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Na cama com Aranel…

9 janeiro, 2009

 

Ou seria no divã?

 

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E eis que Aranel responde tudo… e mais um pouco…

1) Sendo você tão romântica, o que é amor pra você? Qual a dimensão, o significado dele na sua vida?

Não sou uma romântica incurável nem creio no romantismo como algo que precise de “cura” – no sentido usual dessa.

Creio no romance, na “romancização” da vida, mas não consigo perder o norte de uma realidade inegável: somos respostas e provocações.

Anaïs Nin, uma escritora que adoro, dizia: “eu sou o que tu me és”. O contexto era outro, mas o texto não perde sentido quando penso na vivência romântica, porque, mesmo no romance, mudamos conforme a música tocada.

Isso quer dizer que, como amante, procuro ou sou forçada a mudar conforme a própria sonoridade do relacionamento. Posso ser naturalmente doce, amável e companheira em um momento e absolutamente selvagem num instante em que essa condição se faça indispensável.

“Eu sou o que tu me és”, repito sem parar – qual mantra incansável.

Mas e o amor? O que é o amor para mim?

É conjunto e uma coisa só, tudo, nada; pouco, muito… Vejo o amor como o infinito de possibilidades que ele pode ser quando tangível pelos nossos sentidos e sensações. Não gosto de idealizá-lo, mas creio que a idéia dele funciona como um passo inegavelmente importante para a sua concretização. Devo confessar, contudo, que prefiro o amor como o nada ao amor como o tudo na vida. E explico o porquê… Lucien Sfez falava que, dando o tudo ao homem, nada ele cria, mas, diante do nada, o homem seria capaz de criar “tudo“. Certamente, o tudo que ele não tinha antes…

Com o amor, essa dinâmica parece ocorrer também, porque, se o encararmos como o “tudo” da vida, certamente deixaremos de visualizar as outras coisas igualmente prazerosas que ela pode oferecer.

E como seria então esse amor como um “nada“? Seria o amor livre dos enquadramentos que buscamos atribuir a ele para entendê-lo como “amor“; seria algo fluido o suficiente para mudar como a própria pessoa que o sente, algo bem diverso do perfeito e bem mais perto do real.

Posso dizer então que o amor, para mim, possui a dimensão da minha alma – mutável por natureza, inesgotável por necessidade e livre por definição.

2) Amor e sexo andam sempre juntos pra você? Sexo é essencial no amor, ou amor é essencial no sexo?

Amor e sexo não andam sempre juntos para mim, porque a minha libido não se direciona a todos aqueles por quem nutro profundo amor nem se confina somente às pessoas que já amei.

Admito que só fiz sexo com quem amei, mas também não creio ser essencial o amor para que o sexo seja gostoso. Entendo ser possível ter instantes memoráveis de prazer apenas pelo que o prazer em si pode representar. Quanto à essencialidade do sexo em um relacionamento amoroso?

Creio que isso é absolutamente variável. A relação e a intensidade de atração existente entre os amantes determinarão isso naturalmente. No entanto, para mim, a existência do desejo e sua demonstração são fundamentais ainda que não se faça amor todos o dias!

3) Na sua primeira vez você se sentiu insegura? Como foi? Fala aí tudo ou quase tudo que passou pela sua cabeça…

Posso dizer que minha primeira vez foi mágica. Senti-me bastante protegida embora creia que a visão doce do momento se deve mais ao meu modo de olhar e vivenciar tudo em si. Lembro uma coisa gostosa que ela me perguntou entre um beijo e o encaixe… “- Tá tudo bem? Machuquei você?”. Ela sabia que não havia me machucado, estava segura disso, mas a preocupação dela, o olhar calmo, a voz aveludada e cheia de amor, repleta de desejo… Nossa, enquanto viver, esse momento permanecerá e o arrepio será inevitável só pela recordação.

4) Você teve grilos com a sua sexualidade? Como e quando foi a primeira vez que você olhou pra si e disse (assumiu): eu sou lésbica, eu gosto de mulher?

Não recordo nenhum grilo. Sempre tive uma visão sexualmente liberal e até um pouco “libertina” ou transgressora. Diria que tenho um olhar generoso para o sexo, para a sexualidade e para aquilo que pode dar prazer dentro dele. Apenas a vivência disso esbarrou cronologicamente na educação conservadora que recebi. Prefiro dizer que fui para a cama no meu tempo certo, ao invés de crer que esperei tempo demais.

