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Ode ao amor

7 dezembro, 2008
by

ode-ao-amor

Essa não é a imagem do que foi

não é a imagem do que é nem daquilo

que poderia ter sido, mas a imagem

do nosso futuro que se faz hoje – minuto a minuto,

instante a instante, porque somos assim:

Vida e Continuidade…

Agarramos um sopro e fazemos dele

o fôlego para uma existência inteira.

 

É difícil admitir para si mesmo quando as coisas saem do prumo, quando elas assumem um rumo tão diferente daquele que havíamos planejado para elas. Mas a dinamicidade da vida não se limita aos nossos desejos nem faz dos nossos caprichos o plano de vôo para uma existência feliz. Ao longo de nossa caminhada, seremos feridos e marcaremos também outras pessoas com um pouco de cada parte acessível e impenetrável de nós mesmos.

Quando criança*, presenciei uma cena que acreditava ser reservada apenas para as telas de cinema. Vi Fernanda entrar em casa visivelmente transtornada. Na mão, ela trazia apenas um papel amarrotado e foi para o telefone que se dirigiu. Os cabelos lisos caiam-lhe sobre a face prendendo-se ao rosto vermelho e molhado de lágrimas. Mesmo assim, ela continuava linda no seu vestido verde de festa parecendo uma tela triste que se movimentava por magia de um pintor cruel.

– Passe para Carlos! Agora!

Do outro lado, alguém aparentou se justificar, mas eu escutei somente o que se passava no meu mundo e não naquele universo pouco distante em que o meu primo provavelmente estava.

– Então, seu sacana! Quer dizer que eu cuido dos seus filhos, te dou amor, sou sua mulher; arrumo um sapato emprestado para estar bem e ao seu lado na festa e você não aparece, porque está se deitando com outra, me traindo?

Lembro-me de comentar baixinho com minha mãe: “mamãe, pensava que essas coisas não acontecessem”. Na minha mente, questionava comigo mesma quais razões levariam alguém a ferir alguém que ama de maneira tão profunda. A resposta não viria nem anos mais tarde, mas o passar do tempo ensinaria que existem outras formas, igualmente dolorosas, de marcar uma pessoa.

É possível trair sem beijar na boca, sem fazer sexo ou trocar amor, porque a traição não se restringe aos aspectos físicos de envolvimento entre duas pessoas. Traímos quando alimentamos outro começo antes de encerrar relacionamentos ainda existentes; traímos quando permanecemos já tendo deixado há muito.

E tendemos a barganhar com nossos erros para não nos sentirmos tão culpados esquecendo-nos que, na hora do “sim ou não”, era o nosso arbítrio, e não o do outro, que se fazia presente e capaz de alterar tudo.

Quem se arrisca na empreitada amorosa precisa ter consciência de que as crises fazem parte de um relacionamento – só não podem nem devem ser todo ele. E, quando elas se tornarem o bastante para buscarmos fora o que não obtemos dentro da nossa relação, a hora é de honestidade – antes que o novo aconteça e a dor do fim seja também a dor da decepção.

Se a dor é uma parte inevitável do processo amoroso, mesmo assim valerá amar! Melhor uma vida pontuada do amor e das suas dores do que o vazio de uma existência incapaz de senti-lo e mantê-lo além do interesse momentâneo.

E, desse modo, o fim se faz (re) começo; e as imagens de amor com que nos depararmos já não serão mais as imagens do que se foi nem daquilo que poderia ter sido, mas as imagens do futuro de cada um que não teme começá-lo hoje – minuto a minuto, instante a instante – até o último sempre.

________

* Deveria ter apenas 9 anos.

Querida (o)s,

minha participação deve diminuir consideravelmente daqui por diante. Tenho algumas coisas inacabadas que ainda desejo compartilhar com vocês (um ou outro texto iniciado), mas acredito que o tempo, as atividades e as vicissitudes da vida dificilmente me possibilitarão uma continuidade como gostaria. Seja como for, aproveito esse tempinho mais com vocês. Aliás, agradeço todo o carinho daquela(e)s que escrevem para mim. Sempre leio tudo e respondo!

Um grande beijo em todos e uma excelente semana,

Aranel. =]

2 Comentários leave one →
  1. 8 dezembro, 2008 7:45 am

    “Traímos quando alimentamos outro começo antes de encerrar relacionamentos ainda existentes; traímos quando permanecemos já tendo deixado há muito.”

    Olha, eu sempre tive uma repulsa com traições.. na minha familia td mundo foi infiel, td mundo aprontou.. cresci pensando que jamais faria igual e jamais permitiria que fizessem comigo.. me tornei ciumenta e controladora e isso não me protege de nada!
    É mto triste não poder confiar nas pessoas, é mto triste o respeito e a lealdade terem se tornado tão sem importancia pra tanta gente..

    Um beijo!
    Belo texto!

  2. Star65 permalink
    8 dezembro, 2008 1:18 pm

    Querida Nel
    Mais uma vez o teu texto transborda de sensibilidade…

    “Se a dor é uma parte inevitável do processo amoroso, mesmo assim valerá amar! Melhor uma vida pontuada do amor e das suas dores do que o vazio de uma existência incapaz de senti-lo e mantê-lo além do interesse momentâneo.

    E, desse modo, o fim se faz (re) começo; e as imagens de amor com que nos depararmos já não serão mais as imagens do que se foi nem daquilo que poderia ter sido, mas as imagens do futuro de cada um que não teme começá-lo hoje – minuto a minuto, instante a instante – até o último sempre.”

    Amar é entregar-se sem medo, amar é ser leal e respeitar …como diria Mário de Andrade…Amar Verbo Intransitivo…Filosoficamente, só três coisas são essenciais pra viver: abrigo, alimento e amor…isso é que nos torna humanos…e hoje vivemos em um mundo tão hedonista e narcisista, que esquecemos o fundamental…
    Vou sentir saudades…
    Um grande beijo!

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