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armários

9 junho, 2011

Tenho lido muito esses dias, e lerei mais ainda. Portanto, como meu tempo anda atabalhoado, vez ou outra vou postar trechos de algo que gostei. Até pra eu não ficar tanto tempo sem postar nada aqui.

O fragmento que escolhi é do texto “A epistemologia do armário“, que trata, basicamente, da construção deste, de suas implicâncias, causas e consequências; enfim, de sua epistéme. Mas a parte selecionada em si, conta a história de Esther e sua angústia diante da necessidade de revelar seu segredo.

Espero que gostem…

Com os farrapos ensangüentados, de quantas arriscadas revelações realizadas e então superadas – de amigos, funcionários, empregadores, filhos – estaria forrada a imperiosa prosa das opiniões da maioria?

A estória de Esther parece um modelo para certa imagem simplificada, mas muito forte, da “saída do armário” e de seu potencial transformador. Ao ocultar seu judaísmo do marido, o rei Assuero, a rainha Esther sente que está simplesmente ocultando sua identidade: “O rei não sabe até hoje quem sou”. A fraude de Esther se torna necessária pela poderosa ideologia que faz com que Assuero caracterize o povo dela como sujo (“essa fonte impura” [1039]) e uma abominação contra a natureza (“aumenta nosso horror a toda a natureza” [174]). O sincero ódio aos judeus desse rei confuso, embora onipotente, é constantemente estimulado pelo grandioso cinismo de seu conselheiro Aman, que sonha com o planeta inteiro exemplarmente limpo do elemento perverso:

Quero que um dia se diga em séculos assombrados:
“Houve alguma vez judeus, houve uma raça insolente;
Espalhados, costumavam cobrir toda a face da terra;
Um só deles ousou atrair a ira de Aman,
Desapareceram de vez, cada um deles, da terra” (476-80).

O rei concorda com o plano genocida de Aman, e Esther fica sabendo por seu primo Mardoqueu, guardião e consciência judaica, que chegou a hora de sua revelação. Nesse momento, a particular operação de suspense em torno dela seria reconhecível por qualquer gay que tenha chegado perto de assumir-se para pais homofóbicos. “E se eu perecer, perecerei”, diz ela na Bíblia (Esther, 4:16). É claro que a revelação de sua identidade secreta terá um poder imenso, essa é a premissa da estória. O que resta saber é se, sob a pressão explosiva, o ânimo “político” do rei contra seu povo destruirá o amor “pessoal” dele por ela, ou vice-versa. Ele a declarará tão boa, ou melhor, como morta? Ou será logo encontrado numa livraria da vizinhança, esperando não ser reconhecido pelo vendedor, à procura de um exemplar de Amar uma Judia?

A estória bíblica e a peça de Racine, legíveis em seu equilíbrio entre o holocausto e o íntimo apenas porque sabemos como a estória vai acabar9, são encenações de um sonho ou fantasia particular sobre “sair do armário”. A dúvida e o choque do marido resistem por apenas cinco linhas à eloqüência de Esther: no instante mesmo em que ela declara quem é, tanto seu senhor como Aman percebem que os anti-semitas estão perdidos (“AMAN, em voz baixa: tremo” [1033]). A revelação da identidade no espaço do amor íntimo derruba sem esforço toda uma sistemática pública do natural e do não natural, do puro e do impuro. O golpe peculiar que a estória produz no coração é que a pequena capacidade individual de Esther, de arriscar a perda do amor e do favor de seu senhor, tem o poder de salvar não só seu próprio espaço na vida, mas seu povo.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. A epistemologia do armário. pp. 32-4

One Comment leave one →
  1. 10 junho, 2011 10:34 am

    Gostaria de ler esse livro. Achei tão interessante, tão inusitado o título – “A epistemologia do armário”.

    Legal a sua iniciativa de compartilhar as suas leituras aqui no blog e assim…engordando o “bichinho” de conhecimentos…

    =D

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