Ah, a primeira vez que olhei para mim e assumi que era lésbica foi após ser beijada pela minha primeira mulher. Aquela boca… Aqueles lábios macios… Aquela língua fria roçando na minha tão quente. Se alguém poderia gozar só com um beijo? Naquele dia, tive certeza que sim. Toquei-a pela primeira vez… Vi como o corpo dela se entregou antes da mente conseguir articular um “não” que racionalmente seria conveniente pelo lugar – estávamos na casa de uma amiga, no quarto dela e com um risco bem alto de sermos vistas pelas pessoas dos outros prédios, descobertas por quem ali morava… Mesmo assim, como parar? Lembro-me de ter sido jogada na parede do banheiro por ela… Olhei no espelho, sorri e intimamente já sabia: eu gostava, e como gostava, de mulher!

5) Como alguém conquista o coração da Nel?

Hoje? Acho tão difícil alguém conquistar meu coração… Não diria impossível, mas algo que requereria um esforço hercúleo para conquista ou reconquista dele e não creio na paciência como uma virtude ordinária nos dias atuais. A verdade é que deixei de acreditar em coisas que sustinham a minha tão peculiar visão afetiva e acho que apenas o tempo será capaz de dar um novo significado a cada uma delas.

Posso, entretanto, elencar as qualidades que aprecio numa amante… Inteligência, generosidade, determinação e o principal: personalidade forte. Tenho um gênio que precisa se manter constantemente em contato com outro bem sólido para a troca acontecer sem imposições e como fruto do convencimento, do poder de convencimento. Aprecio quem tem a capacidade de me dobrar… É muito raro conseguir isso.

Ah, há um “PS.”: para conquistar “o coração da Nel” ou para viver um grande amor do Vinícius de Moraes… Olha só… (risos) … Quem diria? Eu falando em terceira pessoa (boas risadas). Para conquistar ou manter “o coração da Nel”, convém, além de tudo aquilo que já disse, gostar muito de fazer amor, porque ela realmente ama isso e não apenas para dar uma “gozadinha“. Uma namorada vivia me chamando de “tarada!”… nem imagino o porquê… Lá, lá, lá…

Deixando a brincadeira de lado, entendo que não existirão fórmulas para o sucesso – seja nessa ou em qualquer outra empreitada amorosa.

Não gosto de fórmulas miraculosas ou manuais de instrução para o amor, para definir um bom amante. Por mais úteis que sejam, baseiam-se em um enquadramento a um modelo supostamente pré-concebido de sucesso. Pode ser útil, mas perde a espontaneidade. No lugar das fórmulas e manuais, prefiro o esforço diuturno para fazer valer a pena. No fim mesmo, sempre acho que a famosa “química”, o indispensável “encaixe” é que serão determinantes. Tudo mais é uma questão de ajuste, reajuste e redução ou a falta de tudo isso que conduzirá fatalmente a um fim.

6 ) Você já teve relacionamentos heteros? O que mudou pra você do homem para mulher?

Sim, já beijei garotos. Não me envergonho de não ser sangue azul (mulher que só possui experiências lésbicas). Já, inclusive, amei um garoto, mas nunca fui para a cama com nenhum. Posso dizer que a mudança principal foi a seguinte: após a primeira mulher, minha vontade de estar com homens restou depauperada demais, ao passo que a minha necessidade evidente de estar com “a mulher” foi elevada à enésima potência numa razão infinitesimal. Acho que deu para entender, né?

7) Quais os maiores e melhores prazeres pra você? Aqueles indispensáveis!

Extraio prazer das coisas mais simples. Pode ser olhar o mar, ver a chuva cair, o nascer do sol e a queda dele numa entrega para a noite. A simplicidade me atrai muito. Gosto de escutar a voz da pessoa que amo chamando meu nome, de ler um bom livro, adormecer enroscada, ouvir uma música adequada ao momento, cozinhar e ser mimada com alguma iguaria feita especialmente para mim. Sou uma criança recebendo presentes (amo receber cartões e escritos), mas gosto mesmo de dar, de me doar inteira e única como sei que sou. Tenho uma visão relativamente epicurista do prazer, porque realmente o encaro como um soberano bem, contudo nunca ponho de lado o definitivo pelo passageiro por um instante de prazer. Há coisas e pessoas na vida que são tão especiais que a noção de essencialidade antecede meu ímpeto de abandono quando o caos eventualmente se instala. Costumo ser a última a deixar os campos de batalha e, não raro, ganho marcas profundas fazendo isso. Mesmo assim, continuo pensando que “Deus ao mar o abismo e perigos deu, mas foi nele que espelhou o céu” – e como amo essa visão celestial espelhada em algo tão simbólico como o mar. Só Fernando Pessoa para conseguir isso…

Ah, tem duas coisas prazerosas pelas quais me vendo facilmente. Nada relacionado ao sexo (risada divertida).

