete à coisa de sujeira, de médico, não é muito prática. Então você pode usar o Magipac e a camisinha feminina. No caso do Magipac, ele escapa porque as pessoas são econômicas. Dez centímetros não adianta. Tem que ser meio metro. Você corta meio metro de Magipac e aplica sobre a vagina. É um material superaderente, fica bem interessante e nao escapa se você colocar direitinho. MAS se você quiser algo prático, que dê pra levar na bolsa, colocar na gaveta, a camisinha feminina é, sem dúvida, uma ótima opção.

– Mas é difícil de achar.

– É, é difícil achar, mas se você for à uma drogaria grande, na parte de produtos para mulheres, tem camisinha feminina. Aí você compra e deixa na bolsa. — Enquanto falava isso, ela sacou uma amostra do produto de dentro da gaveta e continuou — Aqui atrás da embalagem tem todas as instruções. — Abriu a embalagem e desenrolou o preservativo — Você comprime esse primeiro aro, introduz na vagina, ajeita com o dedo e pronto. Ela cobre toda a parte mais sensível da vagina, o clitóris e os pequenos lábios. Com isso você pode praticar tanto o sexo oral quanto a introdução dos dedos.

– Doutora, honestamente, eu tenho dificuldade em pedir.

– Por quê?

Parei para pensar durante alguns segundos. Ela então tomou a dianteira:

– O que é isso? Falta de informação? Vergonha? Falta de amor-próprio e de senso de auto-preservação?

– Bom, primeiro… Pode ser meio ridículo, mas ouvi dizer que os riscos entre mulheres são menores.

– Olha, havendo contato de fluido com fluido ou às vezes de pele com pele, já é o suficiente para se pegar uma doença. No caso HPV você não precisa nem ter contato de saliva com os líquidos vaginais, por exemplo. Você sabe que um dos maiores índices de contração de HPV é entre os adolescentes? Sabe por quê? Porque ficar significa qualquer coisa que não seja a penetração do pênis na vagina. Então, basta o contato do escroto com a vulva pra que o vírus seja transmitido. E ele pode causar câncer. Assim como a hepatite B, que também pode ser contraída no ato sexual.

Na hora eu pensei “virgi, já pensou enfrentar um câncer no fígado porque um dia eu tive vergonha de pedir pra minha parceira pra usarmos um preservativo que custa 5 reais? Afff!!!” Mas pensei também na questão cultural, que foi o que eu disse para a doutora Julieta. Quem cresceu nos anos 90, como eu, ouviu falar da necessidade de usar camisinha todos os dias, quase. Na TV, no rádio, nos outdoors, em panfletos. As celebridades iam pra TV dizer que aquilo era um ato de amor com você e com outras pessoas e que se o parceiro se recusasse, era pra deixar ele falando sozinho porque ele não merecia blablabla. Eu coloquei isso na minha cabeça de uma maneira tão forte que não tinha dúvidas. Enquanto tive relações com homens (sim, eu tive relações com homens durante 10 anos de minha vida), nunca aconteceu de alguém não topar, mas se não topasse, eu teria todo o respaldo psicológico pra levantar, colocar a minha roupa e sair andando.

O grande problema é que essas campanhas eram TODAS voltadas ou para casais heterossexuais ou para gays masculinos – que nos anos 80, eram considerados o “grupo de risco”. Nunca ouvi falar nada para mulheres. Como resultado, as meninas realmente não pensam muito nisso e, quando pensam, acham ridículo.

Eu mesma levei essa discussão para algumas rodas de amigas lésbicas e as reações eram sempre de ridicularização. “Ai, mas você vai colocar um Magipac, que horrível!”

Doutora Julieta concordou que existe uma séria dificuldade nesse aspecto:

– É, isso é um problema enorme. Lá nos anos 80, quando os primeiros casos de Aids vieram à tona, o maior número de caso estava entre os homossexuais masculinos. Depois que se controlou esse grupo, os bissexuais masculinos passaram a ser o grupo com maior número de casos. Eram muitas vezes caras casados com mulheres que tinham relações com homens fora do casamento. Por culpa ou vergonha daquela situação, eles não pediam para os parceiros usarem camisinha. Aí controlou-se esse grupo e agora são as mulheres casadas com homens e que são fiéis. Elas sabem que o marido tem outras, mas não pedem por diversos motivos e acabam se contaminando. Então, é importante saber se existe vergonha, culpa, sentimento de superioridade ou de inferioridade entre as pessoas para entender por que a prevenção não acontece. Isso é um ato de respeito por você, pela parceira e por eventuais parceiras que essa parceira vá ter no futuro. Você imagine se você tem algum problema que você desconheça. Você transmite para ela, que pode vir a transmitir para outras pessoas. E outra: se ela não usa com você, provavelmente não usou com outras pessoas. Vai saber quanto de troca de material DNA ela já não estabeleceu com outras pessoas?

