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“Nada contra”

17 fevereiro, 2013

nothing_tofear

Por Aline Valek

Não tenho nada contra homofóbicos. Eu, inclusive, tenho muitos amigos que são. O problema é que tem uns homofóbicos escandalosos, que não conseguem ser discretos. Ficam dando pinta que não gostam de gay, sabe? Tudo bem ser uma pessoa rancorosa e preconceituosa, mas não em público. Entre quatro paredes e bem longe de mim, tudo bem. Nada contra mesmo.

É impressionante o quanto eles se acham no direito de ficar com pouca vergonha na frente de todo mundo. Outro dia ouvi um cara dizer, em plena luz do dia e para quem quisesse ouvir, que “gay é abusado, mexe com homem na rua mais do que homem mexe com mulher”. Acredita? Mas já vi e ouvi coisas piores. “Tenho nojo de homem se pegando” ou “essas menininhas que se beijam não são bissexuais coisa nenhuma, só querem chamar atenção dos homens” ou ainda “te sento a vara, moleque baitola”, e por aí vai. E se alguém critica, logo apelam para “ah, foi só uma piada” ou “é a minha liberdade de expressão” ou ainda “está na Bíblia”. O horror, o horror.

Ser homofóbico é uma opção, mas ninguém tem a obrigação de aceitar, né. É muito constrangedor ver alguém olhando feio para duas pessoas do mesmo sexo se beijando. Como eu vou explicar para os meus filhos que existe gente intolerante? O pior é que nem na escola as crianças estão a salvo. Querem ensinar nossos filhos a serem homofóbicos, imagina! Quando você percebe, já é tarde demais: uma amiga minha foi chamada pela diretora porque o filho foi pego espancando um colega no intervalo. Tudo porque o rapaz era gay. Minha amiga, coitada, não aguentou a decepção de ter um filho homofóbico. Ela diz que é só uma fase, que vai passar. Por garantia, levou o menino no psicólogo.

Acredite, homofobia tem cura. Soube de uns casos de conversão que parecem até milagre. Em um dia, a pessoa estava lá, odiando gays, militando contra o direito dos homossexuais ao casamento civil, fazendo marcha pela família e tudo o mais. Mas com um pouquinho de empatia e bom senso, eles começaram a ver que não tinham nada que se meter com a sexualidade dos outros. E como o respeito é todo-poderoso e misericordioso, os ex-homofóbicos viram que os gays eram boas pessoas e também mereciam os mesmos direitos. Hoje dão testemunho de tolerância.

Agora, tão preocupante quanto homofóbicos exibidos e sem-vergonha são aqueles que não se assumem. Aqueles que não saem do armário, que se fazem de pessoas normais e sem ódio no coração, mas que, no fundo, no fundo, também são fiscais de cu alheio. Pensa comigo: você sai com uma pessoa dessas, sem saber da opção de ignorância dela, e começam a pensar que você também é homofóbico, igual a ela. E todos sabemos que homofóbicos são abominações, ninguém quer ser confundido com um deles. Além disso, onde enfiar a cara quando eles resolverem se revelar e soltarem um “odeio viado” assim, do nada?

Mas não me leve a mal. Não tenho nada contra os homofóbicos, apenas não concordo com a homofobia. Essa doença quase sempre vem acompanhada de outros preconceitos, como o machismo e o racismo. É um caminho sem volta. Fico triste de ver tantos jovens se perdendo nesse mundão de ódio gratuito. É por essas e outras que prefiro ter um filho gay a um filho homofóbico. Ah, você quer saber se eu vou aceitar e amar um filho que virar homofóbico? Como alguém já disse por aí, eles não vão correr esse risco; vão ser muito bem educados.

