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corpo, costumes e etiqueta

7 outubro, 2010
 

Que tal um abraço?

Estou aqui no meu castigo, lendo exaustivamente (média de 12h diárias), quando me deparo com o 6º capítulo do dia: As regras de apresentação do corpo. Como título denuncia, ele fala sobre o corpo de modo geral, mas se concentra nas condutas corporais: etiquetas e costumes.

Por fazer muito tempo que não apareço por aqui e por ter achado interessante alguns pontos do capítulo, vim compartilhar com vocês as ditas passagens. Serve para pensar um pouco (além do posto, serve pra refletir sobre pudores, tabus, etc.), e, no meu caso, serve também para desejar sentir o corpo de outra forma que não seja através da dor muscular.

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RIVIÈRE, Claude. Os ritos profanos. Petropolis: Vozes, 1996, pp.183-186

Em geral, o homem com saúde é inconsciente de seu corpo ou, pelo menos, a atenção à aparência é apenas residual. Exceto em caso de doença, o sentimento de encarnação é relegado. E na vida corrente, a posição do corpo como carne é a do silêncio, discrição, anulação, até mesmo escamoteação ritualizada.  Uma verdadeira regulagem da proximidade pode ser interpretada como ritos de evitamento: não tocar o outro, exceto em caso de familiaridade ou circunstâncias particulares codificadas: aperto de mão, abraço; não mostrar seu corpo nu ou parcialmente nu, exceto em consulta médica ou na praia; regular os contatos físicos, conservando até mesmo no metrô nas horas de afluência uma distância entre os rostos e, habitualmente, uma distância entre os corpos (cf. Hall). Em suma, o homem ocidental tenta não sentir o corpo, esquecê-lo o mais possível. Na vida corrente, a ritualidade procura apagar  a evidência do corpo ou, pelo menos, esconjurar seu peso. Tal ritualidade corporal, feita  de evitamentos e apagamentos, para canalizar as emoções que ameaçariam, em permanência, a ruptura de equilíbrio, aparece como uma instituição social de negação do corpo.

[…]

Nas situações de proximidade ou multidão compacta, em um ônibus, sala de espera ou elevador, o objetivo de escamoteação do corpo é levado ao cúmulo; cada um finge uma indiferença em relação ao outro e mantém o olhar ausente para não incomodar ou atrair a atenção. Hesitamos em tocar um desconhecido ou sermos tocados por ele, pedimos desculpas por um contato involuntário, sendo que a desculpa metaboliza a transgressão da proibição. Um incômodo se manifesta quando um estrangeiro não respeita nossos códigos de proxemia, quando somos surpreendidos em uma posição incôngrua, insólita, ou quando escapa um peido, arroto ou ruído do intestino. Terrivelmente embaraçante é um corpo pesado como o do deficiente físico ou do louco, no sentido em que faz publicidade do que, normalmente,  deve ser dissimulado. Ao perturbar as referências comportamentais, o louco desarticula os rituais de interação.

[…]

Constituindo por toda a parte a regra, com formas mais ou menos complexas e requintadas, a etiqueta varia segundo o sexo, estatuto, idade, grau de parentesco ou familiaridade do interlocutor e segundo o enquadramento da permuta. Até mesmo a mitologia da libertação recente do corpo não modificou radicalmente os ritos de interação que, na vida corrente, mantem o corpo no claro-escuro da presença-ausência, a não ser em momentos de liberações pontuais, como nas núpcias, banquetes, surubas ou bestiários esportivos.

No final das contas, se o corpo é o elemento essencial de nossa inserção no tecido do mundo, a socialidade vivida comporta ritos de evitamento, reabsorção e escamoteação do corpo segundo os códigos em vigor. O corpo se dissimula ao mesmo tempo que se coloca em cena na relação ao outro.

[…]

Todos os códigos de cortesia sublinham que o respeito pelo bem-estar do outro exige o domínio de seu corpo e de seus sentimentos. Esse controle é, em geral, designado por reserva. Esta é visível na postura, presença de espírito, gesticulação reduzida e em toda a atitude corporal. Possuir-se é reter-se, conter suas paixões, ser o guardião dos limites e fronteiras do seu corpo. Desde o século XVI, todos os tratados de civilidade reconhecem como disposição necessária ao governo da família e ao governo político o controle e domínio de si, sendo que cada época incorpora suas normas e ideias no gestos, posturas e movimentos que constituem outros tantos elementos dos usos e costumes.

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Beijos e até outro dia =)

4 Comentários leave one →
  1. 8 outubro, 2010 6:22 pm

    Adorei o blog, adorei os textos. Espero voltar mais vezes! Estou te linkando, qualquer coisa é só deixar um post:

    http://lirasdeamor.blogspot.com/

  2. 18 outubro, 2010 2:01 pm

    Interessantíssimos, esses trechos! Deu vontade de ler o livro todo!
    Os comentários sobre o “esquecimento” proposital do homem ocidental com relação ao seu próprio corpo me parecem particularmente verdadeiros…

    Beijão, Tézinha. ❤

    • 18 outubro, 2010 7:44 pm

      Assim como pra mim.
      Os 2 primeiros capítulos são bem teóricos, mas os outros são “lúdicos”…

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