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Sobre Corações Partidos

24 agosto, 2008

 

Foi em um dia como aqueles – em que o coração amanhece cinzento mesmo com um sol lindo despontando no horizonte – que eu a conheci daquela forma tão íntima. Havia descido as escadas correndo, com o mundo engasgado em minha garganta. Ali não era o local apropriado para dizer tudo nem o instante em que me seria permitido isso. Mas sabia que a hora chegaria.

Despedi-me dos amigos com uma saudação contida e ainda pude escutar Pablo gritando algo como “Nel! Vamos embora com você!”. Só que eu não esperei; não podia esperar… Passei rapidamente pela entrada do restaurante onde estávamos e senti uma mão segurar o meu ombro com firmeza.

– Você não está bem hoje, – Ela afirmou com uma voz doce e preocupada. – Vamos, eu levo você daqui… – Ainda surpresa com a oferta, balancei a cabeça em sinal de aprovação. Não estava em condições de recusar; não queria…

– Obrigada… – Consegui conter o choro e dizer uma palavra ao menos.

– Vamos para um lugar tranqüilo se você não quiser que eu a leve para casa agora, Aranel…

– Você sabe o meu nome?

– Claro! – Ela sorriu com aqueles olhos verdes tão amistosos. – Está no seu cartão…

– Ah, a conta… – Dei a primeira risada da noite.

– Sim, você nunca sai sem pagar e os seus amigos costumam chamá-la o tempo inteiro pelo nome…

– E o seu nome é…

– Vanessa.

Fiquei vários minutos em silêncio olhando a paisagem mudar na janela. Talvez recordando as palavras que ouvi ao telefone e me magoaram tanto, talvez tentando esquecer o que havia escutado. Fui interrompida por Vanessa abrindo a porta do carro para mim e me dizendo um “Chegamos!” que soava qual um convite para um lugar muito desejado.

Deixamos o carro e entramos num corredor estreito que desembocava numa trilha de madeira e pedra molhada. Aquele cheiro gostoso se misturava ao barulho de água batendo nas pedras. Estávamos em um outro restaurante, afastado do centro; de tudo.

Sentamos em uma mesa bem reservada e Vanessa pediu com aquele sorriso aberto: “Pedro, você traz aquele café especial para duas”. Não demorou muito e o café chegou em duas taças lindas com sorvete…

– Eu adoro isso, – sorri como uma criança agradecida e feliz diante do doce preferido.

– Eu sei… Lembro também o dia em que você pediu algo parecido no nosso outro restaurante e não tínhamos.

– Você deixou o restaurante sozinho?

– Não se preocupe, minha irmã está lá e o gerente é bem grandinho. Tem que resolver as coisas para variar um pouco.

– Vanessa, eu realmente precisava de algo assim agora; de alguém que fizesse algo assim.

– Que fizesse por você o que você faz pelos outros… Sei bem como é isso. Mas há coisas, se me permite dizer, que não precisam ser exceções na nossa vida.

Lembrei-me, no mesmo momento em que ouvi aquilo, das palavras de Pablo, sempre maldoso; de vez em quando certo: “Ah, Nel, ela nunca vem até nossa mesa oferecer nada quando você não está… Vai me dizer que não percebeu que ela não só tem uma “quedinha” por você, como já se estatelou toda de tanta “queda” que levou por sua causa? Conta outra, totosa!”. Sorri intimamente pela maldade de Pablo surgir tão divertida em alguns instantes. Realmente precisava rir…

E, de fato, Vanessa estava certa. Há coisas que não podem ser exceções na nossa vida; precisam ser regras, porque são tão simples de se dar quanto de receber. Sem formulações, jogos ou estratagemas, o amor é assim. É fácil doar-se em prova dele, e maravilhoso recebê-lo de volta – não como uma resposta, mas como o fruto da entrega natural do outro.

Nas máximas sobre corações partidos, todo o esforço em dar ou receber amor transforma em “dever” aquilo que é preciso “querer” para durar. E, entre deveres e quereres, perdas se fazem antes que novos ganhos tornem a acontecer e o “amanhã” nos transforme como um curandeiro universal.

 

***

 

Desejando conversar, sugerir, pode escrever para aranelhaldatir@hotmail.com .

6 Comentários leave one →
  1. S.Angela permalink
    25 agosto, 2008 2:29 am

    “Foi em um dia como aqueles – em que o coração amanhece cinzento mesmo com um sol lindo despontando no horizonte”…Essa descrição me lembra eu em um dia especial em que uma sábia moça, me disse tudo o que eu precisava “ouvir”.=)bjos

  2. Té Pazzarotto permalink*
    25 agosto, 2008 5:11 pm

    Você consegue sintetizar as “mais belas” lições que leio…
    E além de belas, são importantes!

    Nas máximas sobre corações partidos, todo o esforço em dar ou receber amor transforma em “dever” aquilo que é preciso “querer” para durar. E, entre deveres e quereres, perdas se fazem antes que novos ganhos tornem a acontecer e o “amanhã” nos transforme como um curandeiro universal.

  3. 27 agosto, 2008 6:17 pm

    Que generosidade imensa, S.Angela!

    Fico muito feliz em ter dito algo que fez seu dia mais especial! =]

    Grandes Beijos, querida! =]]]

  4. 27 agosto, 2008 6:20 pm

    Té,

    que sorte a minha então ter conseguido sintetizar essas lições e, mais ainda, que, além de “belas”, elas se façam importantes!

    Beijos!

  5. 27 agosto, 2008 11:36 pm

    Belíssimos textos.
    Como já dito anteriomente á Té, sempre é muito bom passear por aqui.
    Parabéns meninas.
    bjs

    [“É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado.” Caio F. de Abreu.]

  6. Morango permalink
    28 agosto, 2009 1:36 pm

    Lembrei da primeira vez que uma garota partiu meu coração… Mas me preparou pro dia que o amor de verdade chegou e, só por isso, sou de certa forma grata a ela.

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