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Homossexuais ganham novos direitos em escolas públicas

14 maio, 2009

salaaula

 

Elaine Vieira
evieira@redegazeta.com.br
Maurílio Mendonça
mgomes@redegazeta.com.br

12/05/2009 – 00h00

Aos 17 anos de idade Maycon assumiu ser Bia. Tomava hormônios para mudar seu corpo há pelo menos um ano. Mas o armário ainda estava em transformação. “Depois de trocar todas as roupas, me senti completa”, lembra a transexual Ana Beatriz Caser, hoje com 25 anos. Só que manter o figurino feminino em um corpo ainda masculino causou estranheza. Com medo, Bia largou o ensino médio.

Para evitar que histórias como essa se repitam, os homossexuais começam a ganhar mais direitos dentro e fora da escola, pelo menos em Vitória. A prefeitura quer que os travestis possam utilizar seu nomes sociais – pelo qual preferem ser chamados de acordo com sua escolha sexual – tanto em escolas quanto em unidades de saúde.

“Além disso, eles também poderão utilizar o banheiro feminino e se vestir como quiser, nos casos em que não é obrigatório o uso de uniforme”, aponta a gerente de Direitos Humanos de Vitória, Dorvalina Oliosa.

Atualmente, quatro ex-alunos da rede municipal estenderam o direito de ter seus nomes sociais registrados na chamada de outras instituições. Dois atualmente estão no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), um em uma faculdade e outro em escola pública estadual. “É constrangedor tanto para o aluno quanto para quem o atende chamar por João e se deparar com Maria”, exemplifica Dorvalina.

Se der certo, a política de Vitória vai entrar para a vanguarda do movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (LBGT). Atualmente há poucas experiências do gênero. Nas redes de ensino estadual do Pará e de Goiás, já há portarias que preveem o uso do nome social, e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) um ato administrativo já permite o uso do banheiro feminino por travestis.

Escondida
Se tivesse podido contar com essa aceitação, a história de Bia teria sido diferente. Depois de um ano e meio sem estudar, ela voltou à escola. “Não podia ficar sem estudo. Como não era aceita, me desfiz do guarda-roupa”.

Ela vestiu uma calça jeans larga, camisa de malha, tênis, tirou a maquiagem, os brincos e cortou o cabelo. “Perdi minha identidade visual. Mas sabia que isso ia ser passageiro e que logo depois tudo voltaria ao normal. Mudei para o meu futuro. Agora sonho em fazer faculdade de designer de moda”, comemora.

Treinamento contra a homofobia
Para evitar a evasão escolar de homossexuais e garantir que eles sejam respeitados dentro da escola, a Prefeitura de Vitória iniciou na última semana um curso de 16 horas voltado para 400 diretores, pedagogos e coordenadores das escolas municipais. O curso foi elaborado e será gerenciado pelo Centro de Atendimento às Vítimas de Violência e Discriminação (Cavvid). A coordenadora do Cavvid, Maria José Scárdua, explica que a capacitação não dará “receitas” de como lidar com situações de homofobia. “A gente quer despertar a atenção desses profissionais para esse tipo de situação”. O Programa Vitória Sem Homofobia deve depois ser estendido para professores e hoje já realiza trabalhos dentro e fora da escola.

Preconceito até com quem ensina
Aos 29 anos e homossexal assumido, Luiz Cláudio Klaim sofre um novo tipo de preconceito. Antes, como aluno, era humilhado, espancado no pátio da escola e até perseguido quando ia ao banheiro. Hoje ele houve chacotas e xingamentos, também na escola, mas na visão de professor.

Klaim é um dos capacitadores do curso promovido para 400 profissionais de educação do município de Vitória. Ele sabe bem o que é homofobia em sala de aula. Chegou a perder um emprego por conta de sua sexualidade.

“Logo que entrei na escola a coordenadora me questionou se eu conseguiria dominar a sala, ter disciplina. No final do ano, a constatação: disse que eu não teria conseguido passar o conteúdo aos alunos. Para minha surpresa, os alunos não queriam minha demissão, mas foi mantida, mesmo assim”, relata o professor.

Atuando em escolas da rede pública estadual, com jovens acima dos 14 anos, Klaim ainda sofre com preconceitos. “Prefiro não me incomodar com isso. Meu trabalho é em sala de aula. Se eles fazem piadinhas ou insinuações sobre mim não ligo. O respeito vem com o tempo e reconhecimento”, frisa.

20 anos de espera pelo curso superior
Depois de 20 anos fora da sala de aula, Even Oliveira, 44 anos, não perdeu a oportunidade e se matriculou num curso particular de pedagogia. A aparência feminina, com a ajuda de três anos de hormônios no corpo, fortalece o nome social adotado por Evandro ainda em 1987, dois anos depois de sair do ensino médio.

Hoje, Even se lembra dos apertos e preconceitos que a fizeram optar pelo silêncio como esconderijo. “Eu acreditava que tudo ainda era dúvida. Mas na verdade eu queria era esconder. Tinha vergonha e medo do que eu era, principalmente do que os outros iam pensar ou fazer”, relata a estudante.

Mas Even encontrou em outras amigas a força que faltava para aceitar sua transexualidade. “Procurei ajuda terapêutica e conversava com amigas”, conta. Ao passar dos anos, veio a coragem de fazer a cirurgia definitiva, mudando o sexo. “Mas ainda não fui chamada. Continuo na lista de espera”, frisa.

Na faculdade, Even se diz realizada. “Sou chamada em sala pelo meu nome social, uso o banheiro feminino e não passei por situação constrangedora. Acho que, por ser um curso majoritariamente feminino, me sinto mais à vontade e elas também”, comenta.

Vitória é a capital mais homofóbica
Histórias como as de Bia, Even e Luiz Cláudio, que sofreram com o preconceito na escola, são mais comuns do que deveriam, principalmente em Vitória, considerada a capital mais homofóbica do país.

Segundo a pesquisa Juventudes e Sexualidade, feita em 2004 pela Unesco, 44,9% dos meninos capixabas não querem um colega homossexual ao seu lado na sala de aula. A média nacional é de 40%.

Mas o preconceito não se resume aos alunos. Na mesma pesquisa, 29,6 % dos pais entrevistados em Vitória não querem que seus filhos tenham um colega homossexual na turma. Entre os professores, 2,1% assumiram que não gostariam de ter alunos homossexuais.

São essas pessoas que afastam os gays das escolas. “Não há dados específicos, mas professores e integrantes do movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (LBGT) relatam experiências de meninos e meninas que saíram da escola por sofrerem desrespeito à sua sexualidade”, ressalta Dorvalina Oliosa, gerente de Políticas de Direitos Humanos da Secretaria de Cidadania (Semcid) de Vitória.

Segundo a gerente Dorvalina, os efeitos desse preconceito podem ser medidos, além da evasão escolar, pelo grau de escolaridade de travestis e gays assumidos, normalmente mais baixo do que na média da população.

Análise

Descoberta, desejo e discriminação
Lorena Meneguelli Batista – Sexóloga
Existem vários tipos de repressão: a social, a familiar, mas também a da própria pessoa. Há quem prefira se enganar, se iludir, a vir perder amigos, familiares, ser expulso de casa, com medo do que lhe pode acontecer ao assumir a sexualidade. Mas essa identidade uma hora ou outra há de aparecer. Enquanto há teorias de que a homossexualidade é genética ou depende da educação que a pessoa recebe, eu defendo a existência de um terceiro sexo. Homens e mulheres heterossexuais são os dois sexos que a ciência reconhece; eu, assim como outros, avalio a homossexualidade como o terceiro sexo. Quando você ama alguém, você ama o ser humano que ela é. Uma experiência homossexual não te fará um homossexual. A construção da sexualidade começa aos sete, oito anos. É cedo falar que ainda criança haverá desejo sexual, mas haverá uma descoberta, seja ela heterossexual seja ela homossexual. É na adolescência que vem à tona, com a descoberta do corpo, o reconhecimento no outro, o desejo. Mas também vem o preconceito.

O fim da ‘piadinha’ nas escolas
Vera Simonetti – Socióloga e coordenadora da Ecos – Comunicação em Sexualidade
É mais do que urgente em nossa sociedade a desconstrução das relações de gênero assimétricas que legitimam discriminações, entre elas a homofobia. Dentro desse quadro de homofobia manifestado pela violência, preconceito e discriminação sofridas pela população LGBT e que envolve toda a comunidade escolar, há depoimentos que sugerem que a escola é um espaço onde se pode e deve desconstruir o preconceito. Como isso pode ser feito? Cortando na hora aquilo que o senso comum avalia como “só uma piadinha” ou “só uma brincadeirinha”. Independente de quem seja essa opinião. Quantas alunas e quantos alunos deixaram de frequentar as escolas por serem alvo de desprezo e hostilidade? Programas de educação sexual precisam ser implementados nas escolas dentro do projeto pedagógico, com ações continuadas. Tem que ser persistente, pois relações assimétricas de gênero construídas durante séculos não são fáceis de desfazer e nem serão desfeitas em pouco tempo.

Fórum do leitor: As escolas estão preparadas para lidar com o homossexualidade?

Fonte: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2009/05/512611-homossexuais+ganham+novos+direitos+em+escolas+publicas.html

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Valeu pela notícia Renata J.

3 Comentários leave one →
  1. Aluna permalink
    14 maio, 2009 7:14 pm

    mto massa essa iniciativa
    a gnte ainda ve mt, mt mesmo esse preconceito na escola, na faculdade, no ambiente de trabalho e tals

  2. 14 maio, 2009 8:25 pm

    post muito bom.
    Beijos

  3. # Meninna permalink
    29 maio, 2010 9:21 am

    Meu Deus!
    É por essas e outras que eu pretendo não me assumir tão cedo! Mesmo que eu não tenha sofrido nenhum tipo de preconceito relacionado a minha sexualidade (pelo fato de não ser assumida!), eu sei bem o mundo preconceituoso em que vivemos!
    Vou para o Ifes o ano que vem, e não quero sofrer nenhum tipo de preconceito. Pena que infelizmente para não sofrer desse preconceito temos que ter nossa verdadeira sexualidade ‘escondida’.

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