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Programação genética anti-gay

26 junho, 2008
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Recebi um artigo esses dias (valeu, Ju!) que saiu na Folha de S. Paulo. É sobre as tentativas da ciência programar os bebês para que sejam “perfeitos”, o que incluiria a opção de “desprogramar” a “tendência” à homossexualidade.


Pais, filhos e gays

A busca de super-homens é uma quimera longa e trágica na história humana

Será possível escolher as preferências sexuais de um filho? Não, não falo de preferências por ruivas, loiras ou morenas. A questão, levantada pela cibernética “Slate”, vai mais fundo: será possível mexer na base neurobiológica de uma criatura e “reprogramá-la” para ela gostar do sexo oposto?

Talvez. Conta a “Slate” que longe vão os tempos em que a homossexualidade era encarada como escolha pessoal ou produto do meio. A homossexualidade é um fato natural -como a cor dos olhos, a pigmentação da pele-, e estudos recentes apóiam a tese ao mostrarem diferenças visíveis no cérebro de homos e héteros.

Parece que os gays têm cérebros muito semelhantes aos das mulheres hétero. E parece que as lésbicas têm cérebros muito semelhantes aos dos homens hétero.

Mas os estudos não ficam restritos a esse retrato. Os cientistas dão um passo além e sugerem que importantes influências hormonais, durante e pouco depois da gestação, determinam a constituição neurobiológica do indivíduo. E, se os hormônios desempenham papel principal, abre-se a porta prometida: “reorientar” os hormônios, “reorientar” a preferência sexual do bebê.

A possibilidade recebe aplausos. A Igreja Católica, confrontada com tal cenário, esquece a sua própria doutrina sobre os limites da manipulação médica e apóia decididamente a busca de uma “terapia” capaz de “curar” a “doença” homossexual.

Mais impressionante é a opinião da maioria: questionada sobre a possibilidade de conhecer a orientação sexual do filho por meio de um teste pré-natal, a generalidade não hesitaria em recorrer ao aborto ou à “reprogramação” caso a sexualidade da criança apontasse para o lado “errado”. No fundo, quem não salvaria um filho do preconceito social ou da “doença” homossexual?

Fatalmente, a questão é desonesta. Aceitar as premissas do debate lançado pela “Slate” -aceitar, no fundo, que, por meio da ciência, é possível reverter a orientação sexual de um ser humano- é aceitar, implicitamente, que a homossexualidade é uma doença. E, aceitando-o, permitir que a medicina a trate exatamente como trata qualquer doença.

A realidade não legitima a fantasia. A síndrome de Down ou a espinha bífida, por exemplo, são doenças no sentido mais básico do termo: elas impedem que um ser humano tenha uma vida plena. Podemos discutir se a medicina deve e pode “manipular” genética ou biologicamente uma vida humana para erradicar esses males. E podemos discutir se esses males legitimam a interrupção da gravidez.

Mas essas discussões são distintas do problema inicial: reconhecer a Down ou a espinha bífida como fatores objetivamente incapacitantes de uma vida normal.

A homossexualidade não é uma doença. Pode ser motivo de preconceito social, dificuldade relacional, neurose pessoal -mas não é impeditiva de um funcionamento pleno do indivíduo nem põe em risco a sua sobrevivência futura.

Nada disso significa, porém, que não exista uma base neurobiológica capaz de explicar a orientação sexual. É possível e até provável. Exatamente como é possível e provável que certas propensões da personalidade humana -para a depressão, para a liderança, para a criatividade- estejam já inscritas na nossa natureza.

Mas isso não autoriza a medicina a procurar o paradigma do Super-Homem, dotado da dosagem certa de humor, capacidade de chefia, talento para a pintura e para o sapateado. A busca de super-homens é uma quimera longa e trágica na história humana.

Resta a questão final: e os pais? Confrontados com a possibilidade de “reprogramarem” a orientação sexual de um filho ou de descartarem-no via “aborto terapêutico”, terão os pais o direito de pedir à medicina esse instrumento seletivo e subjetivo?

Aceitar essa possibilidade é aceitar que, no futuro, os pais poderão determinar a vida futura dos filhos. Escolher a orientação sexual; o temperamento; a vocação intelectual; a excelência atlética ou estética.

Não duvido que a maioria, confrontada com tal hipótese, reservasse para a descendência o cruzamento ideal entre Brad Pitt, Albert Einstein e Pelé.

Mas um tal gesto seria uma tripla violência: contra a medicina e a sua função especificamente curativa; contra o mistério e a diversidade da vida humana; mas também contra os próprios filhos, condenados a habitar vidas que não lhes pertenceriam, mas que foram desenhadas pela vaidade, soberba e tirania de seus progenitores.

Leia o original aqui

3 Comentários leave one →
  1. Té Pazzarotto permalink*
    26 junho, 2008 11:24 am

    Isso se a genética fosse a única responsável pelo todo das características humanas.
    E “sabemos” que não é bem assim….

  2. 26 junho, 2008 1:56 pm

    Parece que o lado positivo disso tudo é estarem “aceitando” a existência do gene homossexual.
    Vocês se lembram daquela bomba “gay” que as Forças Armadas americanas estavam tentando desenvolver? Aquela que, quando detonada, faria o exército inimigo se tornar gay?

  3. Leitora permalink
    27 junho, 2008 12:48 pm

    Acho plenamente possível que exista uma base neural para a homossexualidade, assim como existe para qquer outro tipo de comportamento motivado. Acho q esse “medo” de a Ciência fazer tentativas no sentido de reprogramação sexual é meio paranóico e fora da realidade, mesmo porque os estudos sobre o tal “gene gay” são mto, mto incipientes e inconclusivos. Mesmo em relação a certas doenças, sobre as quais já existe um conhecimento relativo, a Ciência ainda não foi capaz de chegar a esse ponto. Acho q esse tipo de questionamento é até interessante pra se discutir o quão grande é a homofobia enraizada na sociedade, mas a possibilidade de q esse tipo de intervenção aconteça de fato me parece mto remota.

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