Skip to content

Por um namoro sem território

23 junho, 2009

md

A Gazeta 07/06/2009
por: Carol Scolforo/ transcrito por Renata J.

.

Ninguém estranha ver pares de namorados se beijando, andando de mãos dadas ou escancarando chamegos no shopping, no aeroporto, no restaurante. Mas se ambos forem do mesmo sexo, o mundo para pra ver.

E aí entra aquela velha questão, que muitos preferem nem trazer à tona: por que os casais homossexuais não têm o direito de namorar como os héteros? Por que ainda enfrentam olhares e até mesmo xingamentos quando caminham de mãos dadas, se abraçam ou se beijam em público?  Afinal, temos todos os mesmos direitos? Ou não?

O advogado e professor de direito constitucional da FDV (Faculdade de Direito de Vitória) Kaleb Salomão garante que sim. “A constituição brasileira assegura a liberdade de expressão, mas a sociedade brasileira não está moralmente preparada para ver um beijo homossexual”, observa ao mesmo tempo que garante: “Apesar disso, uma cena de namoro gay não pode ser considerada um ato obsceno na visão do direito. O direito não interfere em uma expressão de carinho entre pessoas do mesmo sexo”.

O direito assegura, mas em função do preconceito, a maioria dos casais opta por não beijar. Mas há quem não concorde com isso. “Como militante do movimento de lésbicas no Estado, eu beijo mesmo minha namorada. Para garantir meu espaço”, diz a mestre em educação Ariane Meireles, 43, há 6 meses apaixonada por Rosa Posa, também de 43 anos.

Ariane não mede carinho. Beija no aeroporto, anda de mãos dadas em todo e qualquer lugar, deita no ombro de Rosa no barzinho, como héteros fazem por aí, sem receber olhares maldosos. “Quando andamos de mãos dadas no aeroporto, as pessoas ficam imobilizadas. Olham. Olham. E olham de novo”, conta Ariane, que hoje, dá de ombros a esse comportamento. Já Rosa é diferente. Prefere medir os carinhos porque acredita que as pessoas podem encarar como uma afronta. Ariane continua descordando.

Casais homossexuais contam como se comportam em lugares públicos

Acho que o casal gay não pode deixar de fazer aquilo que tem vontade – dentro dos limites, é claro – assim como fazem os héteros.

“As pessoas têm medo de sair comigo pra barzinhos. A dona de um bar já pediu para pararmos de nos beijar, em Itaparica, porque os clientes estavam incomodados. Como minha namorada pediu pra não arranjarmos confusão, fiquei quieta”.

Ariane reconhece que seu comportamento é uma exceção, e vai além do medo que os homossexuais têm de demonstrar afeto no meio da multidão de olhares.  Exatamente por isso ela ousa.  “Já aconteceu de algumas pessoas não entrarem no banheiro comigo por saberem que sou lésbica”. Lembra, indignada.

Apesar de fazer o que quer, gostaria de não ter que enfrentar olhares preconceituosos ou comentários de mau gosto. “Nós, homossexuais, não temos um espaço de liberdade. O que acontece muito são homossexuais promoverem suas festas particulares, onde todos podem se divertir sem medo porque se veem com igualdade, sem julgamentos”,observa.

Para ela, essas festas resolvem parte do problema, mas aceitar esse confinamento é uma alternativa ao desrespeito social, o que não contribui para abrir a cabeça das pessoas.

Diversão fica restrita à casa de amigos

Somente uma minoria escancara a relação. A maioria sai por aí como amigos, com mãos desgrudadas e olhares desviados, numa tentativa de esconder qualquer química afetiva. Assim, segundo eles mesmos, os pensamentos maldosos dos passantes ficam menos evidentes.

“Andar de mãos dadas é um direito conquistado. O casal gay pode andar assim em shoppings, praias ou qualquer lugar público. Mas não é nossa opção. Cada um age conforme sua consciência”, diz Jorge Castro, que há duas semanas se mudou para São Paulo com o namorado, Tiago Nunes Diniz.