Ela deu uma pausa e continuou:

– Eu respeito sua opção, qualquer que seja ela. Mas exijo que você, como minha paciente, se preserve, se previna. Ok? Olha, vou pedir todos os exames de rotina. Vamos fazer um papanicolau, vou pedir exames de sangue para HIV, HPV e sífilis, e vou pedir pra você se vacinar. Existe um calendário de vacinas do adulto que as pessoas desconhecem. Aliás, falando em exames e em lésbicas, eu queria saber por que as lésbicas não vão ao médico? Tenho algumas pacientes homossexuais e elas aparecem muito pouco!

– Pois é, isso é uma coisa que eu descobri também. Acho que elas acham que não precisam.

– Ué, a pessoa pode ter outra opção sexual, mas não trocou de sexo. Continua tendo vagina, ovários, útero, mama. E precisa cuidar de tudo isso pra evitar problemas no futuro.

Saí de lá feliz, com vontade de falar pra todo mundo o que eu tinha ouvido dela. Me sentindo na obrigação – como jornalista e como mulher – de compartilhar as informações com outras pessoas. Aí está.

******

Uma pergunta: alguém aí usa métodos de prevenção?
Compartilhe conosco.

******

Tem sugestões, críticas, dúvidas? Escreva para mim: marinameirelles3@gmail.com 

12 Comentários leave one →
  1. Té Pazzarotto permalink*
    15 maio, 2008 5:35 pm

    é complicado mesmo…
    vou deixar um do lado da cama… ai na hora é só puxar… rs

    lembro quando vc me mostrou essa entrevista… aiai

    Enfim, preciso falar com a Dr. Julieta…

    =)

  2. Marina Meirelles permalink
    15 maio, 2008 6:43 pm

    É muito complicado. É estranho até pensar em sacar uma camisinha na hora. Mas é falta de informação e, principalmente, de conscientização. E – o pior – um sinal da in-visibilidade lésbica, né? Porque ninguém NUNCA falou disso. Pelo menos, eu nunca ouvi. Assume-se que lésbicas não se contaminam e pronto, o que não é bem verdade – ou não ficou 100% provado.

    Tata, recomendo a Dra. Julieta pra todas. Ainda mais depois do que andei lendo por aí, do tratamento que as pessoas recebem dos ginecologistas de meia pataca…

    =)

  3. Té Pazzarotto permalink*
    15 maio, 2008 7:40 pm

    quando for por aí, marco uma visitinha =)

  4. Fabíola permalink
    22 maio, 2008 7:10 pm

    Bom adorei esse texto e assim pra quem num tem uma relação estável é mesmo viável,acho q eu me assustaria de pensar em estar com outra mulher pq já estou em um relacionamento longo onde a gente preza mto a fidelidade.Tenho 22 anos e ela tem 36,fazemos exames e vamos a ginecologista regularmente,pois nem sempre confiar na palavra de alguém é válido,então temos q nos cuidar sim n importa oq,mas não usaria preservativos com minha namorada,mas acho válido quem usa,principalmente em relações casuais.

  5. Marina Meirelles permalink
    23 maio, 2008 7:48 pm

    Acho que se cuidar e cuidar do outro é uma demonstracao de carinho. Por mais estranho que possa parecer…

    Bjos!

  6. 1 dezembro, 2011 12:57 am

    Concordo com a Marina. Acho que em um relacionamento entre mulheres deve-se evitar troca constante de parceiras; entre as GP bissexuais, prevenção e exames sempre. É bom sempre fazer exames de sangue periodicamente e em caso de duvidas receber antiretrovirais (é assim que fala??) pra evitar que um possivel virus se espalhe. Na verdade a essas alturas ja deveriam ter criado uma vacina ou algum remedio que curasse em definitivo o HIV que o erradicasse de vez ao inves de só remedios para controlara doença e o virus.

    PS- Por coincidencia estava vendo o filme do Cazuza e justo no dia 1º de dezembro, da luta Mundial contra a Aids q eu resolvi passar aqui pra ler esses artigos rs.

  7. Malu permalink
    8 fevereiro, 2012 3:28 pm

    Muito bom , Bem ainda na pratiquei sexo com outras mulheres, mais ja tive com um conhecido meu. e acabei pegando o HPV e a Herpes genital . e nao quero q e uma futura parceira minha peguei. por esse motivo que estou pesquisando sobre e acabei chegando aqui.
    Adorei as dicas iniciarei minha vida entre lindas mulheres prevenindo ela disto. Que se fosse legal todos tinha, ne?

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