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XXV

18 outubro, 2009

soprando

 Segunda-feira – 23 de março de 2009
23:46:00

 

É engraçado perceber como vislumbramos o futuro de um jeito e lembramos o passado de outro.

Acabei de jantar e estava pensando nas coisas que já tinha vivido a partir das gerações passadas.

Minha avó quando nasceu e se criou livre, numa família onde a mulher já era a pessoa forte da casa, podendo ouvir todo tipo de música, sendo educada em colégio interno, aprendendo a tocar instrumentos boêmios como o bandolim. Conversando na surdina com as amigas e admirando a mãe que tinha… Não imaginava, e talvez não tivesse planejado, que depois de dar aula de educação física na década de 40 e ter tido irmãs tão ‘modernas’ fosse acabar num casamento tradicional, sendo podada de seus prazeres mais passionais e infantis como cantar na rádio e na igreja, ser agraciada com serestas ao entardecer e gozar de uma liberdade plena, tendo três filhas e um filho para criar.

Minha mãe não imaginava que fumaria maconha, sem saber o que era, porque estava com dor de dente, nem que o namorado da juventude, que caiu no desgosto da minha avó, seria eternamente um dos seus amores.

Não imaginava que seu futuro marido seria conhecido enquanto estudava na Bahia, que ele seria publicitário, teria uma moto, seria impulsivo ao ponto de pedi-la em casamento com três meses de namoro e que depois de viajar metade do Brasil e morar em São Paulo e no Rio, acabaria vivendo em Curitiba aonde daria a luz a mim.

Ela, talvez, não desejasse se separar e voltar a morar com a mãe tendo passado dos 30 e com uma filha no colo… Estava se desquitando.

E eu, ainda criança, não tinha noção do que era ser apontada como a possível causadora do câncer de mama da minha avó (nessa época e desde sempre o grande amor da minha vida). Minha mãe não tinha desperto em si o significado de instinto materno para defender a si e a cria… E, se depois de parir, você ainda não tem instinto materno, provavelmente, jamais o terá.

Minha vó não imaginava que passaria por um câncer, muito menos que o superaria na década de 80, quando mal se tocava no assunto, e que veria suas irmãs e uma filha falecerem ao longo dos anos.

Minha mãe não imaginava que perderia a irmã querida, eu não imaginava que veria minha tia definhar, perder peso, cabelo, vida… Assim, aos poucos… Até não respirar mais.

Não pensava que a casa onde passei a infância seria o local dessa perda e que, em seguida, seria vendida.

Minha mãe sonhava mas não sabia como conseguiria, finalmente, sua casa própria, seu canto para mim e ela.

Eu, ainda bem pequena, sonhava em ser cientista, ter uma Ferrari, e morar no meio da Amazônia. Veio o desejo de ser arqueóloga, antropóloga, astrônoma, oceanógrafa, fotógrafa… E, se desse, ser tudo isso junto.

Você sonha acordada, mas não sabe pra onde os dias estão te levando. E por mais que digam que as escolhas são previsões do futuro, o futuro ainda é extremamente incerto.

Quem diria que depois de tanto tempo, minha vó ainda seria o grande amor da minha vida, que minha mãe ainda não haveria conseguido desenvolver um instinto materno (o que confirma minha teoria) e que eu estou num lugar que nunca imaginei que estaria?

Eu não imaginava que namoraria uma mulher, uma só não… Jamais pensei que a encontraria no colégio. Não pensei que nosso relacionamento terminaria de forma trágica e que passaria por esses dois anos sozinha.
Não planejei passar tantos anos dormente e deixando sempre latente a vontade de viver a vida e realizar meus sonhos… Meus verdadeiros sonhos que, assim como pra minha avó, estão todos intrinsecamente, visceralmente, ligados, relacionados à LIBERDADE…

Quem diria que eu me formaria apenas aos 26 anos e que não seria em medicina… Sempre planejei estar livre aos 22… Eram os meus cálculos.

Quem diria que eu descobriria o sexo tão cedo, mas só o praticaria de fato tanto tempo depois…

Minha mãe não imaginava que teria uma filha lésbica que seria completamente diferente dela, em 99% dos aspectos.

Eu não imaginava que aos 24 anos ainda descobriria coisas sobre o meu passado e que isso me afetaria tanto. Nem pensava aos cinco anos que 20 anos depois eu ainda não teria conhecido meu pai ou ouvido a sua voz.

