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Sex.d.ualidade II

28 junho, 2008

No texto passado, falei em não impor limites a si como um “primeiro passo” importante. Não só em relação a própria sexualidade, acho que isso vale para os diferentes campos da nossa vida.

Entretanto, existe uma diferença entre ensaiar o “primeiro passo” e dar o “primeiro passo”. Não se limitar é não abandonar características, sonhos, desejos, o que for… É não deixar pra trás traços importantes e que fazem parte de nós. Tão fundamental quanto não impor esse limite é experimentar, arriscar, tentar viver e ser o que se é e o que se quer, sem arrependimentos, excesso de temores, pressões internas e auto-críticas.
Já tem tanta gente pra fazer isso por nós, né?

Uma coisa que reputo ter importância para quem está descobrindo a própria sexualidade é fugir de receitas, manuais, bulas etc, que tentem ou que tentam enquadrar, padronizar, igualar… Por mais que existam semelhanças entre pessoas de um mesmo grupo, acredite, elas diferem entre si.

A sexualidade humana se diferencia em gênero, identidade e orientação havendo inúmeras variações e combinações entre elas e sempre surgem “novidades”.

Eu descobri minha sexualidade muito cedo.
Lembro, com certos detalhes, da primeira menina que gostei quando tinha apenas 4 ou 5 anos de idade e fazia o Jardim II (sei disso porque a farda mudava quando se estava na alfabetização), e, por incrível que possa parecer para algumas pessoas, eu identifico como desejo certas sensações minhas, podem dizer que eram “puras”, “coisa de criança”, mas nem por isso deixa de ser desejo.
Minha precocidade continuou presente na descoberta do meu corpo, do prazer, da masturbação e do primeiro orgasmo… Tudo isso antes dos 10 anos.

Tive inúmeras paixonites: pela professora de ciências da 3ª e 4ª série, pela Aline na 5ª… 
Estando na 5ª série, meus olhos brilhavam pelas meninas da 8ª ao 2º ano: Viviane, Melissa, ai ai…
Depois vieram muitos outros “encantos” infanto-juvenis, mas nada se compara ao primeiro amor, ao primeiro beijo em uma mulher, ao primeiro respirar e suspirar ao se sentir “em casa”, ao se sentir você mesma, ao se encontrar em si.

Foi exatamente desse jeito que me senti quando me apaixonei perdidamente aos 16 anos.
Ela tinha a mesma idade, estudávamos no mesmo colégio, tornamo-nos melhores amigas e ela também, acredito, apaixonou-se por mim.
Até darmos o primeiro selinho, foi uma “lenda”. Inventei uma história maluca de que quando fossemos prometer algo uma para outra, se fosse realmente sério, teria que ser selado com um beijo.
Depois veio a vez dela, só que muito mais objetiva, foi direto ao ponto e disse por telefone:

– Eu quero beijar você!

Contudo, não é porque você finalmente encontrou uma mulher que se encaixa em você que as confusões acabaram, ou que o medo se foi…
Pra ilustrar o que quero dizer, basta citar o que aconteceu logo após o meu primeiro beijo. 
A mãe dela viajaria no final de semana e eu iria passá-lo em sua casa:

Ela virou o corpo em minha direção, ficando com metade de si em metade de mim, olhou em meus olhos, depois de várias frases provocativas proferidas pela minha boca, e disse:

– Posso te dar um beijo?

Eu apenas balancei a cabeça positivamente…

Depois de cerca de 10min, ela estava voltando o filme e eu indo ao banheiro. Lavei o rosto, olhei-me no espelho e disse:

– Graças a Deus que eu não sou lésbica… – detalhe: no mesmo dia eu fiz amor com ela.

Essa frase é o “simples” resultado da soma dos meus medos íntimos, afinal, eu havia concretizado tudo que sempre idealizei desde criança.
Essa frase não teve sentido real, uma vez que eu SOU lésbica. Ela teve um sentido simbólico, ela simbolizava meus receios.
A diferença finita e infinita entre desejar: processo íntimo e secreto (se assim a pessoa quiser que permaneça); e viver: processo externo e compartilhado (pelo menos no que se refere a um relacionamento).

Entre não impor limite e viver aquilo que não se limitou há isso: a dúvida.

Essa dúvida, esse receio de continuar, essa angústia, no meu caso, diluiu-se com o tempo e apenas ele. A cada beijo, a cada abraço a certeza de que havia me encontrado preenchia todo o meu EU de convicção e felicidade.
Minha experiência lésbica não era mais um sonho, uma vontade distante, ela agora fazia parte da minha vida.
Saiu do campo hipotético para o concreto.

Para essa segunda parte, os primeiros passos da primeira estrada acho que o importante é saber que o medo ainda faz parte, que as dúvidas, provavelmente, sempre existirão, que se permitir é importante e ser livre essencial.

 

8 Comentários leave one →
  1. Marina Meirelles permalink
    3 julho, 2008 8:16 am

    “se sentir em casa”

    É isso!

    Mas, Té… Não pude deixar de rir quando você disse “graças a Deus não sou lésbica”. rsrs

    Bjo!

  2. Té Pazzarotto permalink*
    5 julho, 2008 10:26 am

    eu sei…
    tbm acho uma graça!

    bigadu tatola..

    =)

  3. Miss Biela permalink
    9 julho, 2008 6:15 pm

    Devo admitir que ler perdeu um pouco a graça, prefiro ouvir..rs

    Tá, compartilho opinião!… =p

    Adorei o texto. Sou fã, né? Será que fã conta?..rs

    Beijos Té[são]

  4. Cláudia permalink
    12 julho, 2008 2:41 pm

    Muito bom isso ^^

    “Tão fundamental quanto não impor esse limite é experimentar, arriscar, tentar viver e ser o que se é e o que se quer, sem arrependimentos, excesso de temores, pressões internas e auto-críticas.
    Já tem tanta gente pra fazer isso por nós, né?”

    Bom, como tudo que vc escreve está PERFEITO!!! rs…

    Exatamente assim, sem tirar nem pôr!!!

    =D

  5. Té Pazzarotto permalink*
    12 julho, 2008 3:42 pm

    Obrigada meninas =D
    É sempre muito bom ler os comentários ^^~

    =*

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