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Filho, eu sou gay

28 maio, 2009

mpfilhos

Cláudia Feliz
cfeliz@redegazeta.com.br
24/05/2009

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Eles amaram suas mulheres; ela amou seu marido. E tiveram filhos com eles. Até que o casamento e o longo namoro acabaram, e chegou o momento em que a garotada teve que lidar com uma verdade: seus pais eram homossexuais.

Emílio Afonso Carrilho, 48 anos; Fabíola Colares, 34; João, 45 anos; e José, 46 (os dois últimos nomes fictícios), são protagonistas dessa história. Três pais e uma mãe legítimos que, em determinado momento de suas vidas, viram seus casamentos heterossexuais rompidos. No caso de José, namoros (ele teve uma menina e um menino com mulheres diferentes, com as quais não se casou).

Um número incontável de gays e lésbicas vive “no armário” – como se diz na gíria – durante anos. Vítimas de preconceito da sociedade, só alguns, como os personagens desta reportagem, ousam sair desse armário e revelar sua orientação sexual, não sem antes vivenciar um longo tempo de angústia gerada por uma vida onde não lhes é permitido ser o que são. Nesse período, sofrem e fazem sofrer.

Transparência
“Prefiro o pai ou a mãe que se declaram, mas têm uma conduta moral dentro da sociedade em que vivem.
Pais e mães são os primeiros educadores na vida de uma criança, e ser moralmente bom é o que a sociedade preconiza”, diz o psicólogo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Hiran Pinel.

Revelar-se, acrescenta ele, é saudável. “Se os pais falarem sobre o assunto de forma natural, serão mais amados e mais respeitados pelos filhos”, diz o psicólogo, que, no entanto, recomenda que a revelação se dê com cuidado, diante da inegável repressão hetero da sociedade.

“Uma pessoa pode dizer: ‘Filho, sou gay, mas tenho que mentir porque as sociedade não é boa para os gays’”, diz Pinel, enquanto a também psicóloga Anna Paula Uziel reforça o direito que saber sobre a orientação sexual dos pais. “Mentira, em qualquer situação, sempre causa sofrimento, desconfiança.”

A homofobia existe, não se pode negar, assim como os mitos que cercam a parentalidade, em caso de pais biológicos ou adotivos. Mas gente como Emílio, Fabíola, João e José lutam contra o preconceito enquanto enchem de amor e orgulho seus filhos.

Solteiro, pai de um casal de filhos e libertário
O servidor público federal José, 46 anos, protegido por um nome fictício, é solteiro, mas tem uma filha de 28 anos, que lhe deu duas netas, e um filho de 18, frutos de relacionamentos com duas mulheres com as quais namorou. Os dois relacionamentos, admite, foram motivados por auto-afirmação.

Nunca teve um parceiro fixo, mas sempre namorou homens. Sua filha mais velha morou com ele dos 7 aos 14 anos e precisou se submeter a análise para aceitá-lo como é.

“Seus amigos falavam do meu jeito delicado, diferente, e ela sofria. Mas, depois, superou, e hoje vivemos maravilhosamente bem”, afirma.

Comentário
O filho já ouvia comentários dos parentes de sua mãe sobre o seu pai diferente. Quando, aos 16 anos, veio morar com José, ouviu de sua  própria boca: “Filho, sou um libertário”. Foi o bastante.

“Sou um pai como qualquer outro, que busca o melhor para os seus filhos. As crianças vão crescendo, vendo que o outro é diferente, e tudo acontece naturalmente. Quando minha filha era pequena, eu fazia suas roupas, e ela dizia na escola: ‘Foi meu pai quem fez’. Algumas pessoas achavam estranho, mas ela agia naturalmente, como tudo deve ser”, completa José.

“Aos 20 anos conheci uma mulher com quem namorei por seis anos. Mas ela sempre soube da minha orientação sexual. E aceitava”
José (nome fictício)46 anos, servidor público

Pai e mãe ao mesmo tempo, sem segredo
Há 17 anos, Emílio Afonso Carrilho, 48 anos, é pai e mãe. Ele se viu sozinho, com as filhas Ana Carolina, 23, e Camila, 20, quando elas ainda eram bem pequenas. A mais velha tinha 3 anos; e a mais nova, 1. Na época, sua mulher e mãe das garotas deixou-os, após nove anos de casamento.

A mulher foi embora ao descobrir que Emílio tinha vida dupla. “Sempre fui trabalhador, honesto, mas também sempre fui homossexual”, diz ele, que sofreu muito – quase passou fome – para criar as meninas, mas hoje se diz realizado.

“Conheço casais hetero que não têm uma família como a minha, estruturada”, comenta. De unhas vermelhas, mas vestindo-se como homem – “meu espírito pode ser feminino, mas meu corpo não”, diz – Emílio ganha a vida fazendo faxina em residências e salgados em casa.

Suas filhas orgulham-se do pai “guerreiro”, e avô coruja de Beatriz, 3. Ana tinha 14 anos, quando ele lhe chamou, junto com sua irmã, e comunicou: aquele amigo que frequentava a casa da família era, na realidade, seu namorado. “Decidimos aceitá-lo como é, e vê-lo feliz.” Carolina até brigou na rua, um dia, quando disseram que seu pai era gay. “Nunca aceitei que o desrespeitassem”, diz ela.

“A sociedade nos apedreja”, lamenta Emílio, que ressalta a vida sofrida dos homossexuais. “Onde quer que estejamos, somos discriminados.”
“Já cheguei a ouvir até que eu não era filho de Deus. Por que algumas pessoas na nossa sociedade nos apedrejam?”
Emílio Carrilho48 anos , faxineiro

Assumido depois de 21 anos de casado
Elegante, sofisticado, ele não quer nem mesmo ver revelada sua profissão. Mas o profissional liberal, de 45 anos, residente em Vitória, pai de dois rapazes, não se furta em falar da sua experiência. Casado por 21 anos com uma mulher por quem garante ter sido “apaixonado e fiel”, João (nome fictício), aos 40 anos de idade, começou a reavaliar sua vida.

“Eu me separei no ano passado porque minha família já estava criada – meus filhos têm 16 e 19 anos -; e eu, pronto para suportar o peso de desafiar a sociedade, assumindo minha orientação sexual”, diz ele.
O fato de ter decidido viver “sem máscara”, poder se mostrar, fez esse homem ser aceito pelas pessoas que o cercam. É certo que a mulher reagiu mal, se perguntando: teria ele a traído, com homens, ao longo de todo casamento? João diz que não.

Só nos últimos três anos do casamento conheceu alguns homens ainda “no armário” – como se diz, na gíria –, mantendo vida dupla, e outros já resolvidos.

“Viver a dualidade não me deixava confortável. É arriscado, sofrido. Mas conheço muita gente assim, dos dois sexos”, diz.
Os filhos? João conta que eles reagiram bem. Até conheceram um namorado com quem ele se relacionou por três meses. Agora João já cultiva um novo amor.

“Quando resolvi minha separação, assumi minha orientação sexual. Mas conheço muita gente que vive de aparência por aí”
João , 46, profissional liberal

Com o fim do casamento hétero, paixão
A escritora Fabíola Colares, 34 anos, casou-se aos 21 anos e engravidou três anos depois. Era, então, uma típica jovem mineira, educada para ser dona de casa e mãe. O casamento durou de 1997 a 2004.

Tão logo separou-se, ela conheceu uma mulher numa sala de bate-papo, acessando a internet. A identificação com essa pessoa, que era ainda casada com um homem, foi quase imediata. Pouco tempo depois, elas estavam juntas, e o relacionamento durou um ano e meio.

“Nunca havia me interessado por mulheres. Na época, meu ex-marido levou um susto, e meus amigos também”. Fabíola mora há dois anos com outra mulher e diz que seu filho, atualmente com o pai, sabe da sua orientação sexual.

“Um dia, ele viu minha companheira deitada no meu colo e perguntou: ‘Vocês estão namorando? Mulher namora mulher?’ Eu disse que sim e falei para ele sobre o quanto as pessoas são diferentes. Meu filho saiu para brincar e nunca mais fez perguntas sobre esse assunto”, conta ela.

