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Desejo & Distância

23 setembro, 2008

Para quem diferencia bem sexo de desejo e encara o prazer sexual como mais uma das facetas do desejo, e não como a única expressão dele; relacionar-se à distância é possível sem ser sofrível.

Evidentemente, no caso de relacionamentos dessa natureza, a ausência da parceira tende a acentuar certas carências naturais e, como tal, gerar a necessidade de vias alternativas para canalizar o desejo de uma pela outra.

Vamos a três situações bem interessantes que ilustram como o desejo é administrado por algumas pessoas:

1) Situação 01 – Antonia se masturba periodicamente com a parceira quando estão distantes. Elas moram na mesma cidade, mas uma delas, em razão do trabalho, viaja muito. Como ambas têm um ritmo sexual bem elevado, mesmo à distância, elas usam o telefone ou a internet para vivenciarem o desejo e, até mesmo, o sexo.

“Tive sorte, sabe? O meu amor é bem compatível comigo na cama e nos gostos. Adoramos as mesmas brincadeiras, aí fica tudo mais fácil.”

2) Situação 02 – Bruna prefere anunciar as coisas picantes que fará quando encontrar a namorada e, com isso, mantém a libido da parceira em alta – ao criar expectativas – e estabelecer prazos para satisfazê-las. Elas inventaram até um sistema divertido de penas para o caso de atraso na realização das pequenas “promessas’ que fazem.

“Eu amo minha namorada, mas ficava claro que ela precisava mais de certas coisas do que eu. Aí acabei criando esse joguinho, já que não sou muito fã de fazer nada pela net. Eu percebi que até coisas bobinhas já deixavam ela animada e se sentindo bem sem que eu precisasse ficar mal por isso. Conversamos muito e chegamos num meio termo.”

3) Situação 03 – “O caso Paloma”:

Paloma e a namorada tinham uma vida sexual relativamente bem estruturada dentro do mundo real e também no universo virtual – já que moram em estados diametralmente opostos. Mas, a namorada de Paloma passou a não expressar mais desejo e a não permitir que Paloma fizesse o mesmo sob a alegação de que achava melhor aguardarem para quando estivessem realmente juntas. Na impossibilidade de desejar quem gostava, expressar isso com naturalidade e vivenciar de forma alternativa o que sentia, Paloma começou involuntariamente a erotizar situações em que a namorada não se encontrava.

“Era difícil. Parecia que era uma rua de mão única e só eu a procurava por sentir falta”.

Não demorou muito e Paloma passou a sonhar com conhecidos inusitados, desconhecidos pouco esperados e a se masturbar modificando o foco erótico para eles. Aos poucos, Paloma parou também de expressar desejo pela namorada (já que sabia dessa porta fechada por ela) e o estado picante foi quase abolido do relacionamento.

“Minha melhor amiga nem se surpreendeu quando eu telefonei chorando, porque havia acabado de trair minha namorada. Nunca havia feito isso antes, mas a guria fez eu me sentir desejada como minha namorada não fazia há um tempão. Minha namorada acabou me perdoando e hoje já estamos melhores até porque passamos a morar mais pertinho uma da outra”.

São três situações distintas – que reforçam a realidade do “cada caso é um caso”, mas esbarram na necessidade concreta que o ser humano tem de ser amado, de se ver amado e desejado em todas as extensões que isso pode representar.

“Temos necessidade de amar e ser amados” – Amiel disse isso ainda no século XIX e inúmeros são os relatos que tratam da importância dessa equação amorosa que não se restringe aos relacionamentos a dois (a duas).

Se, ainda hoje, soa belo – aos ouvidos – o conhecido soneto de Camões: “o amor é fogo que arde”, com muito mais razão será difícil crer que a chama amorosa se mantenha sem alimento. O diálogo deve se fazer presente sempre que algo aparentar sair dos eixos e a sinceridade, somada à diplomacia, podem garantir a durabilidade daquilo que ainda pode dar certo.

É evidente que, em um relacionamento saudável, a presença do desejo e a expressão da sexualidade deve ocorrer de forma tranqüila e prazerosa para ambos. Mas, se somos humanos e o desejo move a vida humana, a ausência dele – apenas com relação a um objeto, a uma pessoa – pode indicar a morte do sentido que essa pessoa possuía em nossa vida até então. É hora de um novo sentido para essa pessoa – antes mesmo de uma nova pessoa, porque os recomeços podem ser, em certos casos, muito melhores que o fim.

________________

Agradecimentos especiais para as meninas que gentilmente autorizaram a publicação de suas palavras e histórias.

10 Comentários leave one →
  1. Bruna permalink
    23 setembro, 2008 10:39 am

    “o amor é fogo que arde” e machuca tambem!!

    …a ausência dele pode indicar a morte do sentido que essa pessoa possuía em nossa vida até então. É hora de um novo sentido para essa pessoa – antes mesmo de uma nova pessoa, porque os recomeços podem ser, em certos casos, muito melhores que o fim.

    Como sempre ‘Falou tudo’ Aranel!!
    Bj

  2. 24 setembro, 2008 11:15 am

    Bom dia – Muito interessante este canto. Gostei da parte do texto que fala em relacionamentos virtuais. Coincidência ou não, meu blog trata do assunto, sem preferências sexuais.

  3. Cláudia permalink
    24 setembro, 2008 3:23 pm

    Ficou bem legal, muito bom mesmo, Nel. ^^

    Beijos!!!

  4. barbara permalink
    25 setembro, 2008 9:47 pm

    Adorei o jeito de vc explicar
    estou sempre por aki…

    axei massa!

  5. Erika permalink
    26 setembro, 2008 11:26 pm

    Simplesmente perfeito!

    O “caso Paloma” aconteceu comigo,eu fechei as portas para minha namorada para evitar sofrer com a falta que ela me fazia em todos os sentidos,mas ao contrário da história não consegui perdoar,até porque ela não me pediu perdão.

    Hoje ela vive feliz da vida com quem a satisfaz plenamente.

    Vivendo e sempre aprendendo!

  6. 29 setembro, 2008 6:05 pm

    Bruna, muito obrigada pelo carinho! Que bom que gostou! Beijos e beijos!

  7. 29 setembro, 2008 6:07 pm

    Olá, Volnei!

    Feliz por você ter gostado desse canto! Realmente a questão do desejo e distância ultrapassa a noção de gênero.

    Forte abraço!

  8. 29 setembro, 2008 6:08 pm

    Dinha, você é um anjo! Obrigada, querida! =]

  9. 29 setembro, 2008 6:10 pm

    Barbara,

    maravilhoso saber que você sempre nos acompanha! Certamente já sabe que esse espaço também é seu! Valeu!

    Beijos e beijos! =]

  10. 29 setembro, 2008 6:18 pm

    Erika,

    eis uma grande verdade: “Vivendo e sempre aprendendo!”

    Situações como as vividas por Antonia, Bruna e Paloma são mais próximas de nós do que podemos realmente dimensionar.

    Nem sempre os finais são felizes como gostaríamos, mas é fato que, seguindo o bom Fernando Sabino, no fim (no fim mesmo), “no fim dá certo”. Nem que esse certo seja o reencontro com o mais importante em tudo isso: aprender a não negligenciar a própria felicidade.

    Realmente muito obrigada pelo comentário!

    Grande Beijo, Nel. =]

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