São tantas coisas que não imaginamos e que não planejamos… As pessoas que entram e saem da nossa vida, que passam como ondas sonoras, sabe?
Talvez por isso as coisas estejam tão rápidas e superficiais, não se pode viver só de desejos… 

Quem diria que nos próximos meses, eu estaria saindo dessa que é minha casa há mais de 17 anos para viver no apartamento que foi da minha tia que já faleceu (97) e da minha vó que retornou a suas origens para ser feliz e cuidar de suas flores e pássaros…

E quem sabe aonde estaremos daqui a alguns anos, ou simplesmente amanhã…

14 Comentários leave one →
  1. 18 outubro, 2009 1:00 am

    Lindo post
    Lindos pensamentos!

    Quem imaginava que eu iria à sua casa buscar colo, conselhos, e principalmente, te amar?

    Eu não imaginem nem na primeira vez que te vi…

    Que bom que nos encontramos nessa vida.

    Te amo!

    Maria

  2. 18 outubro, 2009 12:53 pm

    Que texto mais tocante. Fiquei até emocionada!
    Parabéns, Té! Tudo de bom pra você, sempre!
    Beijos!!!

  3. 18 outubro, 2009 4:34 pm

    Adorei o texto
    e suas reflexões!!!
    bjos!

  4. Greenie permalink
    18 outubro, 2009 11:49 pm

    “E quem sabe aonde estaremos daqui a alguns anos, ou simplesmente amanhã…”

    É engraçado ver para onde as nossas experiências nos levam, e como esse “trajeto” contraria as nossas expectativas iniciais – ou não.
    De qualquer forma, independente do que vá acontecer contigo daqui para diante, de onde você estiver, do que estiver fazendo, das pessoas que conhecer e que são ou se tornarão importantes na sua vida, espero que você esteja feliz. É o meu único desejo.

    Beijos.

  5. Amanda Andrade permalink
    18 outubro, 2009 11:53 pm

    Ooooowwwwnnnnn Tesão, que fofo!

    É… quem diria que a 2 anos a tras, conheceria uma pessoa que a primeira vista me pareceu… “metida!” e que depois da primeira conversa me apaixonaria e não conseguiria deixar mais de estar perto e desejar tanto a felicidade dela como a minha própria!!

    adoro ouvir vc falar… contar seus fatos, acontecimentos, idéias ou simplesmente estar perto…

    amor meu, felicidades eternas!!! como ja falei… mtos mtos mtos anos de vida!!

    Tudo de bom, saúde, sucesso e muito amor de todas as formas possíveis!

    p.s.: Tesão a cada ano que passa, mais experiente!! né!?!?rs

    =)

  6. 19 outubro, 2009 1:28 pm

    A vida é tão imprevisivel…e como!!

    Construimos sonhos, planos verdades e mentiras que cabem somente a nos mas que são completamente reformulados pelo destino ou vida as vezes para pior outros para melhor não cabe a nos decidirmos que rumo tomarmos mas cabe decidir sobre o rumo em que a vida tomou.
    Te desejo toda sorte do mundo guria.

    Beijos suaves…como a vida deve ser

  7. 19 outubro, 2009 9:44 pm

    Amei, Té! A vida é assim. A 3 anos e meio atrás eu era casada e pensava em ter filhos e criá-los de uma forma bem tradicional. Continuo pensando em tê-los, mas agora criando-os em uma familia nem um pouco tradicional: eu e minha namorada (só falta convencê-la disso! rs).

  8. Pipi permalink
    22 outubro, 2009 9:27 pm

    Obrigada.De novo.^^

  9. 25 outubro, 2009 2:53 pm

    Simplesmente lindo e tocante…sentimentos sinceros e lembranças para se refletir.

    bjs

    PS: adoro esse seu cantinho.

  10. 28 outubro, 2009 7:56 pm

    o melhor da vida, é termos a chance de a cada dia re-começar.
    beijo .

    “Quem diria que viver ia dar nisso?” [Caio Fernando de Abreu]

    http://www.osimdecadadia.wordpress.com

  11. A.C.L.B. permalink
    1 novembro, 2009 4:16 pm

    Oi Té,

    Já perdi a conta de quantas vezes reli este seu post! [só faltava comentar! É que tenho a opinião de que quando estamos diante de algo muito bom, os comentários são dispensáveis, ou eles têm que ser discretos, se não, podem paracer falsos, sem sentido, distantes, desconexos, enfim…] Só queria deixar aqui registrado o quanto sua suavidade na escrita é algo sensacional. Espelha sua delicadeza de alma, sua maneira linda de ser… Uma delicadeza que é ao mesmo tempo forte, centrada, te admiro muito.

    Beijos azuis!

  12. Cláudia permalink
    6 novembro, 2009 12:32 am

    Que pessoa mais linda você é, Tezinha.

    Beijos e tudo de bom!

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