Ativista do movimento “Homofobia é crime”, Fabíola defende que homossexuais saiam do armário e briguem por seus direitos na sociedade. “Homossexualidade não é crime. Não podem mais nos negar direitos civis. Pagamos impostos, temos as mesmas obrigações jurídicas.” Mas, admite: não gostaria que seu filho fosse gay. “Nenhuma mãe quer que o filho sofra, vítima de preconceito.”

“Um dia, meu filho foi o único da sala a não ser convidado para a festa de um colega. A mãe do garoto não queria uma lésbica na festa”
Fabíola Colares , 34 anos, escritora

Fonte: http://gazetaonline.globo.com/index.php?id=/local/a_gazeta/materia.php&cd_matia=514350

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Mais uma enviada pela Renata J. =)

14 Comentários leave one →
  1. Pazzarotto permalink*
    28 maio, 2009 7:46 pm

    Eu sou a única que gostaria que meu filho(a) fosse homo? ^^

    • Renata permalink
      29 maio, 2009 9:48 am

      Pra mim tanto faz. Desde que ele seja feliz e saudável… E eu tenho q começar a me programar para o projeto filho… Dúvida: doutorado ou filho primeiro? rs

  2. Mara permalink
    28 maio, 2009 10:38 pm

    Eu confesso que não tenho uma preferência.
    Acredito que o que determina se um filho(a) hmossexual irá sofrer ou não é a maneira como é criado, se tem apoio, amor…
    Fica mais fácil enfrentar o mundo assim em qualquer situação!
    Preconceito, em maior ou menos proporção todos nos sofremos.

    Ahhh adoro este vídeo!
    Té, será que isso vai acontecer com você?

    Brincadeira viu?
    Bjo bjo

    • Mara permalink
      28 maio, 2009 10:39 pm

      Perdão pelos erros de digitação.
      😦

    • Pazzarotto permalink*
      28 maio, 2009 10:50 pm

      Adorei!!!
      Se acontecer tá td ok… E tbm penso q ser gay ñ é sinônimo de ‘sofrimento’.

  3. 10 junho, 2009 1:08 am

    ~Eu sou lésbica… tenho um filho de 17 anos, que me aceita naturalmente, embora nossa relação não seja das mais exemplares, mais acredito que caso ele fosse gay e ” estilizado” eu seria descontente.. até pq vejo meus amigos como sofrem agressões de grande maioria verbais e diárias… Uma espécie de humilhação ou tortura psicologica constante .. Infelizmente a realidade é essa.

  4. Lola permalink
    12 outubro, 2012 9:48 am

    Sou bi.. Estou casada mais namoro uma mulher e ela me faz muito feliz! Nos duas temos a mesma idade 22 anos. Penso em deixar meu marido mais tenho medo pela minha filha de tres anos q pode sofrer com isso! Oq faço?

    • 22 outubro, 2012 3:02 pm

      Faça o que seu coração lhe sugerir. É piegas, mas é válido. Independente de sua decisão, boas conversas com filhos às vezes diminuem os problemas. Reflita bastante. E caso você decida se separar, faça por você mesma e não em nome de um relacionamento.
      Boa sorte!

  5. Lola permalink
    31 outubro, 2012 8:30 pm

    obg pelo conselho! Vou seguir meu coraçao… Espero que ele nao se engane pq to cansada de sofrer por amor.

    • 1 novembro, 2012 11:02 am

      Vá com calma. Lembre-se que suas decisões influenciam diretamente a vida de pelo menos 3 pessoas. Respire fundo, dê um passo de cada vez, juízo e boa sorte!

  6. Lola permalink
    3 dezembro, 2012 6:43 pm

    Continuamos juntas… Ela casada e eu tbm! Espero que logo logo as coisas se acertem.. Agora que tive ela nos meus braços nao quero perde la nunca mais. O que eu sinto por ela é algo incontrolavel que me domina completamente. Obg pelos conselhos! Ate + bjs

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