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“OS INIMIGOS DO POVO ESTÃO NO PODER”

8 agosto, 2009

injustica11

Eu tenho andado assustado com a atual crise no Congresso Nacional (atos secretos no Senado e farra das passagens na Câmara)! Não que eu fosse ingênuo a ponto de achar que todos os políticos fossem honestos ou mesmo que eu tivesse alguma esperança que 10% deles deixassem de correr em caso de alguém gritar: “Pega ladrão”! O que tem me tirado o sono (literalmente alguns dias!) é o fato de que a população toda está aceitando a situação com a maior naturalidade do mundo…

Eu sou um eterno otimista quando se trata da situação brasileira, principalmente no que diz respeito ao progressivo amadurecimento da nossa neófita democracia. Eu tinha certeza de que nós, “os caras-pintadas”, seríamos uma resistência consistente, oferecendo alternativas éticas que fossem viáveis para o fortalecimento e a perenidade das instituições. Eu vi o impeachment do Collor aos 14 anos, com o orgulho de quem tinha ao seu lado uma nação, um povo que dava um sinal de “basta de desmandos”!

Diante das massivas denúncias de corrupção que vêm nos atropelando durante os últimos anos (com pequenos intervalos de poucos meses, suficientes apenas para que tomemos fôlego!), entretanto, não posso evitar que tal convicção seja estremecida por uma dúvida cada vez mais consistente. Os mesmos canalhas que assustavam o Brasil durante a Ditadura Militar continuam no poder, com uma importância tão grande que não sei dizer se a democracia efetivamente já chegou. Para piorar a situação, hoje eles têm a seu lado as “crias” da prometida democracia, que se deturpou em uma demagogia cada vez mais assustadora!

Parece que estamos todos esperando que as coisas se resolvam por si mesmas, como aquele tipo de pai ou mãe que simplesmente desiste do filho e deixa ele chorar até se cansar… Sendo que, enquanto isso, ele incomoda todos ao redor. Claro que esse “algo” que esperamos é a mídia! Foi ela quem promoveu o movimento do “Fora Collor” e é ela quem tem decidido qual a importância que as denúncias têm desde então. Foi ela também quem transformou um “escândalo menor” em motivo de renúncia de mandato de Renan Calheiros… Ora, vejam só: exatamente este forma com Collor a dupla alagoana que hoje representa a comissão de frente que defende o Senador José Sarney, tudo com o aval explícito do Presidente Lula, que, tendo o Princípio da Separação de Poderes para legitimar a sua pertinente indiferença, preferiu sair em defesa daquele que meses atrás para ele e seu partido era apenas mais um inimigo político na luta pela Presidência do Senado Federal.

Entretanto, não estou culpando a mídia… A mídia é feita pelos homens e seus interesses, sejam estes individuais ou coorporativos. A culpa é da sociedade como um todo: ONG´s; todas as classes sociais; (pseudo)intelectuais; escritores; empresários; esportistas; artistas; estudantes; acadêmicos etc. Alguns músicos (Caetano Veloso, Chico Buarque e companhia) são considerados como baluartes da luta contra o Regime Militar e agora, quando não existe censura, quando não existe opressão, quando a corrupção é a olhos vistos, eles se calam! Não posso evitar pensar que se movem pelo lema: “Desde que me permitam falar, eu não me incomodo de ficar calado”!

Os escritores não são melhores! A Academia Brasileira de Letras, onde supostamente deveriam estar concentrados os grandes intelectuais brasileiros, se esconde, não apenas porque faz questão de ser omissa no processo democrático, mas porque o principal acusado da atual crise (José Sarney) é um de seus membros, ocupante da cadeira de número 38, que já foi assento de um dos grandes orgulhos nacionais: Santos Dumont!

Também quero deixar claro que este não é um panfleto político-partidário contra o PMDB ou contra o senhor José Sarney, mas sim contra toda a crise ética que se instalou no Congresso Nacional! Os primeiros atos secretos datam de 1995; a suposta compra de votos da reeleição foi para a eleição de 1998… Quantos escândalos não assistimos calados neste intervalo de 11 anos? Cito apenas o (até agora impune) Mensalão, para explicar o meu ponto de vista. A crise não chegou a agora, ela é atemporal e apartidária, envolvendo todo o processo de escolha dos nossos representantes e os parâmetros de exercício de seus mandatos parlamentares. Toda essa baderna instalada é apenas a gota d’água!

Quer dizer que algum desses políticos realmente quer que acreditemos que ele não via nenhum mal em nomear parentes; pagar assessores que moravam no exterior; adulterar o painel eletrônico do Senado; vender a sua cota de passagens aéreas; morar em imóvel funcional tendo residência em Brasília; pagar passagens aéreas para a namorada ou para um time de futebol? Será que somos tão burros que elegemos como representantes um grupo de sujeitos que têm um conceito moral tão diferente daquele reconhecido pelo senso comum? Será que eles têm a mesma visão ética quando vão educar os seus filhos e netos? Não creio que as respostas a estas perguntas sejam positivas!

Mas este é apenas um desabafo…  Eu gostaria de ver a população de novo nas ruas, demonstrando (sem violência de nenhum lado!) que sabe o que está se passando, que não aceitará calada tal descaração, que marcará os responsáveis e que estes nunca mais ocuparão um cargo eletivo. Com certeza este é um sonho: viver num país de memória, onde o povo compreende que os políticos é que deveriam estar submissos ao povo e não o contrário… Um país no qual os eleitos teriam noção da grande responsabilidade que decorre do cargo que ocupam e do compromisso com o desempenho de sua nobre função.