Fonte: http://www.alinevalek.com.br/blog/2012/05/nada-contra/

5 Comentários leave one →
  1. Beattriz permalink
    17 fevereiro, 2013 9:56 pm

    Não acredito que ser homofóbico seja opção, muito menos ser gay, lesbica, etcs. Outro dia conversando com uma amiga “extra” butch, observei um detalhe importante: a única opção que nós lesbicas temos, para sermos aceitas e respeitadas pela sociedade é não carregar demais na masculinidade, daí ela me disse: “ah, eu não consigo usar saia ou coisinhas com decote,etc”, ora também não precisamos chegar a tanto…sempre existimos e vamos continuar a existir, de uma forma ou de outra…Eu tambem não consigo usar saia ou algo frufruzinho, mas eu quero andar em paz na rua, sem agredir nem ser agredida, muito menos ser, sistematicamente, chamada de caminhoneira, como acontece com ela…Até que gostaria de pegar um caminhão e sair pelo Brasil todo, mas infelizmente nem isso sou (caminhoneira), O que eu quero é entrar no meu serviço ou num shopping e não me sentir uma aberração ou alvo de esculhambação. Como vc disse, entre quatro paredes é uma coisa, na sociedade é outra…inclusive para nós. Até que hoje em dia temos muitos lugares para ficar a vontade, algumas leis que acham que nos proteje, etc…Acho que dar uma disfarçada, “pegar leve”, não custa nada e evita muitos dissabores, acho um preço até pequeno pela paz que o “pegar leve” proporciona, afinal temos que viver e não sobreviver a cada minuto da nossa vida.
    Quanto aos homofóbicos…acredito que o problema deles seja bem mais profundo do que uma simples opção de pensamento ou sentimento…Acho que é em decorrencia de traumas, recalques ou algo realmente causou um disturbio psicológico. Normalmente não saimos por aí gritando ou esperneando que odiamos coisas, tipo: odeio portugues ou espanhol ou acaraje….Ora se eu odeio espanhol ou acaraje, só pode ser por algo negativo que me aconteceu um dia e ainda não consegui resolver…E não deve ter sido mole não…

    • 19 fevereiro, 2013 1:47 pm

      Oi,
      acredito que o texto da Aline seja uma “analogia irônica”. Ela trocou o termo homossexual por homofóbico, apenas isso, para que por meio desse traço estilístico se pudesse compreender quão absurdo são os argumentos utilizados para discriminar e negar essa ação ao mesmo tempo. De quebra, ela ainda consegue fazer uma crítica objetiva do que deveria ser realmente motivo de vergonha: o preconceito!

      Quanto ao seu outro ponto, bem, se é assim que você se sente bem, continue. Contudo, não ache que o modo de se vestir é um mero detalhe. Muito menos acredite que isso é uma agressão aos outros. Esse tipo de discurso, desculpe-me sinceramente pela honestidade, é fruto do mesmo tipo de preconceito supracitado. É como dizer para uma mulher: “não use saia curta, você está pedindo para levar cantadas ou ser agarrada por algum tarado”. Não, meu bem, ela não está! Assim como sua corajosa amiga não está pedindo para ser massacrada por ignorantes. É dos ignorantes que devemos nos envergonhar e/ou ter pena! São eles que deveriam disfarçar seu comportamento, porque esse tipo de comportamento sim, é agressivo (e criminoso)!
      Ser você mesmo só é errado quando faz mal ao outro.

      • Beatriz permalink
        19 fevereiro, 2013 5:29 pm

        Té P., tenho 53 anos e infelizmente nasci em uma sociedade onde o preconceito impera, seja por negro, pobre, gay, lésbica, nordestino, judeu, cigano, favelado, etc…Conheço o preconceito e a ignorância de cor e salteado…Minha argumentação discorreu sobre opção…Opção de ser ou não achincalhada pelas ruas…Hoje prá mim, tanto faz, sou aposentada e já paguei meu preço por ser o que sou. O que me lembrei para dissertar sobre a opção de se vestir masculinizada foi, por exemplo: vc é advogada, experimente entrar num fórum, de coturno, carregando uma maleta 007, com cabelo igual o do Neimar… Sinta quanto respeito terão por vc, desde os faxineiros ao Juiz e principalmente seus clientes. Não sei quantos anos vc tem, mas até bem pouco tempo, mulheres do sexo masculino ou feminino, só entravam em fóruns e em muitas outras repartições estaduais ou federais de saia….Entravamos de saia e não deixamos de ser lésbicas. Este é meu ponto…Agora, quando eu ligo qualquer meio de comunicação e leio ou ouço que ser como somos é opção, tenho vontade de matar ou morrer de raiva! Eu não optei em ser o que sou, sou sapatão! Calço 36 e sou sapatão!…Sou sapatão? Sou caminhoneira? Não….
        Não esqueça, dissertei sobre opção…
        E continua sendo uma opção hastear e principalmente suportar as bandeiras que quisermos. Suportamos? Não sei se vc é sapatão…Mas quem é sabe o que tem que suportar…Não é bom. Profissionalmente espero que todos os sapatões, travestis, etc, tenham muito sucesso….Teremos, numa sociedade hipócrita como a nossa? Tomara que sim…

  2. 20 fevereiro, 2013 1:08 am

    A sua idade não torna a senhora/você nem mais, nem menos experiente do que eu. Existem meninas e meninos de 12, 13, 14 anos (às vezes um pouco mais, noutras um pouco menos) que conhecem o preconceito bem de perto, também. E que também nasceram numa sociedade aonde os preconceitos imperam.

