Skip to content

Flores do Asfalto

7 fevereiro, 2010

Há uma dor. Uma dor que ora é lancinante, ora é latente. Uma dor consequência de um vazio, um vazio que nos acompanha desde as primeiras divisões celulares, quando ainda nem temos um cérebro, nem um córtex para gerar consciência e racionalizar o mundo que só “veremos” pela primeira vez cerca de 9 meses depois desse “ponta pé” inicial. Este vazio nos invade em nossa forma rudimentar e bruta, “pura biologia” ou “plano Divino”; culpa de um ou vontade de Outro, os corpos envolvidos nesse tipo específico de transa, em 99,9% dos casos, não está de acordo com o resultado: gravidez.

Esse vazio é como a ausência de um órgão, um cordão, um laço que ou não foi formado a partir do embrião, ou foi rompido para sempre depois do parto. Provavelmente esses nove meses será o único tempo que você terá passado com sua mãe biológica.

Sua mãe era muito nova; o pai não quis assumir e ela não estava preparada para criar um filho só; você não foi planejado por ambos e eles preferiram não ter responsabilidade sobre uma vida; não era a hora certa; a camisinha estourou, o anticoncepcional não funcionou; algum dos dois ou ambos não desejavam filhos, tentaram abortar você, mas “Deus” não quis que fosse assim, então… Você nasceu. Nascemos apesar de tudo. Sentimos o peso do “indesejável” muito cedo. Mas era pra ser, né? Então estamos aqui, respirando e acordando toda manhã. Somos flores do asfalto, a comprovação do fato dito improvável, somos imprevisíveis.

Pequenos, nem sabemos o que são ou que existem palavras. Mesmo assim desempenhamos uma com uma força absurda: Sobrevivência.
Essa é a segunda etapa.

Não é regra, mas esse é o caminho de uma criança que tem fortes chances de ser uma órfã de pais vivos. Uma criança para adoção.

O vazio ainda nos acompanha e não adianta,  esse vazio será uma presença constante pelo resto da vida. Não é culpa de ninguém, não é por sua mãe trabalhar, por seu pai não frequentar seus jogos, não é por sua mãe não entender você ou porque ao olhar todos a sua volta (a família), você sente que não se encaixa. Não há identificação, não existem semelhanças de temperamento, ou talvez até haja. Mesmo assim, o vazio vai estar lá.

Fazendo esse caminho, pergunto-me: qual seria o problema de crianças serem adotadas por pais homossexuais? Qual seria o dano?
Bem, homossexuais são pessoas normais, capazes de dar e receber amor, capazes de educar, ensinar, de criar alguém. O problema também não está na orientação; vamos combinar que essa coisa de influência está caída há anos. A criança está no mundo e não em um ambiente recluso. Ela verá e vivenciará todos os papeis sociais hoje existentes e, também, as orientações. Matutando, pensei: Ah! O problema é que ela pode sofrer por outros motivos, aqueles advindos das relações sociais e interpessoais. A “condição” de pais homossexuais poderia “atrapalhar” o desenvolvimento da criança. Mas hei! O problema não é a orientação, é a sociedade. É o preconceito. Não fosse ele, qual seria – de forma concreta – a diferença?

De verdade? Pensando na cabeça de uma criança que não tem os pais biológicos – estejam eles vivos ou não – acredito que a maioria prefere ter uma família. Prefere se sentir acolhida por alguém.

No final das contas, o vazio sempre vai estar aqui e qualquer dificuldade ou dor que venhamos a sentir não é necessariamente culpa de nossos pais adotivos, pelo contrário, eles nos salvam de mais um vazio, o vazio do futuro.

Então, para vocês pensarem… Que tal pararmos de apontar o outro como sendo o problema, tirarmos o visgueiro de nosso olhar e vermos onde esta de fato o conflito, heim? Será que já não chega de falso moralismo?

Somos “sombras” sobre o mundo, por que se importar tanto se os órgãos sexuais da pessoa que amo são iguais aos meus? É sempre amor.

9 Comentários leave one →
  1. 8 fevereiro, 2010 9:12 am

    Amei o texto, Té! Engraçado, pois tenho participado de uma discussão em uma comunidade do Orkut justamente sobre isso: homossexuais e filhos.
    Na discussão, uma grande maioria é contra homossexuais terem filhos devido ao sofrimento imposto à criança. Questionam se o melhor não seria adotar (como se a criança não fosse sofrer da mesma forma, algumas vezes até mais).
    Essas pessoas se esquecem que o problema do sofrimento da criança não é do casal e sim da sociedade. Se os coleguinhas irão sacanear o filho do casal diferente, se os professores irão ter preconceito com eles, a culpa não é nem da criança nem dos pais/mães. A culpa é da sociedade. Sociedade preconceituosa, atrasada, que não aceita o diferente.
    Esses dias estava com essa dúvida. Ter filhos ou não, pensando no quanto meu filho poderia sofrer. Decidi por tê-los. Um plano para um futuro não muito distante (maldito doutorado que não começo).
    Irei gerar e criar uma criança com amor, respeito e ensinando que respeitar o diferentes, respeitar o próximo é respeitar a si mesmo.

    “Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las.” – Madre Teresa de Calcutá

  2. 8 fevereiro, 2010 9:13 am

    Ah, esqueci! Sempre bom ler seus textos. Sempre coerentes e muito bem escritos.

  3. 8 fevereiro, 2010 12:52 pm

    Fico impressionada com sua capacidade de me emocionar com seus textos!

  4. 8 fevereiro, 2010 1:07 pm

    Obrigada, meninas. =)

  5. Ana Carolina permalink
    8 fevereiro, 2010 7:09 pm

    Já perdi a conta de quantas vezes li e reli este texto. Li cada palavra, palavra por palavra. Compreendi e senti cada uma delas…

    Té, com toda certeza, você é uma escritora. E é uma das minhas preferidas. Digo isso sem exageros. Você sabe muito bem que faz tempo que leio o seu blog e que não tem nenhum post que você tenha escrito que eu não tenha admirado. Mas este post, em especial, me tocou de uma maneira incrível. Fez eco em minha alma. E você sabe a razão.

    Gostaria de escrever um comentário que não se resumisse em apenas elogios (rasgação de seda!). Mas escrever para uma escritora, é como sorrir para o dentista, sempre pinta aquele medo de que ele esteja pensando que o sorriso precisa de um ajuste aqui, outro alí. Diante deste texto, falta-me habilidade para dialagoar com maestria. Aliás, está perfeito. Há textos tão claros, tão distintos e belos, que não há espaços para comentários. E este seu escrito, é um desses…

    Beijos.

  6. 25 fevereiro, 2010 2:45 pm

    perfeito texto.O mundo evolui devagar.vencer preconceitos e vencer medos e isto se faz pela educaçao,informaçao>As leis no caso andam devagar conforme a marcha da sociedade,mas se o tema entre em debate a discussão se amplia e avança,assim a sociedade evoluiu.Abraçao.

  7. Ana Carolina permalink
    5 março, 2010 8:05 pm

    sempre venho ler esse seu post…

  8. Amanda Andrade permalink
    12 dezembro, 2010 2:51 pm

    Já li este texto várias vezes.

    Adoroooooo o jeito como vc escreve, seja o que for. Vc sabe o que faz com as palavras.

    E mais uma vez, foi um prazer “sentir o que esta escrito”.

    São poucas as pessoas que conseguem transmitir sentimentos com palavras!

    Logo, vc é especial! quase unica!

    =)

Trackbacks

  1. Meu pior dia de 2010 « Na Ponta dos Dedos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: