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Wave your Flag

20 novembro, 2010

Enviado por: Valentis

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“Give me freedom,

 Give me fire,

 Give me reason,

 Take me higher”

Os versos acima são da canção “Wavin’ Flag”, do cantor e compositor K’naan, um poeta nascido somali que viu em 2010 sua música ser cantada por milhões de pessoas de todo o mundo – se vocês não reconheceram a letra, esta foi a música oficial da Copa 2010.

Quatro curtas estrofes que para qualquer pessoa estarão associadas à Copa do Mundo, para mim estão associadas a algo não tão divertido. Não tão leve. Estas quatro estrofes, no intervalo de algum jogo, geraram o seguinte comentário:

¾     Freedom? We gave them all freedom, we gave them everything! What else do they want from us? How come do they come to TV to sing for freedom???

Ouvi isso de um namibiano de origem alemã. Cresceu na África do Sul durante o apartheid, e em sua mente apenas porque libertaram Mandela então já não há qualquer apartheid em nenhum ponto da África – na África do Sul, então, isso talvez nem nunca tenha existido!

Em toda a África há separatismo, há guerras entre raças, entre tribos, entre castas. E mesmo hoje, 20 anos após Mandela ter sido libertado de seu cárcere na ilha Robben, em muitas cidades da África do Sul ainda é proibido aos negros frequentarem certos estabelecimentos, e caso sejam vistos caminhando nas ruas após as sete da noite, serão covardemente espancados.

Se tiver a oportunidade, pergunte a um sul-africano branco se ainda existe apartheid na África do Sul. Depois pergunte a um negro.

O branco se sentirá provavelmente ofendido de você ter sequer cogitado a hipótese. O negro dirá triste que ainda existe, em muitos lugares.

O que tem isto a ver com o NPDD?

Tem tudo. Infelizmente.

Não vou comentar aqui nenhum dos ataques homofóbicos que nos últimos dias foram notícias nos jornais – sei que todos sabem do que falo.

Mas lendo os comentários sob as notícias, as opiniões, eu me lembrei do fato que relatei acima.

Um dos argumentos mais repetidos pelos que são contra a aprovação da PLC-122 é que não há necessidade de uma lei para “proteger” os homosexuais. Que seus direitos já são protegidos como de qualquer outro membro da sociedade, e que uma lei assim estaria beneficiando os homosexuais em detrimento do resto da população.

Freedom? We gave them all freedom…

Numa sociedade justa, eu teria concordado. Num mundo ideal, eu teria concordado. Mas num mundo ideal com uma sociedade justa, nem precisaríamos de tantas leis.

Acho que bastaria seguir o “amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei”.

Não, não sou uma religiosa praticante. Mas acho que esta curta regra resume tudo. Quem ama não mata, quem ama não rouba, quem ama não desrespeita, quem ama não agride, quem ama não prejudica.

Não estamos num mundo ideal, não temos uma sociedade justa. E é por isso que necessitamos de tantas leis, é por isso que é preciso colocar em papel, formalmente, o óbvio. Para que as pessoas “lembrem”.

Não beneficiamos os negros quando dizemos que praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional é crime e está sujeito a multa e reclusão (Lei 7716). Não beneficiamos os negros ou nordestinos ou sulistas ou brancos ou católicos ou espíritas com esta lei. Não prejudicamos ninguém tampouco. Mas tentamos garantir os direitos de todos.

Não beneficiamos as mulheres quando definimos que agressores de mulheres no âmbito doméstico ou familiar sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada, estes agressores também não poderão mais ser punidos com penas alternativas (Lei 11340). Não prejudicamos ninguém tampouco. Mas tentamos garantir o direito das mulheres à vida.

São direitos óbvios, mas que as pessoas “esquecem”.

A Lei 11340 existe porque Maria da Penha, que também dá nome à lei, resolveu lutar juntamente com órgãos internacionais para mudar a realidade de nosso país. Maria da Penha foi agredida pelo marido durante seis anos. Em 1983, por duas vezes, ele tentou assassiná-la. Na primeira com arma de fogo, deixando-a paraplégica, e na segunda por eletrocução e afogamento. O marido de Maria da Penha só foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado.

Quantos casos assim aconteceram, quantos piores, até que aprovassem tal lei, que mudassem o Código Penal? E quantas pessoas reclamaram, imagino, durante a luta de Maria da Penha? Quantos disseram que as mulheres se faziam de vítimas? Quantos foram contra, dizendo que a mulher, enquanto cidadã, já tinha seus direitos definidos na Constituição, e que uma lei assim estaria apenas beneficiando as mulheres em detrimento dos direitos dos homens?

Quantos negros irão apanhar nas ruas da África do Sul apenas por serem negros, enquanto os brancos seguirão dizendo que já não há apartheid? Quantos sofrerão discriminação em nossas ruas enquanto estufaremos o peito dizendo que não há preconceito no Brasil?

Quantos homosexuais ainda serão atacados, quantos serão demitidos de seus empregos apenas por assumirem sua sexualidade, quantos sofrerão humilhações, quantos morrerão enquanto nós seguiremos repetindo que não há homofobia, que esta foi uma palavra inventada por “esse povo que gosta de aparecer se fazendo de vítima”?

We gave them everything! What else do they want from us? How come do they come to TV to sing for freedom?

7 Comentários leave one →
  1. 20 novembro, 2010 3:27 pm

    Adorei a analogia, Valentis.
    É como digo, só quem sofre a ação é que parece perceber o preconceito que existe.
    As pessoas são/estão muito fechadas em seus próprios mundos contentando-se com achismos.

    Eu super balanço minha bandeira! Já viu? Ela é enorme, cabem 5 pessoas!

  2. Ariel permalink
    20 novembro, 2010 8:32 pm

    Sinceramente, adorei o post, realmente muito bom.
    Concordo com vc Té qd diz q so qm sobre o preconceito realmente o percebe. So nao entendi prq cabem 5 pessoas na sua bandeira^^”

    • 20 novembro, 2010 9:43 pm

      pq ela é enorme, ai dá pra enrolar 5 pessoas, todas juntinhas…
      ^^’
      tem uma foto dela aqui no blog até, acho que é no post: “Mamãe, sou lésbica!”

  3. Valentis permalink
    21 novembro, 2010 10:01 am

    Bom… agradeço os comentários. E quanto a ‘só quem sofre o preconceito é que o percebe’, vou usar uma frase da minha mãe: “quem bate esquece. Quem apanha, lembra…”
    Ainda há um longo caminho para a humanidade, me parece. Uma longa trilha de aprendizado, até que saibamos viver uns com os outros, até que compreendamos que não é nosso direito e muito menos nosso DEVER decidir como nosso vizinho deve viver sua vida. Um longo caminho até que deixe de existir essa necessidade estranha de fantasiar superioridades…

  4. 21 novembro, 2010 8:16 pm

    Clap Clap Clap
    Tem toda a razão!!

  5. 21 novembro, 2010 10:33 pm

    É verdade, quem bate esquece…
    Tenho lido posts indignados e é td verdade, não tá fácil viver assim! =(

  6. 22 novembro, 2010 9:51 am

    Concordo plenamente com você!!
    Até quando vamos fazer vistas grossas ao preconceito e a violencia?
    Muito bom o texto!
    Beijos

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