Diante de tudo, porém, a minha sensação de impotência é total! Por via do amigo Rodrigo Sales, me vêm à cabeça as palavras de outro grande orgulho nacional, Rui Barbosa ao dizer que “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Eu não sou um filósofo conhecido, um grande escritor, alguém ligado à mídia ou uma celebridade, que poderia, quem sabe, mobilizar as massas! Eu nem sei o que cada um desses setores citados poderia fazer, mas eu me sentiria bem melhor se soubesse que eles estavam tentando fazer algo… Hoje eu vou dormir tranqüilo por ter começado a fazer a minha pequena parte… Pois, como diria Madre Teresa de Calcutá: “Eu sei que sou uma gota no oceano, mas, sem esta gota, o oceano seria menor”!

Deixo, por fim, um poema escrito em 1964 (coincidência ou não, no ano do Golpe Militar!) pelo fluminense Eduardo Alves da Costa, embora seja freqüente e erroneamente atribuído a Maiakovski:

Na primeira noite eles se aproximam,
Roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada;
Na segunda noite, já não se escondem:
Pisam as flores, matam o cão e não dizemos nada;
Até que um dia, o mais frágil deles,
Entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e
Conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta
E já não podemos mais dizer nada!

É um bom momento de sabermos em que passo estamos da submissão… Terão os corruptos e imorais já arrancado a voz de nossa garganta? Ou ainda é tempo de proferirmos nosso grito de insurreição? Com a resposta, cada um de nós!

Carlos Marden Cabral Coutinho

Procurador Federal, Especialista e Mestre em Direito e, hoje, mais um brasileiro ajoelhado aos pés dos ocupantes do Poder.

5 Comentários leave one →
  1. Eliza permalink
    8 agosto, 2009 10:18 pm

    Adorei a crônica do Procurador.
    Muito bem citada a frase da Madre Teresa e do ilustre Rui Barbosa.

  2. 9 agosto, 2009 12:11 am

    Eu vi o movimento dos carapintadas quando tinha 17 anos e o que via era um bando de adolescentes sedentos por vinho nas manifestações… Infelizmente os carapintadas foram só mais uma invenção da Globo. Collor só caiu pq foi intenção de forças poderosas, não por causa do povo. O povo brasileiro é mto passivo. Deveríamos aprender mais com os argentinos, esses sim, povo de sangue quente e que vão às ruas lutar pelos seus direitos. Aqui, se dão pão e água para os famintos eles se dão por satisfeitos e elogiam um Governo assistencialista.

    • 9 agosto, 2009 2:54 am

      Bem, eu era pequena demais pra lembrar o que foi ou deixou de ser o movimento. Mas acredito que ele tenha sido diferente nos 4 cantos do Brasil. Em alguns lugares deve ter sido um movimento mesmo, em outros só uma “desculpa” pra putaria.
      Já quanto ao Governo, certas críticas – não me refiro as suas- mostram que o país realmente tem uma memória muito curta. Uma coisa tenho como certa, a gente não sabe da missa o terço do que acontece nos bastidores do poder; e por mais que tentemos ser imunes à influências midiáticas, qualquer comentário que teçamos, se não formos testemunhas presenciais, será influenciado por tal, seja ela séria, marrom ou alternativa.
      O que há para se fazer é seguir a citação, e sermos gotas num oceano.

      Eu tenho a mesma dúvida que ele, as vezes me pergunto se a democracia já chegou por aqui.

  3. 11 agosto, 2009 11:38 am

    Realmente, o povo tem sido conivente com tudo o que está acontecendo no senado e no congresso, e o pior, é que como sempre vai dar em PIZZA. Quem tem um pouquinho mais de instrução e consegue entender além das manipulações da Tv fica barbarizado mas o que podemos fazer? Quem tira ou os coloca lá é o povo, porém o povo ainda crê na velha frase do MALUF: “rouba, mas faz” e sem as massas o que adianta? “Uma andorinha só não faz verão”… Infelizmente enquanto vivermos em um país onde o povo é semi-analfabeto, não tem consciência política (e abre a boca para dizer que são APOLÍTICOS (Imbecis)) teremos que conviver com esse tipo de coisas. Como disse alguém que não me recordo “Cada Povo Tem O Governo Que Merece”.

  4. Carolina permalink
    12 agosto, 2009 2:55 am

    Olá Té, como vai?

    Como sempre, seu blog é recheado de coisas boas…

    Li a crônica do Procurador e achei muito interessante. Concordo com muitas afirmações feitas por ele, principalmente quando ele diz não acreditar que em nosso país não há de fato democracia, segundo também o meu professor de Filosofia Política, vivemos na realidade uma espécie de aristocracia.

    Não me oponho também a questão levantada por ele sobre a sociedade estar aderindo a tudo isso com muita facilidade. Me fez lembrar de um ponto que venho estudando da Arendt, a crítica que ela fez à sociedade alemã quando a mesma aderiu o regime nazista e sem reclamar, sem protestar, deixou que tal regime se estabelecesse, que os valores morias se invertessem, etc. Em sua obra, Hannah Arednt aponta várias razões para justificar tal fenômeno, e uma das razãos que acho mais interessante é quando ela ressalta o afastamento que o homem tem da espera pública, na obra “A condição Humana” ela fala das várias dimensões do ser humano e há também a dimensão política, a qual, para a filósofa é a mais importante. Tal participação política se configura em participar da espefa pública principalmente através do discurso. E é o que percebo em nós, somos carentes, tal dimensão política é praticamente morta, inerte em nós, na maioria dos homens. A falta do exercício de pensar e o afastamento que temos da vida política nos faz aceitar acriticamente qualquer barbaridade e injustiça. Influencida por Arendt, é assim que penso hoje.

    Té, me perdoe pela extensão do comentário, acho que me empolguei e nem sei se fui tão clara. Você sabe que tenho essa dificuldade para me expressar…rs

    Abraços e parabéns pelo post.

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