“Podemos nos beijar no shopping? Sim”. Se não pensarmos que ali grande parte das pessoas são hétero e que seria um escândalo para elas. Se as pessoas aprendessem desde cedo que é natural um homem beijar outro homem, assim como é natural um homem beijar uma mulher, com certeza faríamos isso e não haveria escândalo”, diz Jorge.

Até porque ele sabe que o preconceito, muitas vezes, vem em forma de socos e pontapés. Por isso, faz questão de ser discreto. “O desgaste público seria deselegante. Com o tempo, esse respeito virá”, acreditam. Assim, a diversão, para o casal, acaba tendo limites definidos.

“Vamos a boates gays, ao quiosque Luí, na Praia de Camburi, ou, à casa de amigos mesmo. Lá, não somos julgados e não recebemos olhares de reprovação”.

Por algum tempo, Jorge e o namorado foram promoters da boate gay Move, o que facilitou ter mais contatos para se divertirem, como qualquer casal. Mas eles ressaltam que as opções de lazer ainda são poucas. Em Vitória, há uma boate e um quiosque e, em Vila Velha, duas boates e três bares.

Em locais com o rótulo GLBT, ninguém precisa se preocupar. Já na fila do cinema capixaba, por exemplo, qualquer afeto é registrado, o que, segundo eles, não acontece em São Paulo, onde vivem. “Vitória é uma cidade linda, tem clima gostoso, é o melhor lugar para se viver. Mas é uma cidade pequena. As pessoas ainda são muito fechadas. São Paulo é diferente. Tudo é mais natural”, avaliam.

Não é à toa que lá eles se permitem dar as mãos no metrô ou na fila do cinema. Isso sem contar com a variedade de opções de serviços e lazer para os gays. Casas noturnas, lojas, salões de beleza, restaurantes e pubs específicos para o público GLBT se multiplicam na Terra da Garoa. “Não por acaso, a maior parada do orgulho GLBT acontece aqui”, diz Thiago.

10 Comentários leave one →
  1. beh permalink
    24 junho, 2009 12:27 am

    Acho que é um ato de coragem ousar certos comportamentos que sabemos que a sociedade rejeita. Sabendo disso, a maioria não arrisca esses atos para não ter aborrecimentos, e não por concordar que seja errado pessoas do mesmo sexo andar de mãos dadas. Uma coisa é pensar o que é certo e outra é coloca-lo em prática. Eu não sou adepta dessa liberdade pública, prefiro a discrição em todos os sentidos…até gostaria de mudar isso um dia.
    Concordo qdo. dizem que enqto. todos se esconderem, as pessoas nunca vão se acostumar com a idéia…mas, sabemos que não é fácil enfrentar o mundo à nossa frente e às nossas costas.

    Abs

  2. 24 junho, 2009 1:29 am

    Bom eu sou a favor de demonstrar afeto mas sem ser vulgar, mas concordo com um trecho do post onde se fala “Se as pessoas aprendessem desde cedo que é natural um homem beijar outro homem, assim como é natural um homem beijar uma mulher, com certeza faríamos isso e não haveria escândalo”. Tudo é questão de costumes, e outra nós vamos em lugares heteros e não podemos agir como desejamos pq eles não aceitam, mas me diga pq então os heteros tem procurado lugares GLS para suas baladas? Aqui em Campinas já aconteceu de casas noturnas fecharem por isso, por falta de privacidade do seus frequentadores, quer dizer eles podem invadir nosso espaço e fazer o que quer, mas nós se vamos ao espaço deles não podemos nem pegar na mão que olham torto. Uma cidade q eu adorei e pude ate dar beijo em minha ex foi em Floripa, ao menos lá eu não vi ninguém me olhar torto e tem uma variedade de lugares GLS tambem…adorei o post. bjs