Existem duas bolas de sorvete em sabores especiais que abrem as portas para um sorriso meu (só não conto quais são os sabores) e tem os famosos palitos de chocolate que podem ser ardilosamente substituídos por aqueles tubinhos de sorvete. Tem gente que se vende fácil… Olha como eu sou difícil! (risos).

8 ) Como você explora sua sexualidade, o seu desejo?

Você não sabe? Ah, pensei que soubesse, menina… Brincadeira.

Exploro de todas as formas possíveis. Das previsíveis às inimagináveis. Gosto de me imaginar como um grande clitóris… Tudo bem… Exagero? Não, apenas uma maneira de explicitar que sou extremamente sensorial e meu corpo absolutamente receptivo ao prazer. Adoro a descoberta do novo na outra e a revelação disso como um encontro com algo ainda não percebido em mim mesma.

A verdade é que não tem como dizer isso aqui. Só fazendo mesmo. Somente posso assumir que não costumo apresentar limitações… Pronto. É isso.

9) Você tem algum tipo de pudor ou tabu?

Não recordo nenhum no momento. Principalmente se o assunto for sexo. Claro que tem coisas que surpreendem, mas faço e acabo gostando muito. Tem um “sobe… Esfrega…“ que sempre vão povoar as minhas lembranças secretas. Então nem vou aprofundar o assunto.

Ah, se adultério fosse um tabu ainda (não acho que seja), então seria retrógrada nesse ponto. Abomino a traição – apesar de me considerar humana e, portanto, absolutamente apta a cometê-la também.

10) Existe a palavra nunca e jamais no seu vocabulário sexual?

Jamais. (boas risadas).

***

Minhas… Meus,

Então… Demorou para sair esse meu “No divã”, mas… Saiu. Essa é apenas a primeira parte e espero mesmo que tenham se divertido com ela. Quem sabe não compartilho o segundo momento logo. =]

Beijos e beijos,

Aranel.

 

14 Comentários leave one →
  1. 9 janeiro, 2009 3:45 am

    A sensibilidade brota dessa pessoa 😛
    Devo dizer que já tinha lido e já fiz meus comentários para ela, vim aqui apenas para manifestar publicamente a minha admiração.

    Bjos 😉

    • 10 janeiro, 2009 8:19 pm

      Pucci,

      Huxley e seu Admirável mundo novo…
      A boa poesia e uma musicalidade rica pela simplicidade despreocupada.
      Acho que tudo isso faz de você uma exceção e um olhar diferenciado. E, por tudo isso, só posso afirmar-me absolutamente regozijada pelo que despertei em você. Obrigada pela “mão”, pelo segredo na forma de palavra e pelo carinho especial pré-existente.

      Beijos! =]]]]

  2. 9 janeiro, 2009 6:06 pm

    Sábias palavras! E de um bom gosto irredutível. Um divã pra ser apreciado com capuccino ao lado.

    • 10 janeiro, 2009 8:09 pm

      Prisccila,

      Hummm… Amo capuccino. Confesso que um de meus sonhos é me tornar, só por prazer, uma boa barista. Se você associou o que leu a algo tão prazeroso, meu dia ganha mais sabor por isso. Beijos.

  3. Amanda Andrade permalink
    9 janeiro, 2009 6:28 pm

    adorei!

    estou ansiosa pela segunda parte para conhecer um pouco mais dessa pessoa que admiro e tenho uma carinho enorme a tantoooo tempo!!

    Bjão, Nel! 😉

    =]

    • 10 janeiro, 2009 8:03 pm

      Amanda,

      Logo, logo postarei a segunda parte! Bom mesmo que gostou do que leu! Bj.

  4. 10 janeiro, 2009 9:22 am

    UAU
    Estou no Divã, esperando pela segunda parte!

    BEIJO

    • 10 janeiro, 2009 8:00 pm

      Xuxuca…

      No divã? Esperando? Não por muito tempo! Logo posto a segunda parte! Bom que gostou! Até lá, fica confortável nele! Beijo!

  5. Té Pazzarotto permalink*
    10 janeiro, 2009 3:56 pm

    Não é que você respondeu?!
    Depois de mais de 4 meses…rs
    Apesar disso, valeu a espera e, como já imaginava: excelentes respostas.

    =**

    • 10 janeiro, 2009 7:51 pm

      Té…

      Pois é… Tem quem demore um pouco para fazer o que os outros pedem, mas faz. Que bom que gostou. Foi fácil e rápido responder quando finalmente tive condição de “respostar” suas perguntas – eram excelentes também.

      =**

  6. 13 janeiro, 2009 10:14 am

    Incrível Nel!
    adorei cada palavra!

    Bjokas

  7. 18 janeiro, 2009 3:13 am

    Que maravilha, Taty! Fiquei muito alegre em saber! Beijocas!

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