    Não deixei de entender que você falou sobre “opção”. Mas, ao que me parece, nós discordamos quanto a ela. Não acho que o uso de determinadas vestimentas seja uma “mera opção”. Quanto ao seu exemplo, se vamos falar de etiqueta profissional, a situação muda, e muito, de figura. Uma coisa é como me visto para trabalhar, outra é como me visto em casa, outra completamente diferente é como me visto para sair e assim por diante. Quanto a entrada ou saída de fóruns e afins, estou certa de que minha avó é deveras mais velha que a senhora/você e ela chegou a entrar em locais desse nível de formalidade vestindo calças, isso nos anos 50. Ao que me consta, cada repartição tem certa autonomia para estabelecer suas próprias regras. De qualquer maneira, são apenas convenções.

    Outra coisa que, pelo visto, discordamos diz respeito a diferença entre “levantar bandeiras” e “dar bandeira”. Para mim, a primeira está intrinsecamente ligada a um certo tipo de “ativismo”, enquanto a segunda depende necessariamente dos indivíduos envolvidos no jogo.

    A roupa não define orientação sexual, a roupa no máximo se relaciona intimamente com “identidade de gênero”, conceito extremamente questionável pois parte do princípio de que o gênero, seja ele masculino ou feminino, é passível de identidade, isto é, de uma “essência”. Dessa forma, realmente não importa usar roupa x ou y, continuaremos todas sendo lésbicas, sapatas, sapatonas, sapatilhas, fanchas…

    E concluindo, não estou dizendo, nem disse em momento nenhum, que preconceito não existe, ou que as pessoas devam se colocar em risco – até porque se o fizesse seria contraditória com um texto meu aqui publicado. Porém não acredito que cercear a própria liberdade seja viver plenamente, ou em paz, só porque não estão me chamando de sapatão na rua. Muito pelo contrário, pois no meu caso, prefiro ser do jeito que bem entender. Ir contra ao que quero faria com que eu me criticasse e, para mim, esse seria o pior constrangimento. Um constrangimento que continuaria ressoando na minha consciência mesmo que não houvesse mais nenhum termo depreciativo sendo desferido pelos ignorantes. Mas isso, é a minha preferência, é como eu me sinto a respeito disso, e não tento – nem estou tentando – impor minha opinião a ninguém.

    Sem mais…, o texto nem fala disso exatamente, né?!

    Abraço.

    sobre o referido post: https://napontadosdedos.wordpress.com/2009/02/05/all-you-need-is-love/

  3. 23 fevereiro, 2013 9:54 am

    Agradar as pessoas nunca foi à solução pra nada. A solução mais fácil é sempre a mais difícil. A que te dói em todos os seus órgãos internos, que corrompe não só o seu caráter,também a sua alma .Corroeu seu coração , seca seu sangue,fura e sega seus lindos olhos,amordaça e cala tua boca.Só não surda teus ouvidos pra que possas ouvir as coisas ao seu redor,e para que essas coisa aumentam mais a dor,o sofrimento.Mesmo tentando nunca se agrada a todos.A falha dessa missão tão destrutiva dói em carne viva,como dor de morte uma morte lenta e agonizaste,como as dores de chagas,como todas as dores do mundo em um só ser frágil.Tão Humano.Até que,percebe-se que toda essa luta travada é inútil que assim nunca se vai longe,que nunca se é verdadeiramente feliz não sendo quem é.E mesmo que consiga tal gloria o peso a ser pago é alto de mais.Dói de mais de mais e não há como dividir com alguém é uma divida intransponível.Não há como escapar da dor de renunciar à si mesmo não há como esconder de si as próprias feridas e as cicatrizes que essa escolha trás.Não há como forçar a faça a si mesmo.Pode-se negar e fingir pro mundo inteiro maquiando as tristezas e desenhando sorrisos em seu rosto,mas não pode negar a si mesmo por muito tempo.Olhe-se no fundo e veja tudo o perdeu lá dentro.Tenha orgulho de ser exatamente como se é. As pessoas que te amam continuaram a te amar e se não continuarem e porque nunca amaram de verdade.
    http://pensamentossoltosemim.blogspot.com.br/

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