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Visibilidade lésbica

12 fevereiro, 2009

desenho

Lésbicas sim!

DIREITO À VISIBILIDADE LÉSBICA

Alfredo Boneff
(IBASE)

Nas passeatas os holofotes, invariavelmente, incidem sobre personagens ditos engraçados. Aqueles que emprestam irreverência às primeiras páginas dos jornais e encerram com suposta leveza o noticiário de TV que antecede o dramalhão da vez. Nada contra alegria e bom humor, mas chama a atenção o automatismo da imprensa na cobertura de manifestações homossexuais. Neste exercício crônico de reforço dos estereótipos, é como se determinados grupos, simplesmente, não existissem.

As lésbicas se encaixam neste limbo da omissão deliberada. Mas, ao largo da exuberância tão ao gosto das lentes bitoladas, elas vêm trabalhando para dar amplitude às suas ações. Na contramão da atividade entorpecedora da mídia, a Semana da Visibilidade Lésbica, que termina hoje, funcionou como importante fórum de reflexão das iniciativas e dos rumos a serem seguidos pelo movimento.

Esta é a avaliação de entidades organizadoras como o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (Colerj) e a ONG Felipa de Souza, principalmente no que se refere à reivindicação por políticas públicas e do trabalho por mais espaço e ressonância. Uma batalha contínua, mas que ganha significado especial neste 29 de agosto, quando se comemora o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
Nos últimos oito anos, várias iniciativas contribuíram para que o movimento de lésbicas tivesse mais reconhecimento e, conseqüentemente, avanços. Um marco nesta trajetória foi o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), realizado no Rio de Janeiro, em 1996, que reuniu cerca de 100 mulheres. Desde então, já foram realizadas outras quatro edições, sempre enfatizando temas como saúde e a ausência de políticas oficiais que contemplem o segmento. A mais recente aconteceu em junho deste ano, em São Paulo. O próximo Senale será sediado em João Pessoa, em 2005.

A conquista de visibilidade é tema recorrente para as militantes. Para várias delas, a atuação desequilibrada e por vezes superficial dos veículos de comunicação não passa despercebida. “Acho que a mídia contribui para que o movimento gay tenha visibilidade maior do que o de lésbicas. Nas passeatas, o foco é sempre nas drag queens, nos gays. As lésbicas dificilmente têm destaque. Basta dizer que o dia 28 de junho é conhecido mundialmente. Mas ainda não vi os jornais falarem sobre o 29 de agosto”, diz Cláudia Machado, diretora-executiva do Colerj, referindo-se ao Dia do Orgulho Gay. Criado em 1995, o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro é um programa da ONG Coisa de Mulher e vem abordando diversos temas relacionados às questões das mulheres, principalmente das afrodescendentes.

Diretora-executiva da ONG Felipa de Souza, fundada em 1998, Rosângela Castro analisa alguns pontos que, na sua opinião acabaram por impedir maior amplitude às ações do movimento de lésbicas. “Em certo momento ? e esta é uma avaliação que não vejo como positiva -, a questão da Aids deu mais visibilidade ao movimento homossexual masculino. Mesmo porque a maioria estava em grupos mistos. E nós, lésbicas, estávamos junto com os gays na luta, na prevenção e nas perdas. Retomamos nossas questões específicas a partir de 1995. O surgimento de novos grupos de lésbicas, em comparação a outros movimentos, foi considerável. Em 2003, no encerramento do 5º Senale, fizemos a primeira passeata de lésbicas, que considero um fato muito importante”. Atualmente, cerca de 20 grupos no Brasil atuam, especificamente, na defesa dos direitos das mulheres homossexuais.

Políticas

Seminário com apresentações de diferentes vivências dentro do movimento, exibição de um documentário e de um longa metragem ficcional, além do lançamento de uma revista, fizeram parte da programação da Semana da Visibilidade Lésbica, no Rio de Janeiro.

Numa das apresentações, a coordenadora geral da Associação Lésbica de Minas Gerais (Além) e organizadora da marcha do orgulho LGBTT (Lésbicas, Gays, Bisexuais, Transexuais e Transgêneros), Soraya Menezes, mencionou conquistas como o primeiro Encontro de Lésbicas Mineiras, em 2000, e o projeto de lei anti-discriminatória já aprovado no estado. Soraya concorreu ao Senado em 2002, na primeira candidatura assumidamente lésbica a esta instância de poder na América Latina. Embora não tenha sido eleita, sua tentativa representa uma vitória para o movimento.

Em seu pronunciamento, a deputada estadual do PT e presidente da Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, Cida Diogo, enfatizou a necessidade de promover o debate das questões lésbicas na educação, saúde pública e segurança. “É preciso incorporar à educação o tema da opção sexual e haver uma outra política de saúde. Há um tratamento diferente, uma discriminação no atendimento a mulheres heterossexuais e homossexuais. Os profissionais não estão preparados. Além disso, as lésbicas ainda são vítimas de violência”.

A deputada aponta a importância do trabalho dos grupos organizados “para que a sociedade deixe de ser hipócrita e permita que as pessoas tenham livre arbítrio”.

Além dos debates, a Semana da Visibilidade Lésbica incluiu o lançamento da revista “Bocas no Mundo”, da Articulação de Mulheres Brasileiras, com diversos artigos abordando temas como sexualidade, preconceito e cidadania.

Também foi exibido o filme canadense “Quando a noite cai”, de 1994. O roteiro narra a trajetória de Camille, professora de um colégio protestante que percebe seus autênticos desejos ao conhecer uma artista de circo. “Este é um filme de temática lésbica com final feliz. É um marco”, analisa Rosângela Castro.

Religiosidade

Aspectos religiosos também foram abordados no seminário. Cláudia Machado, do Colerj, falou sobre o tema “Lésbicas e religiosidade”. Ex-integrante da Assembléia de Deus, ela fez parte do Movimento Pela Sexualidade Sadia (Moses) organizado por esta vertente do protestantismo para “recuperar” homossexuais. “Fui uma mulher que tentou se libertar da homossexualidade. Acreditando estar liberta, evangelizei muitos homossexuais. Dizia que não era coisa de Deus, mas do demônio. Mas não entendia por que estava falando coisas que não sentia”, lembra.

O longo processo de negação de sua orientação sexual foi doloroso, mas teve como resultado o reconhecimento de sua condição. “Fui a primeira-secretária do Moses. Lia a Bíblia e os livros evangélicos, mas não encontrava resposta para a minha orientação. Um dia ajoelhei, comecei a orar e falei: ‘Senhor, obrigada por eu ser lésbica’. Parei de pedir para ser libertada. Isso não é demônio, não é doença. É um sentimento bom pra caramba. É amor, carinho e compreensão”. Cláudia conheceu sua companheira há cinco anos, durante o 5º Encontro de Lésbicas da América Latina e do Caribe.

O recente documento publicado pela Igreja Católica, condenando a união entre pessoas do mesmo sexo é outro tema que não escapa às críticas das lésbicas. “São dogmas muito rígidos, a Igreja fala de uma maneira arcaica sobre sexualidade e pega trechos isolados da Bíblia para dar respaldo à condenação”, diz Cláudia.

No evento comemorativo pelos seus10 anos de atuação no Brasil, realizado no último dia 22, a ONG Católicas Pelo Direito de Decidir reuniu debatedoras como a teóloga americana Mary Hunt, que abordou o tema “Desafios da diversidade sexual em tempos de ultra conservadorismo”. Feminista e lésbica, Mary Hunt é co-diretora da Aliança de Mulheres em Favor da Teologia, da Ética e do Ritual. A teóloga criticou a opressão de um pensamento patriarcal dominante ao longo da história e “a insistência num único modelo de igreja, numa única maneira de abordar as questões”. Para ela, o caminho do movimento católico feminista está na convivência harmoniosa de diferentes pontos de vista. “É nesta diversidade que consiste ser católico no novo milênio. Trata-se de uma mudança na dinâmica do poder”.

Mulheres apaixonadas

O casal de adolescentes lésbicas da novela “Mulheres Apaixonadas” é outro assunto que merece a atenção do movimento. Entre severas críticas e elogios, elas analisam a abordagem do autor Manoel Carlos. A assessoria do novelista chegou a ligar para o Colerj para saber a opinião de representantes da entidade. Elas criticaram o fato de as meninas não se tocarem e não compartilharem as dificuldades de levar adiante a relação.

Em outra entrevista a respeito da novela, desta vez à revista “Marie Claire”, Cláudia Machado foi contundente. “Se eu estivesse querendo assumir a homossexualidade e me deparasse com as cenas que estavam sendo apresentadas na época, não assumiria. Iria me trazer medo, insegurança”, afirmou.

No entanto, há aspectos positivos a serem levados em conta. Para Rosângela Castro, a não aceitação da orientação sexual por parte da mãe da personagem Clara está bem retratada. Mas ela percebe defeitos. “Como são duas adolescentes de classe média, na visão geral parece que é uma relação meio irresponsável. Mas eles abordam muito bem a exclusão familiar. E há outro ponto positivo: parece que elas não vão morrer, não vai ter explosão de shopping”, ironiza Rosângela, lembrando a novela “Torre de Babel”, de 1998. Na obra de Sílvio de Abreu, um casal de lésbicas – entre outros personagens -, morreu na explosão de um shopping center.

Na época, o então arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eugênio Sales, enviou documento à imprensa criticando o teor da novela. Ao final do texto, deixava no ar uma espécie de ameaça aos propagadores de assuntos como “homossexualismo, lesbianismo, crimes, infidelidades, aborto etc”: “Os responsáveis darão conta a Deus e também aos patrocinadores e até os que os sintonizam, pelo apoio financeiro ou moral que dão a essas mazelas”.

A violência da invisibilidade

Na abertura da Semana da Visibilidade Lésbica, a exibição do documentário “Histórias Lésbicas”, de Maria Angélica Lemos, trouxe à tona as inúmeras faces da violência enfrentada pelas mulheres homossexuais.

Depoimentos fortes mostraram o quanto é fundamental a luta pelo respeito à livre opção sexual. A moça discriminada pela aparência e quase agredida por um segurança ao utilizar um banheiro feminino; a mulher cujo ex-marido entrou na justiça para requerer a guarda da filha, alegando para isso a homossexualidade da esposa; a lésbica estuprada a mando do pai de uma ex-namorada e que perdeu a criança aos seis meses e meio de gravidez.

Situações brutais, de uma intolerância absurda. Dramas reais que só deixarão de ocorrer à medida em que o movimento se fortaleça cada vez mais. Para Cláudia Machado, trata-se de um trabalho árduo, que implica em superar preconceitos consolidados. “A sociedade nos discrimina. O sistema de saúde nos discrimina. A Igreja nos discrimina. Temos que trabalhar esse lado preconceituoso. Os estereótipos precisam ser quebrados”, aponta.

Na condição de militante, Rosângela Castro conhece as dificuldades para superar tais obstáculos. Seu diagnóstico da situação das lésbicas é tão simples quanto preciso.

“A maior violência contra nós, lésbicas, é o fato de ainda estarmos invisíveis”.

 

Fonte: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/06/283142.shtml

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Isso é um convite a reflexão.

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3 Comentários leave one →
  1. Té Pazzarotto permalink*
    12 fevereiro, 2009 5:56 pm

    É antigo, mas continua pertinente, logo…

    =)

  2. Hérika permalink
    12 fevereiro, 2009 6:09 pm

    “A sociedade nos discrimina. O sistema de saúde nos discrimina. A Igreja nos discrimina. Temos que trabalhar esse lado preconceituoso. Os estereótipos precisam ser quebrados”
    Concordo em gênero número e grau.Precisamos trabalhar e sem cessar, para combater essa discriminação que nos persegue no dia a dia.Acima de tudo somos mulheres e integrantes da sociedade, por isso principalmente merecemos respeito.

  3. 7 abril, 2009 11:57 am

    cristiane vo lesbica verdade ok.

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