  3. Renata J. permalink
    24 junho, 2009 8:35 am

    Aqui em Vitória tenho visto, frequentemente, demonstrações de afeto em locais públicos e isso me faz ter orgulho de minha cidade (considerada uma das mais homofóbicas do país em pesquisa). Estava no Circuito BB de volei de praia e vi, em locais e dias distintos, casais de meninas trocando carinhos e até beijos e ninguém se assustando com isso! Além disso, o Quiosque Lui mudou um pouco o visual da praia de Camburi, que de sexta a domingo fica com o calçadão repleto de casais sem o menor constrangimento e sem olhares de reprovação dos demais usuários do calçadão.
    Pena que minha namorada não é das que curte andar de mãos dadas por ai…

  4. 24 junho, 2009 1:49 pm

    Sabe Té,eu concordo contigo,em partes,claro que existe preconceito,e muito,mas tenho amigas heteros que ficam impressionadas sim quando veem homosexuais demonstrando carinho,mas não por preconceito,mas por não estarem acostumadas,a novidade sempre choca,foi assim quando uma amiga perdeu a perna,até mesmo eu tive qu me acostumar com a idéia.Foi assim comigo quando tive um professor “homem”de balé,depois de 10 anos de mulheres apenas.Ou seja,Pode demorar um pouco,mas a gente se acostuma com a novidade.
    Claro que a minha vizinha crente,nunca vai achar normal mulheres se beijando,mas ela se acostuma,mesmo fazendo cara feia…
    Nem vou falar de preconceito hoje,ficaria aqui horas,mas hoje tô in love com a vida,tô mandando o preconceito passear!!
    Beijos coloridos,e como aqui é feriado,vou passear também,e beijar muitoooooo!!

    • Té P. permalink*
      24 junho, 2009 2:52 pm

      O texto não é meu, Kah.
      É da Gazeta…

      Quanto a minha opinião sobre o assunto; eu só acho que as pessoas devem procurar seu espaço, mas sem se colocarem em risco.

      • Renata J. permalink
        24 junho, 2009 3:41 pm

        concordo! Afinal, como disseram os meninos da reportagem: “o preconceito, muitas vezes, vem em forma de socos e pontapés”. Num barzinho (hétero), aqui no interior do ES dois rapazes se puseram a beijar. Uns caras começaram a zoar, mas graças a Deus não deu confusão. Não é o tipo de lugar para demonstrar afeto, pois a bebida potencializa esses atos de agressão.

      • Té P. permalink*
        24 junho, 2009 3:48 pm

        Pois é, certas coisas assustam…
        Já tive um amigo que foi todo talhado saindo de uma balada. É triste, mas acontece…

      • 24 junho, 2009 9:34 pm

        Nem dá bola,eu sabia,eu li lá em cima,só quiz dizer concordar sobre o assunto,sei lá,entende…anyway,concordo,again,contigo,procurar seu espaço sim,mas se protegendo primeiro,inclusive,e principalmente,de agressães fisícas.beijos coloridos!!

  5. Hérika permalink
    24 junho, 2009 6:21 pm

    Engraçado, esta semana eu comentava algo parecido com minha namorada, a respeito de um frustrado ato de mobilização exatamente por conta de preconceito contra manifestações de carinho, a gente refletiu sobre, não me privo de beijar minha namorada na fila do cinema ou no meio da rua andar de mãos dadas ou fazer um carinho, claro que tem certos comportamentos que n aprovo nem em casais héteros como ficar “se comendo” em público, por isso não aplico pra mim e não exponho a minha namorada, é uma questão muito pessoal que infelizmente tem que ser tratada com cuidado tendo em vista que vivemos ainda sob a mão pesada de um preconceito absurdo, mas infelizmente existente.

  6. 25 junho, 2009 9:43 am

    É, acontece…mas mesmo assim não devemos nos privar de fazer carinhos em quem amamos, mas lógico que temos que tomar cuidado pra nossa própria segurança. Acho que onde ando com minha namorada as pessoas notam que estamos juntas pelo modo como nos comportamos uma com a outra. Mas nada de exageros, acho feio pra qualquer tipo de casal. Ficar se agarrando no meio da rua é triste, não importa qual seja a orientação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: