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Carta aberta

12 agosto, 2009

exgayy

Carta aberta a Rozângela Justino, a psicóloga que afirma curar a homossexualidade

Jean Wyllys

Enquanto a ampla maioria dos homossexuais (principalmente dos gays) se diverte em baladas e em paraísos artificiais, alienada das sérias questões político-sociais que envolvem o coletivo do qual faz parte, uma onda neoconservadora contra lésbicas e gays tem se levantado sorrateira e silenciosamente na mesma proporção do crescimento das paradas do orgulho gay. A mais recente expressão desta onda é a “psicóloga” Rozângela Justino, que está nas páginas amarelas de Veja desta semana. Há algum tempo ela vem fazendo barulho. A princípio, decidi ignorá-la por não querer gastar minhas poucas velas com um defunto tão barato. Porém, como os meios de comunicação vêm dando espaço para ela, ainda que para questioná-la, decidi escrever-lhe uma carta aberta:

 Rozângela Justino, eu não a conheço pessoalmente e não faço a menor questão de conhecê-la. Mas, como a senhora fez ataques públicos ao coletivo do qual faço parte, logo, a mim, por meio da revista Veja, eu sou obrigado a responder aos mesmos também de forma pública. Vou começar pela comparação que a senhora fez entre militância gay e Nazismo. Ou a senhora é cínica ou é absolutamente ignorante acerca do mal que o Nazismo causou aos homossexuais. Prefiro apostar que a senhora seja cínica, uma vez que sua referência ao Nazismo e o esforço em associá-lo ao movimento homossexual são tentativas canhestras de conquistar a opinião pública, já que a senhora sabe que, no imaginário popular, o Nazismo se confunde com o mal. Não, minha cara, a militância gay não é Nazismo.

Se há algum nazista em questão, este é a senhora. Seus comentários referentes à homossexualidade materializam um moralismo e um puritanismo odioso em relação à sexualidade e a modos de vida gay. Logo, seus comentários são bem parecidos com o discurso dos detentores da ordem moral e social e dos apóstolos da religião, da família tradicional e da opressão às mulheres e aos homossexuais. Ou seja, seus comentários são bem parecidos com o discurso das “direitas” religiosas e com o discurso das demais “direitas” (entenda por “direita” os representantes do pensamento e/ou do movimento político que se afina com “restaurações” conservadoras, nacionalismos e fascismos). E qual o discurso das “direitas” religiosas? Ora, aquele que expressa um horror em relação aos homossexuais e certo nojo pela “promiscuidade sexual”, independente de qual seja a orientação sexual do “promíscuo” – um discurso que esteve presente no Nazismo (sim, a gente não pode esquecer jamais que o Nazismo e os fascismos se expandiram e fascinaram multidões também porque denunciaram as cidades grandes como o lugar dos excessos sexuais dos gays e lésbicas e, logo, como espaço de corrupção de corpos e almas; a gente não pode esquecer jamais que o Nazismo era uma empresa de “purificação” não só racial, mas, também sexual). Portanto, expressão do Nazismo ou retorno ao mesmo são suas idéias. Não queira convencer os ingênuos do contrário!

É possível que os oprimidos se identifiquem com a ideologia de seus opressores mesmo sem terem consciência disso. É por isso que podem existir negros racistas e homossexuais moralistas. E é por isso também, minha senhora, que muitos homossexuais que não resistem às pressões e violências diversas impostas pela ordem em que vivemos têm procurado seu “consultório” em busca de “cura” para a homossexualidade. A este comportamento nós chamamos de homofobia internalizada. Se a senhora fosse uma psicóloga competente e ética, saberia que os objetivos de uma terapia psicológica não podem ser definidos em termos de mudanças de comportamento do paciente. A cura no sentido de restabelecimento do estado anterior a uma doença é um privilégio da medicina e só existe para patologias provocadas por vírus, bactérias ou fungos ou por disfunções orgânicas e hormonais ou, ainda, para certos tipos de câncer. Homossexualidade não é doença, logo, não precisa de cura.

Sabe, Rozângela, faltam-lhe argumentos. Vocês, fanáticos fundamentalistas ou cínicos exploradores da fé e ignorância alheias, nunca têm argumentos consistentes além do dogmatismo. Seu bacharelado em Psicologia obtido no Centro Universitário Celso Lisboa de nada lhe serviu ou serve já que você recorre a “verdades” que contrariam os princípios das ciências, inclusive daquela que é a base de seu curso, a Psicologia. Aliás, a qual escola ou corrente teórica da Psicologia a senhora está associada? A senhora não diz, por quê? Ora, porque o que a senhora faz não é Psicologia, mas, doutrinação religiosa.

Chega a ser risível sua referência a Michel Foucault porque está claro que nem a senhora nem sua fonte – Claudemiro Soares – compreenderam o pensamento do filósofo francês, que morreria de infarto, se vivo estivesse, ao ver seu pensamento articulado por uma fascista psicótica (sim, qualquer psiquiatra concordará comigo quando digo que sua crença de que recebeu um chamado de Deus por meio do disco de Chico Buarque é sintoma de um funcionamento mental psicótico, em que a senhora toma, como concretos ou reais, elementos que lhes são apresentados por sua percepção; o “chamado divino” a que a senhora se refere não é efetivamente real, concreto, mas, a senhora o toma como tal assim como o fazem os psicóticos com seus delírios e alucinações). Sua referência a Focault macula um pensamento muito mais complexo e distante de suas posturas neoconservadoras e quer, por meio de uma aparente ilustração acadêmica, intimidar feministas e homossexuais orgulhosos de sua orientação a se calarem para não questionar o mundo comum no qual devemos viver.

O que eu posso lhe dizer – a partir das contribuições de Freud, Melanie Klein, Lacan, Foucault, Julia Kristeva, Didier Eribon, dos antropólogos e até dos psiquiatras, contribuições que você não deveria desprezar ou ignorar, já que se diz “psicóloga” – o que eu posso lhe dizer é que os instintos sexuais são naturais, mas, a sexualidade (incluindo, aí, as identidades sexuais) é cultural. Em se tratando de nós, humanos civilizados, pouca coisa em nossa subjetividade (caráter; “alma”; aquilo que nos faz sujeitos) é natural (vem da natureza), pois, ainda na barriga de nossas mães, recebemos o chamado “banho de linguagem”. Desde recém-nascidos, começamos a ser forjados pela cultura. Uma identidade sexual é estruturada de maneira complexa e envolve muitos elementos: desde as experiências de prazer e desprazer na mais terra infância em relação aos pais ou a quem os represente até representações culturais (a maneira como as práticas sexuais aparecem e são qualificadas em tratados científicos; livros religiosos e didáticos; fotos: filmes; propagandas: novelas e etc.), passando por fatores biológicos. A identidade sexual não se confunde necessariamente com a prática sexual. Esta pode ser um componente da identidade sexual, que diz respeito mais a pertencimento; a um “lugar” no mundo. Deu pra entender?

Veja bem, Rozângela, se a senhora continuar defendendo que o sexo só serve à procriação e, por isso, a homossexualidade é antinatural, eu te sugiro que abra mão o cenário onde você costuma fazer sexo (seu quarto e cama confortáveis), se é que a senhora faz sexo, e vá transar no mato como o fazem os animais; aí, sim, a senhora estará de acordo com o que é “natural”. Sugiro que, por extensão, a senhora abra mão de todas as conquistas da cultura: habitação, educação, hábitos alimentares, meios de comunicação, tecnologias, regras de higiene, modos de festejar, artes e beijo na boca, sim, pois, a natureza fez a boca para comer e não para beijar. Abra mão da instituição “família” por que ela também é um fruto da cultura e não da natureza (nunca vi uma cadela de véu e grinalda nem ela ser fiel a um só cão até que a morte os separe; e, se não vi, é porque os cães e cadelas agem conforme a natureza, enquanto mulheres e homens agem conforme a cultura).

E saiba que o entendimento do que é “família” muda no tempo e no espaço. Ou a senhora nunca ouviu falar de que, no Oriente Médio, um homem pode ter dezenas de esposas ao mesmo tempo e contar com a proteção do estado e com a bênção divina? Parece que não… Então, faça isso e aí, sim, a senhora será coerente com o que prega. Se não o fizer, é só reconhecer que é uma fundamentalista fanática, psicótica e incapaz de questionar aquilo que te ensinaram como “verdade” e, por isso mesmo, causadora de infelicidade para si e para os homossexuais que acredita curar. Sem mais,

Jean Wyllys

 fonte: http://bloglog.globo.com/jeanwyllys/

13 Comentários leave one →
  1. 12 agosto, 2009 1:00 pm

    Valeu por mandarem o link, meninas =)

  2. 12 agosto, 2009 4:28 pm

    Excelente resposta! Engraçado o lance de família. Conversando com um colega de trabalho (sobre um assunto não relacionado com homossexualidade) disse que família como é vista hoje é uma instituição recente. Resposta dele e de outra colega que estava junto: familia é uma instituição bíblica, a mais antiga de todas. Preferi não contraargumentar…

  3. Eliza permalink
    12 agosto, 2009 6:52 pm

    Carta muito bem escrita.
    Precisamos mesmo dar respostas a altura da afronta nesses casos.

  4. Amorim permalink
    13 agosto, 2009 10:42 pm

    Sinceramente… acho que e referida psicóloga é uma lésbica que não teve coragem de enfrentar os preconceito e sair do armário.

  5. Mariana permalink
    19 agosto, 2009 9:29 pm

    Achei esta carta fantástica…pq esta virando moda essa coisa de cura de gays…
    So rindo mesmo pra nao chorar da ignorancia destes pobres seres…kkk
    O que penso é q a homossexualidade além de genética é algo com que vc nasce…
    Odeio akeles homens que falam q tivemos experiencias pessimas e por isso viramos lesbicas…Um preconceito mal disfarçado…rsrs
    Se somos o que somos é pq gostamos…como heteros que gostam do sexo oposto…
    O resto é mito…hahaha…
    Parabens pelo blog…
    Beijos

  6. mattkane permalink
    20 agosto, 2009 2:39 pm

    1) Essa psicóloga é uma idiota mesmo. E o que ela faz não tem lógica nenhuma. Está mais para preconceito do que para crítica.

    2) Jean Willys é aquele cara que ganhou um Big Brother, né? Aquele cara que, numa jogada de mestre, “capitalizou” em votos uma incipiente discriminação na casa… Essa carta dele deu importância DEMAIS à esta doida (e à Veja)… é mais uma “capitalização”.

    3) Homofobia: existe mesmo, mas virou uma bandeira por si. Houve um exagero do conceito. O termo ganhou o poder de “capitalizar” qualquer situação desfavorável aos homossexuais em blindagem contra críticas e até contra provocações (mesmo que de péssimo gosto).

    4) Eu acho que cabe criticar o homossexualismo. Eu acho que cabe provocar. Todos devem poder ser criticados e provocados.

    5) Só as piores ditaduras não aceitam críticas e provocações. Até o governo do Irã aceita em algum nível…

    6) Que cartinha afetada! ui! Imagine se fosse uma entrevista de uma psicóloga crente dizendo “resgatar” homens depravados, gordos, emos, nazistas, judeus… não iria passar desapercebido?

    • 20 agosto, 2009 9:02 pm

      2*) Quanto à atenção despendida, respondo com um poema bem conhecido e que me foi recentemente lembrado pelo Procurador Federal Carlos Marden:
      Na primeira noite eles se aproximam,
      Roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada;
      Na segunda noite, já não se escondem:
      Pisam as flores, matam o cão e não dizemos nada;
      Até que um dia, o mais frágil deles,
      Entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e
      Conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta
      E já não podemos mais dizer nada!

      3*) Apesar de ter gente que faz “mau uso” da palavra “homofobia”, aqui, pela história deste blog – especificamente- e pelo tema em questão, este não é o caso.

      4 e 5*) Veja bem, acredito que você perceba a grande diferença entre crítica e preconceito.
      E, na minha opinião, só pessoas que não se interessam pelo desenvolvimento de suas potências é que se desagradam diante de críticas, provocações e/ou pensamentos “contrários”.

      6*) Não iria passar desapercebido não. Não sei o que você acompanha, mas existem grupos organizados para esses segmentos, talvez menos para emos – desconheço. Fato é que quando estes se sentem ofendidos, organizam-se e tomam alguma providência. Como os judeus em algum carnaval aí que impediram a visualização de um carro alegórico. Ou os gordinhos nos EUA que no filme “WALL-E” fizeram um protesto com alguma relevância; ou os cegos que também fizeram protestos no filme “Ensaio sobre a cegueira”.

      Enfim…

      • Matt Kane permalink
        24 maio, 2010 11:54 am

        Olha, concordo.
        Um ano e um poema depois, mas concordo.
        Nem lembro porque eu estava tão agressivo!
        um abraço

  7. Lia permalink
    27 agosto, 2009 3:33 pm

    Adorei a resposta. Quando li a entrevista dela na Veja fiquei revoltada. As respostas dela mais pareciam piadas, sem nenhum fundamento.

    Obrigada por responder por todos nós 🙂

  8. 31 agosto, 2009 5:38 pm

    Visitei seu blog pela primeira vez à algumas horas atrás.
    Googlei -com o perdão do estrangeirismo- algo sobre as mortes dos canhotos,pra confirmar se haveria alguma razão ‘lógica’ ou ao menos racional para o massacre dos tais…mas como pude ver -ou não,na verdade…-Não existiu.

    Despertei certa curiosidade pelo blog e logo após acabar um texto que estava a escrever me coloquei a fuçá-lo.Achei essa matéria e me interessei suficientemente pra clicar e ler.
    Ao meu ver,a carta é de extremo bom gosto.Embasada e tão não-direta quanto fora a psicóti…digo,a psicóloga em questão.
    Meus audíveis aplausos à Jean.E à você,que faz-se ver essa informação e muitas outras do mesmo tipo. ^^

    Beijos.

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